Arquivo do Autor: Mauricio Neves

EDUARDO, O XERIFE DO MORRO DO POSTO

Corria o ano de 1982. O futebol brasileiro ainda sangrava a derrota de Sarriá e procurava por novos heróis, ou por algo que devolvesse o sentido à bola que se jogava. No meu caso, um garoto de nove anos que teve na Copa da Espanha sua primeira desilusão amorosa, algo que devolvesse o sentido à vida que se vivia, depois do sonho destroçado pelos pés de Paolo Rossi. Cada qual à sua maneira, os torcedores buscavam uma nova esperança. Era preciso reconciliar-se com o jogo.

Eu reencontrei o futebol em um pequeno palco do sul do país. “Estádio Vidal Ramos Júnior, o próprio da municipalidade”, dizia Aldo Pires de Godoy na Rádio Clube. Naquela noite de inverno o Inter de Lages entrou em campo para encarar o Joinville, que reinava absoluto em terras catarinenses. E era certo que aquele Joinville seria outra vez campeão catarinense, não havia força capaz de impedir o quinto título seguido tricolor. O que queríamos é que naquela noite, apenas naquela noite, a história fosse diferente. Que o Joinville levasse suas taças, mas não com uma vitória em nosso quintal. Havia sido assim na Taça Governador do Estado, disputada no primeiro semestre. Joinville campeão, mas sem vencer o Internacional.

Liderado pelo craque Nardela, o adversário buscou o ataque. Mas suas iniciativas paravam em um beque parrudo, peito estufado, altivez cangaceira. A barba espessa sobre a pele castigada, a cara de poucos amigos, nada era acolhedor em Eduardo. Poderia ser um bandido de um faroeste de Sergio Leone. Todavia, para nós lageanos, os colorados eram mocinhos, e bandidos eram os outros. Por isso Eduardo era o nosso xerife. Como morava no bairro do Morro do Posto, assim ficou conhecido: Eduardo, o Xerife do Morro do Posto.

Amigos, o embate foi épico. O Joinville atacava em bloco e Eduardo desbaratava a trama ofensiva sem sutilezas. Carrinhos, voadoras, cabeçadas na bola e nas chuteiras, chutes giratórios, tudo sem mexer um músculo facial. Houvesse uma gravação do que fez Eduardo naquela noite e os atuais lutadores de MMA mudariam de profissão, envergonhados. Talvez se transformassem em jardineiros para cultivar petúnias.

Outros tempos. Defender era um ofício sério, que prescindia de sorrisos ou boas maneiras. Eduardo não era violento, apenas herdara a impávida rudeza do homem lageano. Honrava suas chuteiras pretas e sua insígnia em forma de estrela. Era um cumpridor de seus deveres. Um boi de botas. Um sério.

Eduardo pôs os atacantes tricolores em debandada e o Joinville ficou acuado em sua metade de campo. O Inter estabeleceu o cerco. Apenas Eduardo ficou na intermediária defensiva, onde recolhia as rebatidas desesperadas do adversário para repor o Inter no ataque. Vinha o chutão, Eduardo amaciava a bola no peito estufado e a despachava para o companheiro melhor colocado.

De tanto pressionar, o Inter conseguiu um pênalti. Martinho Bin executou o goleiro Hélio Fernandes com a frieza habitual e anotou o único gol da noite. Os jogadores vieram comemorar junto ao pavilhão social onde eu estava com meu pai, e procurei no emaranhado de braços erguidos o nosso xerife. Não, ele não estava entre os que festejavam o gol. Eduardo já havia retornado ao seu posto, sozinho, e ajeitava a camisa por dentro do calção, esperando o jogo recomeçar.

Eduardo, estampa de bandido, autoridade de xerife

Pelo registro histórico, diga-se que naquele ano o Joinville venceu a Taça Governador e o campeonato estadual, mas não superou o Inter em nenhuma oportunidade. Nos dois jogos no Ernesto Schlemm Sobrinho, empates sem gols. Nos dois jogos no Vidal Ramos Júnior, vitórias coloradas pelo escore mínimo. Ser campeão era uma coisa. Dobrar o Inter de Eduardo em 1982 era algo bem diferente.

Naquela noite, o Inter venceu com o gol de Bin e com a autoridade de Eduardo, nos pés de quem o jogo se encerrou exatamente no nonagésimo minuto. Após dominar a derradeira rebatida do Joinville, o Xerife pisou na bola e ficou estático. Assertivo, olhou para o árbitro José da Silva Melo que, entendendo o gesto, apitou o fim. Melhor para todos. Eduardo não deixaria o Joinville fazer um gol nem que a partida fosse até o amanhecer.
A Rádio Clube já havia escolhido, por unanimidade, o melhor em campo. Eduardo receberia um radinho a pilha, oferecimento da Loja Magnetron. O repórter Evaldir Nascimento alcançou Eduardo quando este já deixava o gramado e o interpelou: “- Eduardo, você acaba de ganhar este rádio National Panasonic, fidelidade em ondas curtas, médias e longas, como o melhor jogador da noite!”

Sem interromper sua caminhada, Eduardo disse rangendo dentes: “- Não quero. Não fiz mais do que a minha obrigação”.

E desceu a escadaria rumo ao vestiário, onde deixaria sua camisa vermelha, sua estrela dourada e suas chuteiras pretas. Dentro de instantes voltaria a ser apenas Eduardo Antunes de Castro, misturado entre outros lageanos no último ônibus circular com destino ao Morro do Posto, sem querer mais que um prato de comida e o reconfortante sono dos justos.

O futebol sente saudade de você, Eduardo.

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Eles sonhavam conquistar o Maracanã

Mauricio Neves (@badsnows no Twitter)

O Flamengo entra em campo amanhã de manhã para tentar o seu segundo título na mais tradicional competição de divisões de base do país. Vinte e um anos separam os dois torneios e muita coisa mudou ao longo de duas décadas. Uma delas, sem dúvida, é a visibilidade da competição.

Na então Taça São Paulo de Juniores, em 1990, poucos jogos eram televisionados. Já em 2011, os times mais populares tiveram todas as suas partidas transmitidas por pelo menos um dos três canais que cobrem a competição. Assim, a torcida do finalista Flamengo já se habitou a nomes como César, Marlon, Muralha, Lorran, Negueba, Rafinha e outros. Em contraste, o time liderado por Djalminha em 1990 teve apenas dois de seus onze jogos televisionados em rede nacional, ambos pela Bandeirantes: a estreia contra o Botafogo de Ribeirão Preto e a final contra o Juventus.Fla 3x0 Inter, jrs

A vitória que ganhou contorno de lenda foi a que valeu a vaga para a semifinal. O Flamengo poderia até empatar com o Corinthians, mas aplicou uma volumosa goleada de 7×1 diante de um Pacaembu lotado pela Fiel, no dia do aniversário da cidade de São Paulo. Na preliminar, um amistoso de profissionais reviveu a rivalidade entre os estados, e a seleção paulista liderada por Mirandinha bateu uma pitoresca seleção carioca, com “craques” como Macula e Alcindo. A goleada rubro-negra fez o país voltar os olhos para o garoto Djalminha, autor de cinco gols naquela tarde, um deles de antologia, por cobertura.Fla 7x1 Corinthians

O que poucas pessoas lembram é que o maior destaque do Flamengo na competição até então era Marcelinho, ainda sem a alcunha “Carioca”, assim como o zagueiro Júnior ainda não era “Baiano”. O time carioca estava sendo eliminado pela Portuguesa do artilheiro Sinval, na terceira fase, até que Marcelinho acertou uma de suas cobranças de falta no último minuto. Na disputa de pênaltis, melhor para o Flamengo: 4×1.

O problema para o técnico Ernesto Paulo era que aquele seria o último jogo de Marcelinho na Taça São Paulo. Ele e seus companheiros Marquinhos e Paulo Nunes foram convocados para a seleção brasileira de juniores que disputaria a Copa Atlântica, em Las Palmas, na Espanha. Mas foi justamente a ausência de três destaques do time que fez o talento de Djalminha explodir naquele distante janeiro. No último dia do mês, com o apoio de cinco mil rubro-negros que foram ao Pacaembu incentivar o Urubu contra o Moleque Travesso, Júnior Baiano recebeu um passe perfeito de Djalminha e encobriu o goleiro juventino Alessandro. A alegria com o título da Taça São Paulo foi uma das poucas dos torcedores do Flamengo com aqueles jogadores. Djalminha, Paulo Nunes e Marcelinho levantariam muitas taças em suas carreiras, mas a maioria bem longe do Maracanã que sonhavam conquistar.

A seguir, os jogos do Flamengo na Taça São Paulo de Juniores de 1990:

Flamengo 1×1 Botafogo (Ribeirão Preto)
6 de janeiro de 1990
Taça São Paulo de Juniores
Vila Belmiro – Santos
Gol do Flamengo: Fabinho, de cabeça

Flamengo 1×0 Nacional (São Paulo)
8 de janeiro de 1990
Taça São Paulo de Juniores
Clube Portuários – Santos
Cartões vermelhos: Marquinhos (Fla) e Ernesto Paulo (Fla)
Flamengo: Adriano, Mário Carlos, Tita, Edmilson e Piá; Marquinhos, Marcelinho e Fabinho; Paulo Nunes, Nélio e Luís Antônio. Técnico: Ernesto Paulo
Nacional: Nelson, Girlando (Claudinei), Luciano, Pedro e Carlos Fernando; Antônio Carlos, Zeomar e Roberto; Marcelo (Robson), Flávio e Valdinei.
Gol: Nélio aos 32 do 1º tempo.

Flamengo 2×0 Central Brasileira (Cotia)
10 de janeiro de 1990
Taça São Paulo de Juniores
Clube Portuários – Santos
Gols: Paulo Nunes (2).

Flamengo 2×1 Criciúma
12 de janeiro de 1990
Taça São Paulo de Juniores
Vila Belmiro – Santos
Gols: Djalminha (Fla) e Everaldo (Criciúma) no 1º tempo; Paulo Nunes (Fla) no 2º tempo.

Flamengo 0x0 Santos
14 de janeiro de 1990
Taça São Paulo de Juniores
Vila Belmiro – Santos
Obs.: Na fase classificatória, os jogos empatados sem gols eram decididos nos pênaltis, e o vencedor levava um ponto, contra nenhum do perdedor. Neste jogo, o Flamengo venceu por 5×4.

Flamengo 3×1 Tuna Luso
16 de janeiro de 1990
Taça São Paulo de Juniores (2ª fase)
Canindé – São Paulo
Gols: Piá (Fla) no 1º tempo; Marcelinho (Fla), Luciano (Tuna, pênalti) e Djalminha (Fla) no 2º tempo.

Flamengo 1×1 Portuguesa
18 de janeiro de 1990
Taça São Paulo de Juniores (3ª fase)
Canindé – São Paulo
Cartão vermelho: Tita (Flamengo)
Gol do Flamengo: Marcelinho (falta) aos 44 do 2º tempo.
Obs.: Nos pênaltis, o Flamengo venceu por 4×1.

Flamengo 1×2 Juventus (São Paulo)
21 de janeiro de 1990
Taça São Paulo de Juniores (4ªs de final)
Rua Javari – São Paulo
Flamengo: Adriano, Mário Carlos, Edmilson, Júnior Baiano e Piá; Rodrigo Dias, Fabinho e Djalminha; Luís Antônio, Nélio e William. Técnico: Ernesto Paulo.
Juventus: Alessandro, Canela, Emerson, Índio e Vagner (Carlão); Aleba, Ed Wilson e Fernando (Índio II); Rogério, Ricardo e Silva.
Gols: Nélio aos 6 e Índio II aos 39 do 1º tempo; Rogério a 1 do 2º tempo.
Obs.: O goleiro Adriano, do Flamengo, defendeu um pênalti cobrado por Ricardo aos 34 do 1º tempo.

Flamengo 7×1 Corinthians
25 de janeiro de 1990
Taça São Paulo de Juniores (4ªs de final)
Pacaembu – São Paulo
Árbitro: João Paulo Araújo
Flamengo: Adriano, Mário Carlos, Tita, Júnior Baiano e Piá (Selé); Edmilson, Rodrigo Dias (Fábio Augusto), Fabinho e Djalminha; Nélio e Luís Antônio. Técnico: Ernesto Paulo
Corinthians: Márcio, Joice, Robson, Santana (Duda) e Bezerra; Pardal, Ari Bazão, Luís Fernando e Alemão; Abelardo e Juarez (Wladimir).
Gols: Nélio aos 15, Djalminha (falta) aos 29 e Djalminha (pênalti) aos 42 do 1º tempo; Piá aos 5, Wladimir aos 9, Djalminha (pênalti) aos 17, Djalminha (de cabeça) aos 34 e Djalminha (de cobertura) aos 42 do 2º tempo.

Flamengo 3×0 Internacional (Porto Alegre)
29 de janeiro de 1990
Taça São Paulo de Juniores (semifinal)
Estádio Municipal – Suzano
Árbitro: Walter Borges de Queiroz
Flamengo: Adriano, Mário Carlos, Tita, Júnior Baiano e Piá; Rodrigo Dias (Fábio Augusto), Djalminha e Luís Antônio; Nélio (William) e Fabinho.
Inter: Alberto, Célio, Sandro, Colovine e Carlos; Murilo, Marcelo e Moreno; Calil (Leandro), Fábio e Gilmar (Luís Fernando). Técnico: Abílio Reis.
Gols: Luís Antônio aos 20 do 1º tempo; Fabinho aos 18 e Djalminha (falta) aos 36 do 2º tempo.

Flamengo 1×0 Juventus (São Paulo)
31 de janeiro de 1990
Taça São Paulo de Juniores (final)
Pacaembu – São Paulo
Flamengo: Adriano, Mário Carlos, Tita, Júnior Baiano e Piá; Rodrigo Dias, Fábio Augusto (William), Fabinho e Djalminha; Luís Antônio e Nélio. Técnico: Ernesto Paulo.
Juventus: Alessandro, Canela (Fernando), Emerson, Índio e Vagner ; Aleba, Índio II e Ricardo Vieira; Ed Wilson, Carmo e Silva.
Gol: Júnior Baiano aos 28 do 1º tempo.


Fontes: O Globo, JB, Revista Placar, minhas anotações e gravações da época.

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Aliados: escudo e fichas de grandes jogos

escudos aliadosFui alertado pelo Ielo de que o escudo do Aliados permanecia inédito, e fui atrás. Não achei nada em cartório, mas entrevistei um dos últimos torcedores do Aliados, o senhor Vivaldino Athayde. Viva, como é mais conhecido, se tornou torcedor do Inter de Lages quando o Aliados fechou as portas, mas ainda guarda uma carteirinha de sócio do Aliados com o escudo original do time: um círculo de bordas vermelhas com a parte interna amarela, onde se inscreve em letras vermelhas e justificadas a palavra ALIADOS.

Eu já havia visto nas fotos do time outros dois escudos, sempre no formato circular. Um exatamente igual ao do América do Rio, apenas invertendo as cores: letras vermelhas em fundo branco. O outro foi usado nas camisas do goleiro Tena: círculo branco com as iniciais AFC em arial negrito. Também há registro do Aliados jogando com camisas brancas com a inscrição do nome ALIADOS F.C. no peito.

aliados

Viva explica a confusão dos escudos: “O escudo oficial é o círculo com Aliados escrito dentro, ocupando toda a área. O problema é que esse escudo era bordado em Porto Alegre, em Lages tinha que ser bordado à mão e era difícil. Assim, quando um jogo de camisa estragava, não tinha escudo para repor. Por isso o Aliados jogou muitas vezes sem escudo, ou só escrito o nome, ou com o escudo AFC na camisa do Tena. Depois disso, um diretor aliadino que era torcedor do América, trouxe do Rio vários escudos do América para bordar,  já que as iniciais eram as mesmas, mas foi usado em um jogo e os torcedores não gostaram. Essa confusão era só na camisa mesmo, o escudo oficial sempre foi o círculo com o nome Aliados dentro, com a letra no formato do escudo do América”.

Assim, nas palavras de um de seus últimos sócios, o Aliados tem finalmente o mistério do escudo esclarecido. O oficial é este, publicado neste artigo, e que pode ser visto também na foto, nas camisas dos jogadores de linha. Note-se, na camisa do goleiro, o escudo com as iniciais em arial.

***

Depois de oito anos disputando amistosos e torneios não oficiais, o Aliados venceu o primeiro campeonato municipal de Lages ao bater o Vasco, na final, por 2×1, em 1951.  Os dois gols aliadinos foram marcador por Túlio Bolão, ambos de cabeça. Além de exímio cabeceador, Túlio ficou conhecido em Lages pelos gols de bicicleta e por ser ritmista da Orquestra Guanabara, que animava os mais finos bailes sociais da cidade, e também os convescotes das casas noturnas alternativas.

Naquele mesmo ano, o Aliados recebeu as faixas do poderoso Carlos Renaux, de Brusque, que reluzia o famoso ataque formado por Julinho, Aderbal, Teixeirinha, Euclides e Petruski. Os brusquenses venceram por 5×4.

Campeão lageano de 1951, o Aliados representou a cidade no campeonato catarinense daquele ano, que só veio a ser disputado em 1952. Em jogos de ida e volta, os aliadinos foram eliminados ao perder a prorrogação no jogo de volta para o Cruzeiro, do Joaçaba. Depois daquelas partidas, os principais jogadores do Cruzeiro – Vicente, Orá, Bodinho, Ortiz, Esnel e Dinha – seriam contratados por três clubes lageanos, Aliados, Inter e Vasco. Anos mais tarde Esnel chegaria à Ponte, ao São Paulo e à seleção brasileira, enquanto Dinha seria titular no Grêmio de Porto Alegre. Mas aí já é história para outro artigo.

Fichas dos jogos citados:

Aliados 2×1 Vasco
1º Campeonato Citadino de Lages – 16 de setembro de 1951
Estádio Municipal Areião de Copacabana – Lages
Renda: Cr$ 4290,00
Árbitro: Tenente Jorge Klier
Aliados: Isauro, Russil e Félix; Decarli, Lambança e Brandão; Túlio, Eustálio, Emilio, Aldo Neves e Guinha.
Vasco: Daniel, Gevaerd e Juca; Bertoldo, Nuta e Erasmo; Miro, Bertoli, Tavares, Edu e Ernani.
Gols: Túlio e Guinha, ambos de cabeça, para o Aliados; e Miro para o Vasco, todos no 1° tempo.
Obs.: Com esse resultado o Aliados conquistou o Campeonato Citadino de 1951.

Aliados 4×5 Carlos Renaux (Brusque)
16 de novembro de 1951 – Entrega de faixas para o Aliados
Estádio Municipal Areião de Copacabana – Lages
Árbitro: Dirceu Mendes
Aliados: Isauro (Andrade), Russil e Félix; Vicente, Binha e Wilton; Tulio, Eustálio, Emilio, Aldo Neves e Guinha (Luzardo).
Renaux: Mário, Afonso e Ivo; João, Bolonini e Calico; Julinho, Aderbal, Teixeirinha, Euclides e Petruski.
Gols: Teixeirinha, Euclides, Aderbal (2) e Russil (contra) para o Renaux; Guinha (2), Vicente e Túlio para o Aliados.

Cruzeiro (Joaçaba) 2×2 Aliados
27 de abril de 1952 – Campeonato Catarinense de 1951
Estádio Oscar Rodrigues da Nova – Joaçaba
Gols: Emilio e Guinha para o Aliados; Bodinho e Gérson para o Cruzeiro.

Aliados 2×2 Cruzeiro (Joaçaba)

4 de maio de 1952 – Campeonato Catarinense de 1951
Estádio Municipal Areião de Copacabana – Lages
Árbitro: Newton Manguilhote
Aliados: Isauro, Russil e Wilton Meningite; Decarli, Jorge e Lambança; Túlio Bolão, Aldo, Emílio, Eustálio e Guinha.
Cruzeiro: Pedrinho, Chico e Konder; Elpídio, Vicente e Orá; Bodinho, Gérson, Ortiz, Esnel e Dinha.
Gols: Ortiz (Cruzeiro) aos 9 e Aldo Neves (falta) aos 20 do 1° tempo; Guinha aos 3 e Esnel (Cruzeiro) aos 43 do 2° tempo.
Obs.: Na prorrogação o Cruzeiro venceu por 3×1 e eliminou o Aliados. Ortiz (2) e Bodinho marcaram para o Cruzeiro e Emilio descontou para o Aliados.

Fontes: Vivaldino Athayde, uma identificação de sócio do Aliados, acervo do autor, acervo do Correio Lageano. Foto do Aliados: acervo Clóvis Fava / Blog do Pardal. Arte do escudo: Daniel Galvani.

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O Urso do David

Armando Nogueira viu a Hungria jogar em 1954 e ficou maravilhado. Só falava de Puskas, e Kocsis, e Czibor. Nelson Rodrigues deitava e rolava com o deslumbramento do amigo. “Armando, como um time tão bom perdeu para uma seleção cintura-dura?” E ironizava, chamando os míticos magiares de “a Hungria do Armando”.

Laerte em ação

Laerte em ação

Quase ninguém no Brasil viu a Hungria do Armando jogar, mas durante décadas se falou daquele timaço assim, a Hungria do Armando. Lembrei disso ao ver David Coimbra afirmar no Redação Sportv que o melhor centroavante do mundo foi Laerte, o Urso. David já escreveu sobre as qualidades de Laerte, dentre as quais o chute mortal e a estatura de um metro e setenta e três, a altura dos craques. O único senão de Laerte, diz David, era que só jogava com as vestes de Próspera e Criciúma, os times da Capital do Carvão. Bastava vestir outra camisa e perdia seus poderes, passava a ser um centroavante fútil, cotidiano e tributável. Deixava de ser Laerte, o Urso, para ser Laerte, mais um na multidão.

Algumas pessoas devem ter se perguntado: “Seria Laerte mais um dos personagens do David? Mais uma daquelas criaturas que das ruas do IAPI desvendam os mistérios do mundo?” Em verdade, vos digo: Laerte, o Urso, existiu. Eu o vi jogar e atropelar zagueiros com seu corpo ursídeo. Ele parece, mas não é um personagem de David Coimbra.

Laerte Aracy Sérgio nasceu em Urussanga, em 26 de agosto de 1957. Em 1978, ainda garoto, fez alguns jogos pelo Comerciário, que no 17 de março daquele ano passou a se chamar Criciúma Esporte Clube. Laerte, o Urso, fez o primeiro gol da história do Criciúma que ainda não era Tigre, porque vestia azul. E foi fazendo gols, o Urso, de todos os jeitos. Quando deixou o estádio Heriberto Hülse, em 1981, era o maior artilheiro da história do Criciúma, com 54 gols.

A primeira vez que vi Laerte foi quando ele veio a Lages, enfrentar o Inter. Já era o temido Urso. E no Inter de Lages tinha um zagueiro chamado Eduardo, cara de bandido e porte de xerife, morava no bairro Morro do Posto, e por isso era chamado de Eduardo, o Xerife do Morro do Posto.

Foi o duelo anunciado, como dois pistoleiros que fossem se encontrar ao cair do sol. Laerte, o Urso, versus Eduardo, o Xerife do Morro do Posto. “Não vai sobrar pedra sobre pedra”, anunciava o narrador Aldo Pires de Godói na Rádio Clube, chamando o povo para estádio Vidal Ramos. O povo foi. Eu fui. E vi.

Laerte, o último agachado, disfarçado de ponta-esquerda no Criciúma de 1978

Laerte, o último agachado, disfarçado de ponta-esquerda no Criciúma de 1978

Foram vinte e quatro minutos intensos. Pernadas, puxões nas camisas, cotoveladas. O Urso e o Xerife se engalfinhavam, caíam no chão, levantavam poeira. Vinte e quatro minutos um contra o outro, sem que nenhum dos dois tocasse na bola. Havia o jogo, lá longe, e o duelo. Eu assistia ao duelo.

De repente, Eduardo se viu sozinho. Olhava para os lados e não via o Urso, que sumira como num passe de mágica. Ouviu um palavrão berrado pelo goleiro Luiz Fernando Xixi e olhou para trás. Era o Urso, matando a bola no peito antes de estufar as redes coloradas no vigésimo quinto minuto da peleja. Ele ainda fez mais um, e o Inter só empatou em três as três porque era um bom time, liderado por Mikimba, tio do Ronaldinho Gaúcho que ainda nem pensava em nascer.

Tergiverso. O assunto é Laerte, o Urso. Se marcasse com qualquer camisa os gols que marcava pelos times de Criciúma, teria jogado com Pelé no Cosmos, com Falcão na Roma, com Platini na Vecchia Signora do Lédio Carmona. Aliás, se ele pudesse viajar no tempo e pegar a vaga de Puskas na Hungria de 1954, e se a Hungria jogasse com a camisa azul do Criciúma, o mundo seria diferente hoje, e ninguém faria troça com Armando Nogueira e David Coimbra. Aquela seria a Hungria de Laerte, o Urso, campeã mundial de 1954.

Obs.: Laerte, eterno nos corações dos criciumenses e do David Coimbra, morreu em abril de 2004. Mais sobre o Criciúma e sobre o Urso no Almaque do Criciúma, a ser lançado pelo João Nassif no final do ano. Texto meu, originalmente publicado no blog do Lédio Carmona.

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Aliados, o rei de Lages

A cidade de Lages estava sem um time desde que o Lages Futebol Clube havia abandonado os gramados, no final de 1940. O estádio municipal era palco de animados jogos entre casados e solteiros ou brancos e coloreds, esta apenas uma forma de dividir os teams e não de racismo. Tudo acabava em lautos churrascos unindo as pessoas sem distinção de raça, estado civil ou preferência política. Este era o cenário quando o espanhol Francisco Carreno chegou a Lages em 1943, como empreiteiro das obras de pavimentação das ruas da cidade.

Fanático por futebol, Carreno reuniu antigos diretores do Lages, empresários e outros desportistas, e propôs a fundação de um time que pudesse enfrentar agremiações de outras cidades. Assim, no dia 28 de julho de 1943, nas dependências da empresa A. Varela e Cia., foi fundado o Aliados Futebol Clube, em homenagem aos países que lideraram o grupo conhecido na Segunda Guerra Mundial como Aliados, opositores ao Eixo liderado pela Alemanha de Hitler, pela Itália de Mussolini e pelo Japão de Tojo Hideki e Hirohito. Francisco Carreno se ofereceu para bancar o uniforme do time, desde que as cores oficiais fossem vermelho, amarelo e branco, de sua amada seleção espanhola. Proposta aceita, e quase setenta anos antes de a Espanha ser campeão mundial, suas cores reinavam absolutas nos campos do alto da Serra Catarinense.

O Aliados em 1945. Em pé: Vicente, Bazinho, Adão, Tena, Tiurra e Jorge. Agachados: Humberto Mapele, Galego, César Frizzo, Erasmo Furtado e José Reali "Lambança"

O Aliados em 1945. Em pé: Vicente, Bazinho, Adão, Tena, Tiurra e Jorge. Agachados: Humberto Mapele, Galego, César Frizzo, Erasmo Furtado e José Reali "Lambança"

No ano de sua fundação, o Aliados jogou 25 partidas, com 16 vitórias, 6 empates e 3 derrotas, sempre contra clubes de outras plagas. O sucesso aliadino motivou a fundação do rubro-negro Clube Atlético Lageano no dia 10 de novembro de 1943, e este foi o clássico municipal até que o Atlético fechasse suas portas em 1945. O Aliados voltou aos confrontos intermunicipais de 1946 a 1949, quando foram fundados Internacional e Vasco. Estes, e mais o  União Operária, passaram a disputar o campeonato citadino a partir de 1951, que lotava o velho Areião de Copacabana. Todos queriam bater o Aliados, chamado de Veterano.

O Aliados foi tricampeão citadino em 1951, 1952 e 1953. Em 1954 perdeu o cetro para o reativado Lages Futebol Clube, mas retomou-o em 1955. No ano seguinte, já com a maioria de seus fundadores longe de Lages, os aliadinos penduraram as chuteiras como o time mais poderoso da era romântica do futebol lageano e primeiro representante da cidade no campeonato estadual.

Clóvis Fava, tricampeão com o Aliados em 1953, com o diploma e a faixa do título, em foto de 2009

Clóvis Fava, tricampeão com o Aliados em 1953, com o diploma e a faixa do título, em foto de 2009

Não há em Lages uma única bandeira ou camisa do Aliados. Clóvis Fava, falecido este ano, foi atacante do time e preservou uma faixa do tricampeonato, que exibiu ao mundo ao ter a sua história resgatada pelo Blog do Pardal. Às vezes o time é lembrado por pesquisadores do Coritiba, como os Helênicos, já que um dos primeiros ídolos do Coxa, o atacante cerebral César Frizzo, foi o principal nome da primeira fase do Aliados. Agora, depois de terminar a pesquisa sobre o Inter de Lages (obrigado, Adalberto Klüser), passo a reconstituir os passos do Veterano, o rei de Lages quando o futebol era feito apenas de sonho, poeira e paixão.

Fontes: Jornal Correio Lageano, Blog do Pardal e meu acervo. Mais sobre o passado glorioso e o presente triste do futebol de Lages em http://futeboldelages.blogspot.com

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Enterrem meu coração sob a arquibancada

O Arsenal desfilou seu futebol elegante e goleou o Blackpool. Os gols foram marcados sob os ponteiros do Clock End, testemunha do tempo e da glória dos Gunners. Mas o velho relógio não está mais no terraço do South Stand, de onde era avistado pelos fanáticos do North Bank, marcando os minutos mais valiosos das vidas daqueles torcedores. O Arsenal joga orgulhoso em seu estádio novo. Lindo. Moderno. Funcional. E artificial.

Demoliram o estádio de Highbury, e em seu lugar surgiu um conjunto de apartamentos, o Highbury Square. Lá moram, em sua maioria, torcedores do Arsenal. Em alguns anos, poucos se lembrarão das formas do estádio. O futebol já está em seu endereço com nome de companhia área. Highbury não passa de 711 apartamentos, cemitérios de emoções seculares.

Horas antes de o Brasil enfrentar a Dinamarca, no Mundial da França, eu me dirigia ao Stade de La Beaujoire. Avistei uma velha arquibancada e me aproximei. Era o estádio Marcel-Saupin, abandonado pelo Nantes após a inauguração do Beaujoire em 1984. Passei pelo portão, subi uma escada marcada por infiltrações e cheguei à arquibancada de concreto. Alheio à cidade que respirava a Copa do Mundo, o Marcel-Saupin era um refúgio do silêncio. O gramado estava tomado pelo mato. Segui para o Beaujoire levando o vazio do Marcel-Saupin no peito.

O estádio mais antigo de Nantes

O estádio mais antigo de Nantes

Como doem os velhos estádios abandonados e demolidos. Todas as vezes que passo em frente ao Beira-Mar Shopping, em Florianópolis, vejo ali o estádio Adolfo Konder, o histórico Campo da Liga, ou Pasto do Bode. Atrás do shopping ergueu-se um condomínio chamado Campo da Liga, lápide dos sonhos românticos do futebol catarinense.

Em Lages, meus caminhos cotidianos obrigam-me a passar em frente ao que sobrou do Estádio do Vermelhão. Retomado pela prefeitura após uma disputa judicial, o antigo reduto do Inter agora abriga uma repartição pública. Um resto do que foi o campo de jogo está espremido contra a velha arquibancada, que viu o Grêmio de Alcino, o América de Antunes, o Metropol de Idézio, o Inter campeão estadual e hoje vê funcionários que lhe ignoram a grandeza histórica.

Não sou do Emirates. Não gosto do campo de grama artificial, da Guadalara que despreza o Jalisco. Sou da arquibancada de concreto, da dignidade calada dos velhos estádios, do futebol com sol na cara. Quando vejo a arquibancada do Vermelhão, lembro da obra de Dee Brown, “Enterrem meu coração na curva do rio”, sobre a dizimação dos índios na América do Norte. O Vermelhão vai sumindo atrás da repartição, e eu repito o mesmo pensamento, todos os dias, quando passo ali. Adeus, Vermelhão. Enterrem meu coração sob a arquibancada.

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A história do Inter de Lages em outdoors

Reuni alguns amigos e bancamos três outdoors com fotos significativas da história do Inter de Lages, com a finalidade chamar a torcida para a volta do time aos campos, no próximo domingo, 15 de agosto. Não consegui fazer o upload das fotos, mas quem tiver interesse pode vê-las no blog que mantenho o futebol de Lages: http://futeboldelages.blogspot.com/ Abraços!

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Túnel do tempo: 7 de agosto

Trinta e três anos atrás, pelo campeonato catarinense, o Inter de Lages foi ao Índio Condá e ganhou daquele timaço da Chapecoense com um gol do imortal Martinho Bin. A ficha do jogo:
Internacional 1×0 Chapecoense (Chapecó)
7 de agosto de 1977 – Campeonato Estadual
Estádio Regional Índio Condá – Chapecó
Inter: Luiz Fernando, Ivan, Nivaldo, Eduardo e Pedro Ênio; Wilson Batata, Mikimba e Bin; Pedrinho, Pelezinho (Ademir) e Vacaria.
Chapecoense: Luís Carlos, Cosme, Silva, Carlos Alberto e Nabé; Sérgio Santos, Valdir e Wilsinho; Zezinho (Sarico), Jorge e Eluzardo.
Gol: Bin aos 33 do 2° tempo.

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