{"id":97843,"date":"2016-11-13T14:59:32","date_gmt":"2016-11-13T16:59:32","guid":{"rendered":"https:\/\/historiadofutebol.com\/blog\/?p=97843"},"modified":"2016-11-13T14:59:32","modified_gmt":"2016-11-13T16:59:32","slug":"associacao-athletica-sao-geraldo-sao-paulo-sp-1%c2%ba-clube-paulista-fundado-por-negros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/historiadofutebol.com\/blog\/?p=97843","title":{"rendered":"Associa\u00e7\u00e3o Athletica S\u00e3o Geraldo &#8211; S\u00e3o Paulo (SP): 1\u00ba Clube paulista fundado por negros"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-97844\" title=\"01\" src=\"https:\/\/historiadofutebol.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2016\/11\/0110-500x319.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"319\" srcset=\"https:\/\/historiadofutebol.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2016\/11\/0110-500x319.jpg 500w, https:\/\/historiadofutebol.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2016\/11\/0110-300x191.jpg 300w, https:\/\/historiadofutebol.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2016\/11\/0110.jpg 1130w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/p>\n<p>A <strong>Associa\u00e7\u00e3o Athletica S\u00e3o Geraldo<\/strong> foi uma agremia\u00e7\u00e3o da Cidade de S\u00e3o Paulo (SP).O \u201c<strong><em>clube dos homens de cor<\/em><\/strong>\u201d foi <strong><em>Fundado no dia <\/em><\/strong><strong><em>1\u00ba de novembro de 1917<\/em><\/strong>, por um grupo de \u201c<em>homens de cor<\/em>\u201d: <em>Silv\u00e9rio Pereira, Rufi no dos Santos, Felisbino Barbosa, Hor\u00e1cio da Cunha, Benedito Costa e Benedito Prestes<\/em>. A finalidade era promover a pr\u00e1tica tanto do futebol quanto do atletismo .<\/p>\n<p>O <strong><em>Alvinegro<\/em><\/strong> teve sedes na <em>Barra Funda<\/em> e posteriormente nos <em>Perdizes<\/em>. N\u00e3o obstante, ao longo do tempo, seus investimentos maiores concentraram-se no esporte bret\u00e3o. Como j\u00e1 assinalamos, o time do <strong>S\u00e3o Geraldo<\/strong> era composto por atletas negros.<\/p>\n<p>Sua cria\u00e7\u00e3o foi uma resposta \u00e0 \u201c<em>linha de cor<\/em>\u201d que vicejava dentro e fora dos gramados na \u00e9poca. As grandes agremia\u00e7\u00f5es do futebol paulista \u2013 como o <strong><em>Club Athl\u00e9tico Paulistano<\/em><\/strong>, a <strong><em>Associa\u00e7\u00e3o Athl\u00e9tica das Palmeiras<\/em><\/strong> e o <strong><em>Sport Club Corinthians Paulista<\/em><\/strong> (institu\u00eddo em 1910) \u2013 dificultavam ou restringiam a presen\u00e7a de atletas \u201cpretos\u201d e \u201cmulatos\u201d (Leite, 1992, p. 26).<\/p>\n<p>Alguns dirigentes acreditavam na inferioridade cong\u00eanita do \u201c<em>jogador de cor, inadapt\u00e1vel \u00e0 t\u00e9cnica e \u00e0 ci\u00eancia do futebol cl\u00e1ssico<\/em>\u201d (Mazzoni, 1968, p. 159). Mesmo quando incorporado \u00e0 equipe de futebol, os grandes clubes lhe vetavam a participa\u00e7\u00e3o nas suas atividades sociais \u2013 como festas e bailes.<\/p>\n<p>A cria\u00e7\u00e3o do <strong>S\u00e3o Geraldo<\/strong> n\u00e3o se revestiu t\u00e3o somente de um car\u00e1ter reativo. Sua articula\u00e7\u00e3o igualmente se inseriu na rede de associativismo negro que, a partir do in\u00edcio do s\u00e9culo XX, floresceu na terra dos bandeirantes. Eram dezenas de associa\u00e7\u00f5es voltadas para fomentar as atividades recreativas, culturais, pol\u00edticas e sociais dos autodenominados \u201c<em>homens de cor<\/em>\u201d.<\/p>\n<p>Os tipos de eventos por elas promovidos, bem como as atividades a que se dedicavam, mostram que as suas finalidades eram bastante diferentes. Tais finalidades apareciam no pr\u00f3prio nome das associa\u00e7\u00f5es ou nos voc\u00e1bulos que os adjetivavam (\u201cdan\u00e7antes\u201d; \u201crecreativas, dan\u00e7antes\u201d; \u201cdram\u00e1tico recreativas\u201d; \u201cdram\u00e1tico recreativa e liter\u00e1ria\u201d; \u201cdram\u00e1tico recreativa liter\u00e1ria e beneficente\u201d; \u201cbeneficente e humanit\u00e1ria, recreativas e esportivas\u201d, ou exclusivamente \u201cesportivas\u201d).<\/p>\n<p>Apesar das diferen\u00e7as existentes entre elas, as associa\u00e7\u00f5es conflu\u00edam para o desenvolvimento de uma identidade espec\u00edfica \u2013 de um n\u00f3s, negros, em oposi\u00e7\u00e3o a eles, os brancos \u2013, sendo, portanto, fundamental para a forma\u00e7\u00e3o e desenvolvimento da experi\u00eancia racial do grupo (Pinto, 2013, p. 80-81; Butler, 1998; Andrews, 1998; Trindade, 2004; Seigel, 2009).<\/p>\n<p>O <strong>S\u00e3o Geraldo<\/strong> surgiu na <strong><em>Barra Funda<\/em><\/strong>, bairro que aglutinava um importante segmento da \u201c<em>popula\u00e7\u00e3o de cor<\/em>\u201d, oriunda sobretudo de pequenas cidades do interior do estado. A migra\u00e7\u00e3o dessa popula\u00e7\u00e3o para a metr\u00f3pole paulistana relacionava-se com a procura de emprego e melhores condi\u00e7\u00f5es de vida no p\u00f3s-aboli\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Na Barra Funda, foram constru\u00eddos, al\u00e9m da esta\u00e7\u00e3o ferrovi\u00e1ria, grandes armaz\u00e9ns para estocar especialmente o caf\u00e9. Os homens negros constitu\u00edam a m\u00e3o de obra b\u00e1sica, realizando as tarefas mais penosas de carregamento e descarregamento de mercadorias, seja nesses armaz\u00e9ns, seja naqueles situados no porto de Santos, para onde se deslocavam sempre que escasseava o trabalho em S\u00e3o Paulo. J\u00e1 as mulheres prestavam servi\u00e7os como dom\u00e9sticas nas casas das fam\u00edlias ricas da cidade.<\/p>\n<p>No tempo livre, estratos da \u201c<em>popula\u00e7\u00e3o de cor<\/em>\u201d realizavam batuques em torno dos botequins da Alameda Glette, rodas de samba, jogos de pernada, umbigada e tiririca (esp\u00e9cie de capoeira) no Largo da Banana e comemoravam os dias de Momo por meio dos Grupo Barra Funda, Campos El\u00edsios e Flor da Mocidade \u2013 os primeiros cord\u00f5es carnavalescos de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Assim, n\u00e3o \u00e9 de estranhar que a Barra Funda j\u00e1 tenha sido identificada como um dos \u201cterrit\u00f3rios negros\u201d da cidade nas primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo XX (Rolnik, 1989). Na parte alta do bairro, pr\u00f3ximo ao Bom Retiro, havia v\u00e1rios terrenos baldios os quais, \u00e0 medida que se desencadeou a populariza\u00e7\u00e3o do futebol, passaram a ser utilizados para a pr\u00e1tica do esporte.<\/p>\n<p>Num desses terrenos, no fim da Rua Tupi, localizava-se o primeiro campo do S\u00e3o Geraldo (A Voz da Ra\u00e7a, 25\/03\/1933, p. 2). De acordo com I\u00eada Marques Brito, o clube foi erigido pelos \u201cnegros da Glette\u201d, um grupo de negros que se encontravam na Alameda Glette, pr\u00f3ximo \u00e0 linha f\u00e9rrea. N\u00e3o contavam com habilidades artesanais que pudessem favorec\u00ea-los profissionalmente, nem dominavam um of\u00edcio, raz\u00e3o pela qual trabalhavam como carregadores e ensacadores. Por vezes viviam \u00e0 margem da ordem social vigente.<\/p>\n<p>Eram respeitados pela sua for\u00e7a f\u00edsica, da\u00ed terem recebido a alcunha de \u201cvalentes da Barra Funda\u201d (Britto, 1986, p. 100-101). Todavia, as informa\u00e7\u00f5es fragmentadas dispon\u00edveis n\u00e3o permitem tecer detalhes acerca da origem do S\u00e3o Geraldo.<\/p>\n<p>O certo \u00e9 que a agremia\u00e7\u00e3o lavrou seus estatutos em cart\u00f3rio e estabeleceu uma estrutura de funcionamento alicer\u00e7ada em v\u00e1rias inst\u00e2ncias, tais como diretoria, corpo de associados e programa de atividades. Sua sede foi instalada na Rua Barra Funda, mais tarde transferida para a Rua Flor\u00eancio de Abreu.<\/p>\n<p>Aos poucos seu time de futebol, cujo uniforme ostentava as cores preto e branco, foi se estruturando at\u00e9 se filiar \u00e0 <strong><em>Associa\u00e7\u00e3o Paulista de Esportes Atl\u00e9ticos (APEA)<\/em><\/strong> \u2013 a entidade esportiva encarregada de organizar o futebol no Estado \u2013 e disputar o campeonato da chamada Divis\u00e3o Municipal, a qual reunia uma s\u00e9rie de clubes de v\u00e1rzea.<\/p>\n<p><strong>O S\u00e3o<\/strong> <strong>Geraldo<\/strong> ganhou destaque no meio negro, sobretudo pela qualidade de seus jogadores. Zel\u00e3o, Tita, Africano, Filip\u00e3o, Olavo, Ca\u00e7ar\u00f3ia, P\u00e9, Bui\u00fa, Alfredo, Goiabada, Bizerr\u00e3o, Caetano, Vaca Braba, Bode, Hil\u00e1rio foram alguns dos jogadores que vestiram a camisa do clube e protagonizaram, na \u201c<em>zona Pacaembu, jogos de escol<\/em>\u201d (A Voz da Ra\u00e7a, 25\/03\/1933, p. 2).<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-97845\" title=\"02\" src=\"https:\/\/historiadofutebol.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2016\/11\/023.jpg\" alt=\"\" width=\"1250\" height=\"1363\" srcset=\"https:\/\/historiadofutebol.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2016\/11\/023.jpg 1250w, https:\/\/historiadofutebol.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2016\/11\/023-275x300.jpg 275w, https:\/\/historiadofutebol.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2016\/11\/023-458x500.jpg 458w, https:\/\/historiadofutebol.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2016\/11\/023-300x327.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 1250px) 100vw, 1250px\" \/><\/p>\n<p>Tamb\u00e9m tiveram passagem pelo \u201c<em>alvinegro\u201d da Barra Funda o \u201cvaloroso<\/em>\u201d defensor Carlos Campos (O Clarim, 17\/07\/1927, p. 1; Cultura: Revista da Mocidade Negra, abr.-maio 1934), o \u201cfamoso beque\u201d Sarar\u00e1 (Britto, 1986, p. 100), o atacante Ditinho \u2013 considerado um dos craques do time \u2013 e o \u201cmeia esquerda\u201d Paulo, que \u201ctem feito, nos nossos meios esportivos, uma fi gura brilhante\u201d (Progresso, 26\/09\/1929, p. 7).<\/p>\n<p>Praticar o futebol naquela \u00e9poca era algo dispendioso. Parte do material (bola, meias, cal\u00e7\u00f5es, luvas, joelheiras, tornozeleiras) era importada (Caldas, 1990, p. 122-123). N\u00e3o se sabe exatamente os meios com os quais o <strong>S\u00e3o Geraldo<\/strong> arcava com as despesas da equipe. \u00c9 bem plaus\u00edvel que a sua principal fonte de recursos derivava das mensalidades dos s\u00f3cios.<\/p>\n<p>Outras fontes de renda provinham de donativos e da arrecada\u00e7\u00e3o das festas e bailes. \u201c<strong><em>Revestiu-se de grande brilhantismo o festival dan\u00e7ante que A.A. S\u00e3o Geraldo fez realizar no s\u00e1bado p.p. no sal\u00e3o Modelo \u00e0 Rua da Consola\u00e7\u00e3o, 27, dedicado aos seus associados e suas fam\u00edlias<\/em><\/strong>\u201d, noticiou a revista Cultura (Progresso, 22\/07\/1928, p. 3; Cultura: Revista da Mocidade Negra, jan. 1934). Anos mais tarde, Dion\u00edsio Barbosa \u2013 o fundador e principal dirigente do cord\u00e3o carnavalesco Camisa Verde \u2013 informou que cedia o sal\u00e3o da agremia\u00e7\u00e3o ao <strong>S\u00e3o Geraldo<\/strong>, para que este realizasse bailes \u201cpra arrum\u00e1 dinheiro, pra compr\u00e1 camisa\u201d, e os jogadores do S\u00e3o Geraldo, por sua vez, retribu\u00edam fazendo a prote\u00e7\u00e3o dos bailes do Camisa Verde.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Campe\u00e3o da Copa do Centen\u00e1rio da Independ\u00eancia do Brasil de 1922<\/strong><\/p>\n<p>Em nenhuma delas adquiriu a proje\u00e7\u00e3o do <strong>S\u00e3o Geraldo<\/strong>. N\u00e3o \u00e9 para menos. Ao longo de sua trajet\u00f3ria, o \u201c<strong><em>alvinegro<\/em><\/strong>\u201d da Barra Funda colecionou resultados positivos dentro dos gramados, sendo o principal deles a <strong><em>conquista<\/em><\/strong> da <strong><em>Copa do Centen\u00e1rio da Independ\u00eancia do Brasil<\/em><\/strong> \u2013 nome dado ao campeonato paulista de <strong><em>1922<\/em><\/strong> \u2013, evento que fez parte das comemora\u00e7\u00f5es alusivas aos cem anos da emancipa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da na\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Tratou-se de uma competi\u00e7\u00e3o bastante disputada, que despertou a aten\u00e7\u00e3o do crescente n\u00famero de f\u00e3s do futebol. Ao final do certame, o <strong>S\u00e3o Geraldo<\/strong> consagrou-se campe\u00e3o da Divis\u00e3o Municipal. Anos mais tarde, Deocleciano Nascimento relatou \u2013 detalhadamente e com emo\u00e7\u00e3o \u2013 como transcorreu a partida daquela <em>grand finale<\/em>.<\/p>\n<p>O <strong>S\u00e3o Geraldo<\/strong>, clube constitu\u00eddo \u201c<strong><em>somente de elementos de cor<\/em><\/strong>\u201d, enfrentou o <strong><em>Flor do Bel\u00e9m<\/em><\/strong>, time \u201c<em>formado por brancos<\/em>\u201d e considerado favorito ao ambicionado t\u00edtulo. A decis\u00e3o do <strong><em>campeonato do Centen\u00e1rio<\/em><\/strong> se deu no <strong><em>Est\u00e1dio da Floresta<\/em><\/strong>, num domingo de P\u00e1scoa. Deocleciano era um \u201c<em>dos membros da diretoria<\/em>\u201d do clube da Barra Funda.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Narrativa do jogo decisivo de 1922 <\/strong><\/p>\n<p>Conta que, pela manh\u00e3, fez \u201c<strong><em>alguns dos elementos sangeraldenses<\/em><\/strong>\u201d verem a \u201cgrande responsabilidade que iam assumir dali a algumas horas. Em cada rosto, em cada fisionomia, notava-se um ar de esperan\u00e7a\u201d, pois o des\u00e2nimo n\u00e3o se abateu sobre os componentes do \u201cquadro dos jovens pretos\u201d. No primeiro tempo da partida, estes \u201cproduziram pouco, ou quase nada\u201d.<\/p>\n<p>O advers\u00e1rio ent\u00e3o marcou um gol e, instantes depois de abrir o placar, fez o segundo gol de vantagem, de modo que seus \u201c<em>torcedores j\u00e1 o aclamavam campe\u00e3o<\/em>\u201d. Mas, como diz o prov\u00e9rbio, \u201c<em>\u00e9 melhor quem ri por \u00faltimo<\/em>\u201d. No segundo tempo, operou-se uma reviravolta surpreendente. \u201cDiante da formid\u00e1vel press\u00e3o dos negros\u201d, o <strong><em>Flor do Bel\u00e9m<\/em><\/strong> cedeu \u201cos pontos conquistados e mais um\u201d, sendo derrotado pelo placar de tr\u00eas tentos a dois. \u201cOh!&#8230; Meu Deus! Que alegria descrevo estas linhas!&#8230;\u201d, exclamava Deocleciano em tom saudosista no ano de 1934:<\/p>\n<p>Sinto, em mim, tamanha como\u00e7\u00e3o&#8230; parece-me que estou ouvindo os gritos de entra!&#8230; centra!&#8230; n\u00e3o durma!&#8230; \u00e9 sua!&#8230; E depois aquela vozeria que se elev\u00e1ra, demoradamente nos ares: g\u00f4\u00f4\u00f4\u00f4l! G\u00f4\u00f4\u00f4\u00f4l! E em triunfo, \u2018os onze\u2019, sa\u00edrem carregados do campo, levando para o <strong>S\u00e3o Geraldo<\/strong> o cetro de <strong><em>Campe\u00e3o Municipal do Centen\u00e1rio<\/em><\/strong> (A Voz da Ra\u00e7a, 28\/04\/1934, p. 4).<\/p>\n<p>Com a conquista do t\u00edtulo, o \u201c<strong><em>alvinegro<\/em><\/strong>\u201d da Barra Funda tornou-se mais conhecido em S\u00e3o Paulo, especialmente no meio negro, legitimando-se como o principal time de futebol do g\u00eanero. De acordo com o Progresso, n\u00e3o foi a partir daquele instante que o <strong>S\u00e3o Geraldo<\/strong> compreendeu seu papel no mundo esportivo. De longa data os jogadores vinham \u201capurando a sua performance\u201d. E \u201cmerecidamente levantaram o t\u00edtulo de campe\u00e3o do Centen\u00e1rio\u201d, feito que souberam guardar com \u201cusura\u201d.<\/p>\n<p>Afinal, colocou a agremia\u00e7\u00e3o na \u201c<em>dianteira de suas cong\u00eaneres<\/em>\u201d. Instrumentalizando um discurso racial, o jornal da imprensa negra frisava que a \u201c<strong><em>Associa\u00e7\u00e3o Atl\u00e9tica S\u00e3o Geraldo \u00e9 uma das agremia\u00e7\u00f5es de homens pretos que, no esporte, tem sabido n\u00e3o s\u00f3 na capital, como em todo o Estado, honrar sobremaneira o nome do negro brasileiro<\/em><\/strong>\u201d (Progresso, 26\/09\/1929, p. 7).<\/p>\n<p>Por essa perspectiva, o \u201calvinegro\u201d da Barra Funda representava, antes, um s\u00edmbolo da ra\u00e7a. Sua conquista da \u201cta\u00e7a\u201d do Centen\u00e1rio foi, realmente, vista pelos afro-paulistas como uma grande proeza, que os enchia de orgulho racial, da\u00ed ter sido lembrada e relembrada diversas vezes pelos seus \u00f3rg\u00e3os de comunica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em junho de 1928, o Progresso noticiava que o \u201c<em>conhecido campe\u00e3o do Centen\u00e1rio<\/em>\u201d destacava-se na \u201cvanguarda dos clubes de sua categoria. Em cada luta em que se empenha aquela associa\u00e7\u00e3o, numerosa \u00e9 a assist\u00eancia, que vai levar-lhe o apoio de sua torcida\u201d (Progresso, 23\/06\/1928, p. 5). Cerca de um ano depois, o peri\u00f3dico voltava a se reportar aos seus leitores: \u201c<em>Na hist\u00f3ria das festas, com que se comemorou, esportivamente, os 100 anos de nossa emancipa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, o clube que bem representa os pretos da capital e do Estado de S. Paulo, ocupa cap\u00edtulo \u00e0 parte. De um modo que nos honra sobremaneira, o S. Geraldo conquistou o disputado t\u00edtulo de Campe\u00e3o do Centen\u00e1rio. Deus, parece, que escolheu a camisa alvinegra, para dar-lhes essa honrosa designa\u00e7\u00e3o, evidenciando, deste modo, o quanto a n\u00f3s, pretos, o Brasil deve a sua Independ\u00eancia<\/em>\u201d (Progresso, 28\/07\/1929, p. 5).<\/p>\n<p>Para muitos afro-paulistas, o triunfo do S\u00e3o Geraldo em 1922 assumia um significado que ia al\u00e9m do desportivo. Servia para conferir centralidade e visibilidade ao negro, positivando a sua imagem p\u00fablica e lhe possibilitando atestar o seu valor n\u00e3o somente para a afirma\u00e7\u00e3o do futebol, mas tamb\u00e9m do Brasil. Denotando um sentido c\u00edvico-pol\u00edtico, o esporte bret\u00e3o era, neste caso, apropriado para celebrar a \u201cra\u00e7a\u201d e a \u201cna\u00e7\u00e3o\u201d, combinadamente.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de disputar o campeonato da <strong><em>APEA<\/em><\/strong>, o <strong>S\u00e3o Geraldo<\/strong> costumava jogar contra os clubes dos \u201chomens de cor\u201d. Os contatos entre os sujeitos do chamado meio negro eram proativos e constantes. Bastava a exist\u00eancia no bairro de um time de futebol para que a intera\u00e7\u00e3o entre eles se desenvolvesse, em diversas latitudes.<\/p>\n<p>Um dos grandes rivais do <strong>S\u00e3o Geraldo<\/strong> localizava-se justamente no mesmo bairro. Era o time de futebol do <strong><em>Gr\u00eamio Barra Funda<\/em><\/strong>, com o qual disputou partidas memor\u00e1veis (Silva, 1998). Em abril de 1926, o <strong><em>Gr\u00eamio Recreativo<\/em><\/strong> Nem que Chova abriu as inscri\u00e7\u00f5es de um \u201cfestival esportivo\u201d, planejando reunir dez times de futebol do meio negro no campo do Paulista de Aniagens, situado na Rua Glic\u00e9rio. Como premia\u00e7\u00e3o, previa-se distribuir \u201cduas ricas ta\u00e7as\u201d (O Clarim, 25\/04\/1926, p. 4).<\/p>\n<p>O \u201cfestival\u201d ocorreu no dia 9 de maio daquele ano e, ao que parece, contou com a participa\u00e7\u00e3o do <strong>S\u00e3o Geraldo<\/strong> (O Clarim, 20\/06\/1926, p. 3). J\u00e1 no ano de 1932, a \u201cpujante esquadra do <strong>S\u00e3o Geraldo<\/strong> suspendeu a linda Ta\u00e7a Clarim d\u2019Alvorada, trof\u00e9u m\u00e1ximo de campe\u00e3o [&#8230;] entre as agremia\u00e7\u00f5es esportivas da ra\u00e7a negra, que militam na capital\u201d (O Clarim d\u2019Alvorada, 31\/01\/1932, p. 3). Os interc\u00e2mbios do \u201calvinegro\u201d da Barra Funda tamb\u00e9m ocorreram com os clubes do interior paulista. Em agosto de 1929, sua equipe viajou at\u00e9 a cidade de Campinas, para enfrentar a <strong><em>Ponte Preta<\/em><\/strong>.<\/p>\n<p>O pr\u00e9lio, ainda que amistoso, se viu cercado de expectativas. \u201cPerante grande assist\u00eancia\u201d, noticiou o Progresso, \u201cfoi disputada no dia 11 do corrente, em Campinas, uma partida amistosa de futebol entre as turmas da <strong><em>A. A. S\u00e3o Geraldo <\/em><\/strong>e a respectiva da <strong><em>A.A. Ponte Preta<\/em><\/strong>\u201d.<\/p>\n<p>A partida teria transcorrido muito movimentada e terminou com a vit\u00f3ria da Ponte Preta, pela contagem de 4 x 2, \u201csendo que o <strong>S\u00e3o Geraldo<\/strong> teve um ponto leg\u00edtimo anulado, e uma pena m\u00e1xima, que foi chutada fora. O <strong>S. Geraldo<\/strong> foi bastante prejudicado pelo juiz\u201d (Progresso, 31\/08\/1929, p. 5).<\/p>\n<p>Por vezes, o \u201calvinegro\u201d da Barra Funda enfrentou advers\u00e1rios de outros estados, principalmente do <strong><em>Rio de Janeiro<\/em><\/strong>, em torneios e jogos amistosos (Silva, 1998).\u00a0 Em 1925, ocorreu uma crise na organiza\u00e7\u00e3o do futebol paulista, o que levou o <strong><em>Clube Atl\u00e9tico Paulistano<\/em><\/strong> a abandonar a <strong><em>APEA<\/em><\/strong> e decidir criar a Liga de Amadores de Futebol (LAF). Seu gesto foi acompanhado imediatamente pela <strong><em>Associa\u00e7\u00e3o Atl\u00e9tica das Palmeiras<\/em><\/strong> e pelo <strong><em>Sport Club Germ\u00e2nia<\/em><\/strong>. A nova associa\u00e7\u00e3o nasceu com o prop\u00f3sito de \u201cdepurar\u201d o futebol e incrementar a pr\u00e1tica do esporte sobre as bases do \u201cmais restrito amadorismo\u201d (Rosenfeld, 1993).<\/p>\n<p>Tanto a APEA quanto a <strong><em>LAF<\/em><\/strong> reivindicavam para si o direito de representar ofi cialmente o futebol do Estado de S\u00e3o Paulo. Neste cen\u00e1rio, o <strong>S\u00e3o Geraldo<\/strong> aderiu \u00e0 nova associa\u00e7\u00e3o, disputando o campeonato da divis\u00e3o \u201cintermedi\u00e1ria\u201d. Conv\u00e9m lembrar que, nessa \u00e9poca, n\u00e3o havia lei de acesso. Os nove times considerados grandes (<strong><em>Club Atl\u00e9tico Paulistano, Sport Club Germ\u00e2nia, Sport Club Corinthians, Associa\u00e7\u00e3o Atl\u00e9tica das Palmeiras, Brit\u00e2nia Atl\u00e9tico Clube, Clube Atl\u00e9tico Santista, Ant\u00e1rtica Futebol Clube, Clube Atl\u00e9tico Independ\u00eancia e Paulista Futebol Clube<\/em><\/strong>), que compunham a divis\u00e3o mais importante da <strong><em>LAF<\/em><\/strong>, jogavam entre si e n\u00e3o corriam o risco de rebaixamento.<\/p>\n<p>J\u00e1 o <strong>S\u00e3o Geraldo <\/strong>jogava contra os clubes menores, muitos dos quais egressos do futebol de v\u00e1rzea. E mesmo que a\u00ed se destacasse, n\u00e3o havia a perspectiva de ascender \u00e0 divis\u00e3o principal (Silva, 2013). \u201cGrandes s\u00e3o as vit\u00f3rias do <strong>S\u00e3o Geraldo<\/strong>, que cioso pelo seu passado\u201d, ressaltou o <strong><em>Progresso<\/em><\/strong>, \u201ctem se empenhado em pugnas s\u00e9rias, valendo-lhe lugar invej\u00e1vel na LAF. Na \u00faltima luta em que se empenhou com <strong><em>o S\u00e3o Paulo Railway<\/em><\/strong>, levou de vencida o seu valente antagonista\u201d (Progresso, 07\/09\/1928, p. 5).<\/p>\n<p>A imprensa negra costumava acompanhar o desempenho do <strong>S\u00e3o Geraldo<\/strong> no <strong><em>campeonato da LAF<\/em><\/strong> e n\u00e3o perdia a oportunidade de repercutir e vibrar com os triunfos do \u201c<strong><em>campe\u00e3o do Centen\u00e1rio<\/em><\/strong>\u201d (Progresso, 15\/11\/1928, p. 2). Quando, em 1928, este disputou o \u00faltimo jogo da divis\u00e3o \u201cintermedi\u00e1ria\u201d da <strong><em>LAF<\/em><\/strong>, no qual enfrentou os quadros principais do <strong><em>Uni\u00e3o Fluminense F.C<\/em><\/strong>., a imprensa negra voltou a paut\u00e1-lo.<\/p>\n<p>O jogo era esperado com \u201cgrande interesse, pois s\u00e9rios rivais e bem colocados na tabela do campeonato iam pela segunda vez no ano medir for\u00e7as\u201d. Ao <strong><em>Fluminense<\/em><\/strong> bastava um empate e ao <strong>S\u00e3o Geraldo<\/strong> uma vit\u00f3ria para ficar empatado com o rival na primeira coloca\u00e7\u00e3o. Muitos \u201ctorcedores da forte falange negra estiveram presentes\u201d no evento, no entanto, os \u201cazares da sorte\u201d impediram que eles sa\u00edssem de l\u00e1 \u201cjubilosos\u201d, afinal, o \u201calvinegro\u201d da Barra Funda se viu derrotado.<\/p>\n<p>\u201cFoi uma pena\u201d, assinalou o <strong><em>Progresso<\/em><\/strong>, mas nada de arrefecer os \u00e2nimos. \u201cO <strong><em>campe\u00e3o<\/em><\/strong> do <strong><em>Centen\u00e1rio<\/em><\/strong> \u00e9 digno, ainda, pelos esfor\u00e7os de seus componentes daquele t\u00edtulo. [&#8230;] O <strong>S\u00e3o Geraldo<\/strong>, estamos convictos, n\u00e3o se desanimar\u00e1 por isso. Apurar\u00e1 ainda mais o seu conjunto, e depois&#8230; m\u00e3os \u00e0 obra, isto \u00e9, firme na li\u00e7a, em guarda no campo. Confiante no destino\u201d (Progresso, 13\/01\/1929, p. 6).<\/p>\n<p>Se no campeonato de 1928 o \u201c<strong><em>alvinegro<\/em><\/strong>\u201d da Barra Funda se viu descambado pelos \u201cazares da sorte\u201d, no do ano seguinte a situa\u00e7\u00e3o se alterou. Segundo O Clarim d\u2019Alvorada, o <strong>S\u00e3o Geraldo<\/strong> fechou a competi\u00e7\u00e3o de 1929 de \u201cum modo brilhante e digno de todos os enc\u00f4mios\u201d. Basta dizer que, no decorrer do ano, seu \u201cquadro\u201d n\u00e3o sentiu o gosto da derrota; os \u201cjogadores n\u00e3o sofreram a menor pena ou censura, em se tratando de disciplina.<\/p>\n<p>E isto, para n\u00f3s, \u00e9 motivo de j\u00fabilo, pois o <strong><em>S. Geraldo<\/em><\/strong> \u00e9 uma associa\u00e7\u00e3o essencialmente de nossa classe\u201d, afirmou o jornal da imprensa negra. O rendimento da equipe em campo teria surpreendido a todos. Durante todos os jogos, \u201capenas uma meta vazou o gol <strong><em>S\u00e3o Geraldense<\/em><\/strong>\u201d; no mais, \u201ctudo foi levado de vencida, portanto, esse campeonato foi um ano de orgulho para os esportistas negros desta capital, e a diretoria que conduziu o invicto <strong><em>S. Geraldo<\/em><\/strong>, no ano findo, est\u00e1 de parab\u00e9ns, pela conquista deste alto trof\u00e9u que ir\u00e1 enriquecer a sede deste nosso acatado gr\u00eamio esportivo\u201d, finalizou a reportagem d\u2019O Clarim d\u2019Alvorada (O Clarim d\u2019Alvorada, 25\/01\/1930, p. 2).<\/p>\n<p>Aquela foi a \u00faltima vez que o \u201calvinegro\u201d da Barra Funda disputou o campeonato da <strong><em>LAF<\/em><\/strong>, a entidade que, desde a sua cria\u00e7\u00e3o, mostrava-se favor\u00e1vel \u00e0 perman\u00eancia do amadorismo. Tudo levava a crer que a <strong><em>LAF<\/em><\/strong> iria substituir a <strong><em>APEA<\/em><\/strong> como leg\u00edtima representante do futebol de S\u00e3o Paulo, mas n\u00e3o foi isso que ocorreu. A despeito de seu dinamismo na fase inicial, a entidade dissidente n\u00e3o conseguiu se consolidar no meio futebol\u00edstico.<\/p>\n<p>Lentamente, os times foram abandonando-a e regressando \u00e0 <strong><em>APEA<\/em><\/strong>. Foi o caso do <strong><em>Sport Club Corinthians<\/em><\/strong>, que ajudou a ergu\u00ea-la em 1925, e retornou \u00e0 <strong><em>APEA<\/em><\/strong> em 1927, tendo nela participado de apenas um campeonato. Ao todo, a <strong><em>LAF<\/em><\/strong> organizou tr\u00eas campeonatos paulistas, extinguindo-se em 1929.<\/p>\n<p>O insucesso da entidade deveu-se basicamente \u00e0 sua insist\u00eancia em manter o futebol amador \u2013 condi\u00e7\u00e3o na qual os jogadores ficavam desprovidos de sal\u00e1rio, v\u00ednculo formal e n\u00e3o conseguiam viver exclusivamente do futebol, tendo que exercer outras ocupa\u00e7\u00f5es para garantir o seu sustento \u2013, numa \u00e9poca em que os clubes cada vez mais se profissionalizavam.<\/p>\n<p>Enquanto isso, a APEA, que na teoria preconizava o amadorismo, na pr\u00e1tica deixava que clubes e jogadores experimentassem o profissionalismo. Waldenyr Caldas argumenta que poucos jogadores queriam continuar nos times da LAF, uma vez que s\u00f3 ganhavam o material de jogo (cal\u00e7\u00e3o, camisa, meias, toucas e chuteira) para entrar em campo, ao passo que, nos times da <strong><em>APEA<\/em><\/strong>, eles poderiam receber um sal\u00e1rio paralelo \u00e0 sua eventual atividade profissional fora do futebol.<\/p>\n<p>N\u00e3o tardou para que os melhores jogadores da entidade dissidente come\u00e7assem a se transferir para as equipes da <strong><em>APEA<\/em><\/strong>. Os que l\u00e1 permaneceram, com raras exce\u00e7\u00f5es, \u201cn\u00e3o desejavam mesmo se profissionalizar como futebolistas. Desse modo, a <strong><em>LAF<\/em><\/strong> n\u00e3o poderia mesmo ter vida longa\u201d. Em S\u00e3o Paulo, mais do que em qualquer outro lugar do pa\u00eds, o profissionalismo no futebol \u201cavan\u00e7ava de forma irrevers\u00edvel\u201d (Caldas, 1990, p. 129).<\/p>\n<p>Foi neste contexto que o <strong>S\u00e3o Geraldo<\/strong> elegeu uma nova diretoria e voltou a se afiliar \u00e0 <strong><em>APEA<\/em><\/strong>, participando de suas competi\u00e7\u00f5es. Em 1933, a revista Evolu\u00e7\u00e3o \u2013 cujo subt\u00edtulo era bem sugestivo: \u201crevista dos homens pretos de S\u00e3o Paulo\u201d \u2013 reportava-se ao passado da \u201cdedicada e sempre estimada associa\u00e7\u00e3o\u201d da Barra Funda, um passado que consistia numa \u201cp\u00e1gina cheia de gl\u00f3rias para o engrandecimento do progresso da nossa ra\u00e7a no esporte predileto do momento, o futebol.<\/p>\n<p>Desta Associa\u00e7\u00e3o t\u00eam sa\u00eddo grandes astros\u201d. Se o concurso de todos os elementos negros fosse uma realidade, \u201cela seria na atualidade uma grande demonstra\u00e7\u00e3o de for\u00e7a da nossa ra\u00e7a. Por\u00e9m, os seus dirigentes n\u00e3o se cansam de lutar. Esta sociedade nossa est\u00e1 filiada \u00e0 <strong><em>APEA<\/em><\/strong>, fazendo parte da sua <strong><em>2\u00aa. divis\u00e3o<\/em><\/strong>\u201d (Evolu\u00e7\u00e3o: Revista dos Homens Pretos de S\u00e3o Paulo, 13\/05\/1933, p. 14).<\/p>\n<p>Como se percebe, o <strong>S\u00e3o Geraldo<\/strong> continuava sendo celebrado pelos porta-vozes da \u201ccomunidade negra\u201d. Mais do que um mero time de futebol, ele era visto como uma refer\u00eancia c\u00edvica, um patrim\u00f4nio-s\u00edmbolo do aperfei\u00e7oamento da ra\u00e7a.<\/p>\n<p>Para al\u00e9m de um passado cheio de \u201cgl\u00f3rias\u201d, seus \u00eaxitos remeteriam \u00e0s potencialidades, ao poder de realiza\u00e7\u00e3o e \u00e0 capacidade de supera\u00e7\u00e3o do negro na sociedade brasileira. Mas, naquela altura, o clube da Barra Funda j\u00e1 n\u00e3o era o mesmo.<\/p>\n<p>Pouco a pouco entrou em crise, enfrentou tens\u00f5es internas e se desarticulou coletivamente. Sem resultados expressivos dentro de campo, restava viver de um discurso saudosista. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel assegurar, ainda, quando o time encerrou as suas atividades, mas parece que foi na primeira metade da d\u00e9cada de 1940.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel asseverar as raz\u00f5es internas que levaram a isso. Quanto \u00e0s externas, tudo indica que o desmonte do S\u00e3o Geraldo esteve relacionado ao novo contexto social e cultural. Com a consolida\u00e7\u00e3o do futebol como esporte de massa e sua definitiva profissionaliza\u00e7\u00e3o, o que implicou um aumento na competitividade entre os grandes clubes, perderam terreno as linhas de cor e de classe social que imperavam no meio (Levine, 1980; Evolu\u00e7\u00e3o: Revista dos Homens Pretos de S\u00e3o Paulo, 13\/05\/1933, p. 8).<\/p>\n<p>Contribuiu para esse processo o crescente descr\u00e9dito nas ideias do racismo cient\u00edfico e a ressignifica\u00e7\u00e3o, para n\u00e3o dizer positiva\u00e7\u00e3o, do papel da mesti\u00e7agem no imagin\u00e1rio nacional (Borges, 1993; Schwarcz, 1993; Ventura, 2000). Talvez mais importante que a condi\u00e7\u00e3o de \u201cpreto\u201d, \u201cmulato\u201d ou pobre de cada jogador seria a vit\u00f3ria do time.<\/p>\n<p>Conforme revelou A Voz da Ra\u00e7a em julho de 1933, \u201cos principais clubes de futebol aos poucos iam reformando seus estatutos e entre cl\u00e1usulas abolidas figurava sempre a que proibia a entrada de homens de cor\u201d. Para o ve\u00edculo de comunica\u00e7\u00e3o \u201coficial da Frente Negra Brasileira\u201d, o jogador s\u00edmbolo do \u201cingresso do negro nos altos cen\u00e1rios\u201d do futebol foi Mateus Marcondes.<\/p>\n<p>O \u201cm\u00e1sculo\u201d atleta do Clube Esp\u00e9ria teria sido a \u00faltima \u201cfigura a aparecer vitoriosamente em nossos esportes, vencendo e convencendo aos paredros do futebol bandeirante [&#8230;]\u201d (A Voz da Ra\u00e7a, 08\/07\/1933, p. 4).<\/p>\n<p>Muitos clubes da primeira divis\u00e3o do futebol paulista passaram a \u201crecrutar\u201d jogadores negros na d\u00e9cada de 1930. Isto n\u00e3o significa que tenham cessado as den\u00fancias de que tais jogadores, embora elevassem o nome das agremia\u00e7\u00f5es desportivas, eram aceitos apenas como atletas e n\u00e3o como s\u00f3cios (O Clarim d\u2019Alvorada, 26\/07\/1931, p. 3).<\/p>\n<p>Seja como for, emergiu um fen\u00f4meno novo: alguns dos melhores jogadores colored migraram para os grandes clubes (Andrews, 1998, p. 222). Bianco, o famoso \u201cgorrinho encarnado\u201d do Sul-Am\u00e9rica, transferiu-se para a <strong><em>Associa\u00e7\u00e3o Atl\u00e9tica das Palmeiras<\/em><\/strong> (A Voz da Ra\u00e7a, 08\/07\/1933, p. 4). Talvez o caso mais emblem\u00e1tico tenha sido Petronilho de Brito, um t\u00edpico jogador da v\u00e1rzea paulistana que, na concep\u00e7\u00e3o de Thomaz Mazzoni, trouxe pioneiramente para o \u201cfutebol dos grandes clubes o verdadeiro futebol da ra\u00e7a negra\u201d (Mazzoni, 1968, p. 159).<\/p>\n<p>Do pr\u00f3prio S\u00e3o Geraldo sa\u00edram \u201cgrandes astros\u201d (Evolu\u00e7\u00e3o: Revista dos Homens Pretos de S\u00e3o Paulo, 13\/05\/1933, p. 14), alguns dos quais teriam ido parar no <strong><em>Sport Club Corinthians<\/em><\/strong>, pelo menos \u00e9 o que Seu Zezindo da Casa Verde, um ex-jogador da equipe, afirma: Na Barra Funda jogava aqui no <strong>S\u00e3o Geraldo<\/strong>.<\/p>\n<p>Negro n\u00e3o passava [para a primeira divis\u00e3o do campeonato]. Ent\u00e3o n\u00f3is desafi\u00eamo tudo quanto era time de S\u00e3o Paulo. Tudo, Paulistano, n\u00f3s desafiava todo mundo. Ningu\u00e9m queria jog\u00e1 com n\u00f3is. Sabe quem foi que um dia descobriu o <strong>S\u00e3o Geraldo<\/strong>? O <strong><em>Cor\u00ednthians<\/em><\/strong>, come\u00e7ou a pass\u00e1 a m\u00e3o nos negro devagarinho, tir\u00f4 um, tir\u00f4 outro, tirou um, tirou outro e destruiu o S\u00e3o Geraldo. Mas o <strong>S\u00e3o Gerald<\/strong>o era pr\u00e1 s\u00ea um time de primeira categoria. No, no campeonato era&#8230;<\/p>\n<p>Os colored que permaneceram em seus times de origem, com raras exce\u00e7\u00f5es, n\u00e3o tinham a inten\u00e7\u00e3o de se profissionalizar como jogador de futebol. Assim, os times dos \u201chomens de cor\u201d se viram sem seus \u201ccraques\u201d, passaram a enfrentar dificuldades para se manter e, de certo modo, perderam parte da coes\u00e3o e do sentido de sua exist\u00eancia.<\/p>\n<p>Prosseguiram atuando no futebol amador de v\u00e1rzea, sem, contudo, perspectivas de vida longa. No que concerne ao <strong>S\u00e3o Geraldo<\/strong>, continuou a ser evocado no meio negro como o <strong><em>campe\u00e3o do Centen\u00e1rio<\/em><\/strong>. Dada a import\u00e2ncia do acontecimento, devia ser celebrado, rememorado e transmitido de gera\u00e7\u00e3o para gera\u00e7\u00e3o, para n\u00e3o cair no esquecimento.<\/p>\n<p>Em 1948, ao recordar os \u201cmaiores feitos do futebol brasileiro\u201d, <strong><em>a folha Mundo Esportivo<\/em><\/strong> mencionou o t\u00edtulo do <strong><em>S\u00e3o Geraldo de campe\u00e3o do Centen\u00e1rio da \u201cDivis\u00e3o Municipal<\/em><\/strong>\u201d (Mundo Esportivo, 16\/01\/1948, p. 14). A esse respeito, O Clarim d\u2019Alvorada j\u00e1 tinha sido bem incisivo em sua edi\u00e7\u00e3o de 26 de julho de 1931: \u201co S\u00e3o Geraldo \u00e9 um clube que honra a coletividade negra no futebol paulista\u201d (O Clarim d\u2019Alvorada, 26\/07\/1931, p. 3).<\/p>\n<p>Eis uma opini\u00e3o compartilhada por Dion\u00edsio Barbosa, que, em depoimento prestado ao Museu da Imagem e do Som em 1976, referiu-se \u00e0s supostas virtudes do \u201calvinegro\u201d da Barra Funda.<\/p>\n<p>Para muitas \u201cpessoas de cor\u201d, o <strong>S\u00e3o Geraldo<\/strong> era uma fonte de orgulho racial. Na pr\u00e1tica desportiva, constitu\u00eda uma esp\u00e9cie de sism\u00f3grafo do quanto o negro era perseverante, dotado de disciplina e qualidades f\u00edsicas, aliadas \u00e0 intelig\u00eancia e compet\u00eancia para alcan\u00e7ar os pin\u00e1culos da vit\u00f3ria e se impor perante os desafios da vida (e da na\u00e7\u00e3o), colocando em xeque a ideologia de sua inferioridade racial.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>PS:<\/strong> O <strong><em>t\u00edtulo do Torneio Eliminat\u00f3rio Paulista de 1923<\/em><\/strong>, est\u00e1 dispon\u00edvel em nosso Blog no seguinte Link: https:\/\/historiadofutebol.com\/blog\/?p=46969<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><em>FONTES:<\/em><\/strong><em> Progresso (23\/06\/1928, p. 5) &#8211; A Voz da Ra\u00e7a (25\/03\/1933, p. 2) &#8211; Correio de S\u00e3o Paulo (30\/04\/1941, p. 9; 08\/06\/1941, p. 18; 03\/07\/1941, p. 11; 17\/07\/1941, p. 10; 24\/07\/1941, p. 11; 10\/08\/1941, p. 20; 20\/08\/1941, p. 9). &#8211; Folha Mundo Esportivo &#8211; <\/em><em>Livro \u201cOs Esquecidos \u2013 Arquivos do Futebol Paulista, da Editora Datatoro, de autoria de Rodolfo Kussarev &#8211; <\/em>O \u201ccampe\u00e3o do Centen\u00e1rio\u201d: ra\u00e7a e na\u00e7\u00e3o no futebol paulista, de Petr\u00f4nio Domingues<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Associa\u00e7\u00e3o Athletica S\u00e3o Geraldo foi uma agremia\u00e7\u00e3o da Cidade de S\u00e3o Paulo (SP).O \u201cclube dos homens de cor\u201d foi Fundado no dia 1\u00ba de novembro de 1917, por um grupo de \u201chomens de cor\u201d: Silv\u00e9rio Pereira, Rufi no dos Santos, Felisbino Barbosa, Hor\u00e1cio da Cunha, Benedito Costa e Benedito Prestes. 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