{"id":83443,"date":"2016-03-08T19:05:08","date_gmt":"2016-03-08T22:05:08","guid":{"rendered":"https:\/\/historiadofutebol.com\/blog\/?p=83443"},"modified":"2016-03-08T19:05:08","modified_gmt":"2016-03-08T22:05:08","slug":"eduardo-o-xerife-do-morro-do-posto-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/historiadofutebol.com\/blog\/?p=83443","title":{"rendered":"EDUARDO, O XERIFE DO MORRO DO POSTO"},"content":{"rendered":"<p>Corria o ano de 1982. O futebol brasileiro ainda sangrava a derrota de Sarri\u00e1 e procurava por novos her\u00f3is, ou por algo que devolvesse o sentido \u00e0 bola que se jogava. No meu caso, um garoto de nove anos que teve na Copa da Espanha sua primeira desilus\u00e3o amorosa, algo que devolvesse o sentido \u00e0 vida que se vivia, depois do sonho destro\u00e7ado pelos p\u00e9s de Paolo Rossi. Cada qual \u00e0 sua maneira, os torcedores buscavam uma nova esperan\u00e7a. Era preciso reconciliar-se com o jogo.<\/p>\n<p>Eu reencontrei o futebol em um pequeno palco do sul do pa\u00eds. \u201cEst\u00e1dio Vidal Ramos J\u00fanior, o pr\u00f3prio da municipalidade\u201d, dizia Aldo Pires de Godoy na R\u00e1dio Clube. Naquela noite de inverno o Inter de Lages entrou em campo para encarar o Joinville, que reinava absoluto em terras catarinenses. E era certo que aquele Joinville seria outra vez campe\u00e3o catarinense, n\u00e3o havia for\u00e7a capaz de impedir o quinto t\u00edtulo seguido tricolor. O que quer\u00edamos \u00e9 que naquela noite, apenas naquela noite, a hist\u00f3ria fosse diferente. Que o Joinville levasse suas ta\u00e7as, mas n\u00e3o com uma vit\u00f3ria em nosso quintal. Havia sido assim na Ta\u00e7a Governador do Estado, disputada no primeiro semestre. Joinville campe\u00e3o, mas sem vencer o Internacional. <\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/historiadofutebol.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2016\/03\/INTER821-500x341.jpg\" alt=\"\" title=\"INTER82\" width=\"500\" height=\"341\" class=\"alignleft size-large wp-image-83444\" srcset=\"https:\/\/historiadofutebol.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2016\/03\/INTER821-500x341.jpg 500w, https:\/\/historiadofutebol.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2016\/03\/INTER821-300x204.jpg 300w, https:\/\/historiadofutebol.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2016\/03\/INTER821.jpg 918w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/p>\n<p>Liderado pelo craque Nardela, o advers\u00e1rio buscou o ataque. Mas suas iniciativas paravam em um beque parrudo, peito estufado, altivez cangaceira. A barba espessa sobre a pele castigada,  a cara de poucos amigos, nada era acolhedor em Eduardo. Poderia ser um bandido de um faroeste de Sergio Leone. Todavia, para n\u00f3s lageanos, os colorados eram mocinhos, e bandidos eram os outros. Por isso Eduardo era o nosso xerife. Como morava no bairro do Morro do Posto, assim ficou conhecido: Eduardo, o Xerife do Morro do Posto.<\/p>\n<p>Amigos, o embate foi \u00e9pico. O Joinville atacava em bloco e Eduardo desbaratava a trama ofensiva sem sutilezas. Carrinhos, voadoras, cabe\u00e7adas na bola e nas chuteiras, chutes girat\u00f3rios, tudo sem mexer um m\u00fasculo facial. Houvesse uma grava\u00e7\u00e3o do que fez Eduardo naquela noite e os atuais lutadores de MMA mudariam de profiss\u00e3o, envergonhados. Talvez se transformassem em jardineiros para cultivar pet\u00fanias. <\/p>\n<p>Outros tempos. Defender era um of\u00edcio s\u00e9rio, que prescindia de sorrisos ou boas maneiras. Eduardo n\u00e3o era violento, apenas herdara a imp\u00e1vida rudeza do homem lageano. Honrava suas chuteiras pretas e sua ins\u00edgnia em forma de estrela. Era um cumpridor de seus deveres. Um boi de botas. Um s\u00e9rio.<\/p>\n<p>Eduardo p\u00f4s os atacantes tricolores em debandada e o Joinville ficou acuado em sua metade de campo. O Inter estabeleceu o cerco. Apenas Eduardo ficou na intermedi\u00e1ria defensiva, onde recolhia as rebatidas desesperadas do advers\u00e1rio para repor o Inter no ataque. Vinha o chut\u00e3o, Eduardo amaciava a bola no peito estufado e a despachava para o companheiro melhor colocado.<\/p>\n<p>De tanto pressionar, o Inter conseguiu um p\u00eanalti. Martinho Bin executou o goleiro H\u00e9lio Fernandes com a frieza habitual e anotou o \u00fanico gol da noite. Os jogadores vieram comemorar junto ao pavilh\u00e3o social onde eu estava com meu pai, e procurei no emaranhado de bra\u00e7os erguidos o nosso xerife. N\u00e3o, ele n\u00e3o estava entre os que festejavam o gol. Eduardo j\u00e1 havia retornado ao seu posto, sozinho, e ajeitava a camisa por dentro do cal\u00e7\u00e3o, esperando o jogo recome\u00e7ar.<\/p>\n<div id=\"attachment_83445\" style=\"width: 504px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-83445\" src=\"https:\/\/historiadofutebol.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2016\/03\/Eduardo-PNG2.png\" alt=\"\" title=\"Eduardo PNG\" width=\"494\" height=\"537\" class=\"size-full wp-image-83445\" srcset=\"https:\/\/historiadofutebol.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2016\/03\/Eduardo-PNG2.png 494w, https:\/\/historiadofutebol.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2016\/03\/Eduardo-PNG2-275x300.png 275w, https:\/\/historiadofutebol.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2016\/03\/Eduardo-PNG2-459x500.png 459w\" sizes=\"auto, (max-width: 494px) 100vw, 494px\" \/><p id=\"caption-attachment-83445\" class=\"wp-caption-text\">Eduardo, estampa de bandido, autoridade de xerife<\/p><\/div>\n<p>Pelo registro hist\u00f3rico, diga-se que naquele ano o Joinville venceu a Ta\u00e7a Governador e o campeonato estadual, mas n\u00e3o superou o Inter em nenhuma oportunidade. Nos dois jogos no Ernesto Schlemm Sobrinho, empates sem gols. Nos dois jogos no Vidal Ramos J\u00fanior, vit\u00f3rias coloradas pelo escore m\u00ednimo. Ser campe\u00e3o era uma coisa. Dobrar o Inter de Eduardo em 1982 era algo bem diferente.<\/p>\n<p>Naquela noite, o Inter venceu com o gol de Bin e com a autoridade de Eduardo, nos p\u00e9s de quem o jogo se encerrou exatamente no nonag\u00e9simo minuto. Ap\u00f3s dominar a derradeira rebatida do Joinville, o Xerife pisou na bola e ficou est\u00e1tico. Assertivo, olhou para o \u00e1rbitro Jos\u00e9 da Silva Melo que, entendendo o gesto, apitou o fim.  Melhor para todos. Eduardo n\u00e3o deixaria o Joinville fazer um gol nem que a partida fosse at\u00e9 o amanhecer.<br \/>\nA R\u00e1dio Clube j\u00e1 havia escolhido, por unanimidade, o melhor em campo. Eduardo receberia um radinho a pilha, oferecimento da Loja Magnetron. O rep\u00f3rter Evaldir Nascimento alcan\u00e7ou Eduardo quando este j\u00e1 deixava o gramado e o interpelou: \u201c- Eduardo, voc\u00ea acaba de ganhar este r\u00e1dio National Panasonic, fidelidade em ondas curtas, m\u00e9dias e longas, como o melhor jogador da noite!\u201d<\/p>\n<p>Sem interromper sua caminhada, Eduardo disse rangendo dentes: \u201c- N\u00e3o quero. N\u00e3o fiz mais do que a minha obriga\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>E desceu a escadaria rumo ao vesti\u00e1rio, onde deixaria sua camisa vermelha, sua estrela dourada e suas chuteiras pretas. Dentro de instantes voltaria a ser apenas Eduardo Antunes de Castro, misturado entre outros lageanos no \u00faltimo \u00f4nibus circular com destino ao Morro do Posto, sem querer mais que um prato de comida e o reconfortante sono dos justos.<\/p>\n<p>O futebol sente saudade de voc\u00ea, Eduardo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Corria o ano de 1982. 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