Copa América de 1983 – Brasil empata com Argentina e elimina ‘Los Hermanos’

Por Sérgio Mello

EM PÉ (esquerda para a direita): Leandro, Emerson Leão, Márcio Rossini, Mozer, Andrade, Júnior e Admildo Chirol (preparador físico); AGACHADOS (esquerda para a direita): Nocaute Jack (massagista), Renato Gaúcho, Sócrates , Roberto Dinamite, Jorginho, Éder Aleixo e Ximbica (roupeiro).

Na segunda-feira, às 16h30min., do dia 12 de setembro de 1983, o treinador Carlos Alberto Parreira realizou o segundo treino da seleção brasileira para o clássico diante da Argentina. O meia Jorginho, do Palmeiras/SP, foi a novidade, uma vez que Tita estava preocupado com a gravidez de sua esposa e por isso nem treinou.

A arbitragem teve uma curiosidade: um sorteio meia-hora antes da partida definiu o chileno Mário Lira. Os demais também os compatriotas Gaston Castro e Hernan Silva.

Empate dava classificação a Seleção Canarinho

Ao Brasil bastava o empate; enquanto para ‘Los Hermanos’, só a vitória interessava. No primeiro jogo, em Buenos Aires, os argentinos quebraram um tabu de 13 anos sem vitória e ganharam por 1 a 0, gol do centroavante Gareca.

Brasil x Argentina, que marcava o reencontro da seleção com o torcedor carioca – o último jogo no Rio foi em abril, contra o Chile terá a renda líquida integralmente doada à campanha de ajuda aos flagelados da seca no Nordeste. E pela importância do jogo e pelo apelo filantrópico que está sendo feito, a CBF acredita em uma arrecadação em torno de Cr$ 200 milhões.

Brasil e Argentina são, no momento, duas equipes em renovação de nomes e de filosofia. A CBF, depois da perda da Copa da Espanha contratou Carlos Alberto Parreira para a vaga de Telê Santana. Já a AFA (Associação de Futebol Argentina) – destituiu César Luís Menotti e em seu lugar colocou Carlos Billardo.

A classificação nesta Copa América, devido a esta circunstância, tem uma importância fundamental para o prosseguimento do trabalho dos dois treinadores.

Ambos raciocinam da mesma maneira: o Brasil ganhar da Argentina ou vice-versa comprovará a correção do planejamento de preparação e, além disso, reforçará as duas equipes no aspecto psicológico.

Mas para obter a classificação, Brasil e Argentina vão trilhar caminhos diferentes. Parreira, embora precise apenas de um empate, promete armar seu time de forma ofensiva, “mas com algumas cautelas“, enquanto Billardo deve esquematizar a Argentina para jogar em função dos contra-ataques.

Entretanto, os próprios argentinos reconhecem o favoritismo brasileiro para este jogo. E têm motivos de sobra para isso. Primeiro, porque a torcida terá participação decisiva. Segundo porque Parreira terá de volta na equipe o principal jogador do Brasil na atualidade: Sócrates. O atacante corintiano estreará nesta Copa América, e sua escalação provocou comentários entusiasmados dos companheiros.

O treinador brasileiro, ao contrário da partida contra o Equador, optou, desta vez, pelo aproveitamento de um cabeça-de-área e escalou Andrade, compondo o resto do meio-campo com Jorginho e Sócrates.

O ponteiro Renato Gaúcho, no início da semana, resumiu o ponto de vista do grupo em relação a Sócrates: “Com ele, o Brasil ganha em experiência e criatividade”.

Da mesma forma pensa Parreira, para quem a presença de um jogador das qualidades de Sócrates será ponto de desequilíbrio num jogo “em que o adversário deverá jogar na retranca e encurtando os espaços“.

Foto: Custodio Coimbra Roberto Dinamite lutou muito, mas sem sucesso

Brasil empata, se classifica, mas não convence

A crônica do Jornal dos Sports assim descreveu a partida: “Mesmo sem realizar uma boa faltou criatividade no meio-campo – o Brasil empatou com a Argentina em 0 a 0, ontem, no Maracanã, garantindo sua classificação para a próxima fase da Copa América, como vencedor do Grupo 2. Agora, a Seleção Brasileira enfrentará o Paraguai, campeão da última competição, em 79, tentando decidir o torneio com o vencedor da disputa entre os primeiros colocados dos grupos l e III.

Éder tentou passar por Olarticoechea, mas sem sucesso

1º TEMPO

O Brasil iniciou jogo tendo Sócrates e Jorginho do mesmo lado do campo, facilitando, assim o sentido de marcação da Argentina, por sinal, rigorosa. Por isso, não foi difícil ao adversário bloquear quase todas as oportunidades da Seleção Brasileira, que não foram tantas na fase inicial.

E, com cerrada marcação, a Argentina evitou que sua defesa corresse perigo e pode sair em rápidos contra-ataques, principalmente pela direita. Mas a primeira chance de gol surgiu pela esquerda, aos 7 minutos, quando Leandro falhou, permitindo que Gareca penetrasse às costas de Mozer.

Junior fez a cobertura e salvou a situação de perigo. O Brasil procurou utilizar a saída rápida da defesa para o ataque e tentou fazer a linha do impedimento, mas essa tática não funcionou bem.

O primeiro grande lance dos brasileiros ocorreu aos 18 minutos, quando Roberto recebeu, matou no peito e chutou de voleio, aparecendo Fillol para desviar para corner. Mas o Brasil encontrou dificuldades para criar, pela marcação argentina. Brown colou em Roberto; Olarticoechea procurou bloquear Éder, e Russo exerceu marcação individual em cima de Sócrates. Além disso, Trossero ficou na sobra, matando a jogada quando um dos companheiros era batido.

Russo marcou Sócrates em cima

2º TEMPO

No início da fase complementar a Argentina deu mais espaços ao Brasil, que, mais veloz, passou a ameaçar efetivamente o goleiro Fillol. Logo aos 2 minutos, Éder cobrou falta, a bola bateu na barreira, e o argentino, com incrível reflexo, mandou a corner.

Aos 5, Renato cruzou, Roberto entrou de cabeça e novamente Fillol surgiu para fazer outra defesa sensacional. Aos 7, foi a vez de Sócrates exigir do goleiro. Mas a melhor oportunidade do Brasil aconteceu nos 18 minutos, quando Leandro recebeu pela direita, cruzou, o zagueiro Brown falhou e Roberto perdeu gol feito. A partir dos 30 minutos, o jogo caiu muito, com jogadas ruins das duas equipes, justificando o empate sem gols, numa partida que não agradou ao público.

Técnico da Seleção Brasileira, Carlos Alberto Parreira

Parreira: Importante foi a classificação

O importante foi o Brasil se classificar. Não me importei com as vaias e com a reclamação de um bom futebol. O Brasil está classificado para a semifinal da Copa América e isso é o importante. Não o resultado do jogo ou a forma de atuar de nossa equipe”.

Foi dessa forma que o técnico da Seleção Brasileira, Carlos Alberto Parreira, analisou o empate do Brasil, diante da Argentina, ontem à noite, no Maracanã. Na opinião de Parreira, os argentinos vieram para buscar o empate e isto ficou evidente estratégia tática ermada pelo técnico Carlos Bilardo:

No segundo tempo, criamos algumas oportunidades de gol e o Leão foi um espectador privilegiado. A única defesa mais difícil sua foi quando cortou um cruzamento de soco. Mais nada”.

Segundo Parreira, o Brasil em nenhum momento da partida jogou pelo empate, mas não adiantava nada arriscar o gol faltando cinco minutos para terminar o jogo. Jogamos de acordo com o adversário.

O treinador se mostrou surpreso com a marcação argentina, segundo ele, inédita em toda sua história: “Nunca vi a Argentina marcar tão bem. O Brasil teve dificuldades para encontrar espaços”.

BRASIL        0        X        0        ARGENTINA

LOCALEstádio Mario Filho, o ‘Maracanã’, na cidade do Rio (RJ)
CARÁTERGrupo 2, da Copa América de 1983
DATAQuarta-feira, do dia 14 de setembro de 1983
HORÁRIO21h30min. (de Brasília)
RENDACr$ 78.769.800,00 (setenta e oito milhões, setecentos e sessenta e nove mil e oitocentos cruzeiros)
PÚBLICO53.921 pagantes
ÁRBITROMario Lira (FIFA/Chile)
AUXILIARESGaston Castro (Chile) e Hernan Silva (Chile)
CARTÃO AMARELOMiguel Ángel Russo e Claudio Marangoni (ARG); Éder e Márcio Rossini (BRA)
BRASILEmerson Leão; Leandro, Márcio Rossini, Mozer e Júnior; Andrade, Jorginho e Sócrates; Renato Gaúcho, Roberto Dinamite e Éder. Técnico: Carlos Alberto Parreira.  
ARGENTINAUbaldo Fillol; Julio Olarticoechea, José Luis Brown, Enzo Trossero e Oscar Garré; Miguel Ángel Russo, Claudio Marangoni e Alejandro Sabella (Victor Ramos);    Alberto Marcico (José Daniel Ponce), Ricardo Gareca e Jorge Burruchaga. Técnico: Carlos Billardo
GOLNenhum

FOTO: Acervo dos fotógrafos Custodio Coimbra e Olavo Rufino

FONTES: Jornal dos Sports (RJ) – Última Hora (RJ)

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