A Costa do Marfim e a Gávea em festa

Quando se fala na seleção da Costa do Marfim, as pessoas logo pensam em Drogba, astro do Chelsea, e no time que alguns consideram o melhor selecionado africano, apesar da performance discreta na Copa Africana de Nações. Pensam também na Copa do Mundo, já que os marfinenses estão no grupo do Brasil, cravados entre a estreia que deverá ser tranquila, contra a Coréia do Norte, e o jogão contra Portugal. Sim, a Costa do Marfim está no primeiro mundo do futebol.

Mesmo assim, quando falam em Drogba e seus companheiros, eu lembro de uma outra Costa do Marfim. Uma seleção que engatinhava rumo ao profissionalismo, em uma época em que as atenções na África estava voltadas para a seleção olímpica de Zâmbia, do mítico Kalusha Bwalya, que destruiu a seleção italiana nos Jogos Olímpicos de Seul, e para a estelar seleção de Camarões, do cracaço Roger Millar, do intransponível N’kono, e de Makanaki, M’fede e Omam-Biyik, autor do célebre gol em Pumpido, na abertura do Mundial de 90, no estádio San Siro. Ninguém falava dos marfinenses. Eles ainda eram aprendizes. E, como tal, vieram aprender com os reis do futebol, os brasileiros.

O Flamengo vinha de conquistar a Copa União, e começou o ano de 1988 com um amistoso, na Gávea, para receber as faixas de campeão, enquanto Sport e Guarani protestavam por um quadrangular entre eles, Zico e companhia e o Inter. O adversário foi a Costa do Marfim, que fazia estágio no Brasil e não perdeu a chance de ter uma aula com os mestres rubro-negros.

A velha arquibancada lotou, e logo os torcedores se espalharam ao longo do alambrado e até mesmo à beira do campo. O Flamengo não mandava um jogo do futebol profissional na Gávea desde 10 de novembro de 1982, e o estádio ainda estava recebendo os últimos retoques para ser utilizado no estadual daquele ano. Zico, ainda se recuperando de cirurgia realizada após a finalíssima da Copa União, não jogou. Bebeto apareceu, mas também foi poupado. Ainda assim, liderados por Andrade, ainda longe de ser um técnico vitorioso, os professores deram uma bela aula aos aprendizes marfinenses, vencendo por 3×0, em ritmo de treino, a fim de repassar fundamento por fundamento do jogo de bola ao simpático time africano.

Andrade, o Tromba, que naquela fase ficava meses sem errar um passe, abriu o placar de pênalti. Jorginho fez um golaço de sem-pulo, e o garoto Flávio, com a 10 de Zico, fez o terceiro, chutando de primeira após cruzamento da ponta direita. Após o jogo, ainda no gramado, toda a seleção de Costa do Marfim aplaudiu os mestres brasileiros, gratos pelos valiosos ensinamentos.

Hoje, quando vejo a seleção marfinense na elite do futebol mundial, não posso evitar a lembrança da tarde de 24 de janeiro de 1988, e penso: Tiveram bons professores.

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