{"id":7751,"date":"2010-05-11T19:38:07","date_gmt":"2010-05-11T22:38:07","guid":{"rendered":"https:\/\/historiadofutebol.com\/blog\/?p=7751"},"modified":"2010-05-11T19:38:07","modified_gmt":"2010-05-11T22:38:07","slug":"a-ciencia-do-chute-enviesado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/historiadofutebol.com\/blog\/?p=7751","title":{"rendered":"A ci\u00eancia do chute enviesado"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/historiadofutebol.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2010\/05\/a-folha-seca-de-Didi-188x300.jpg\" alt=\"a folha seca de Didi\" title=\"a folha seca de Didi\" width=\"188\" height=\"300\" class=\"alignnone size-medium wp-image-7746\" srcset=\"https:\/\/historiadofutebol.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2010\/05\/a-folha-seca-de-Didi-188x300.jpg 188w, https:\/\/historiadofutebol.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2010\/05\/a-folha-seca-de-Didi-314x500.jpg 314w, https:\/\/historiadofutebol.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2010\/05\/a-folha-seca-de-Didi.jpg 480w\" sizes=\"auto, (max-width: 188px) 100vw, 188px\" \/><br \/>\nNa hist\u00f3ria do futebol, alguns jogadores ficaram famosos por seus tiros enviesados, que surpreendem os goleiros ao mudar subitamente de rumo. Mas essa invej\u00e1vel habilidade tem explica\u00e7\u00e3o cient\u00edfica.<br \/>\nA bola, chutada quase da intermedi\u00e1ria, subiu demais, passando por cima da barreira formada a uma dist\u00e2ncia de 10 metros. Se continuasse nessa trajet\u00f3ria, iria fatalmente para fora do campo. De repente, por\u00e9m, a bola fez uma curva no ar e pareceu perder for\u00e7a, surpreendendo o goleiro, que nem sequer teve tempo de corrigir seus c\u00e1lculos e saltar antes que ela ca\u00edsse suavemente dentro de suas redes. O gol, aos 27 minutos do segundo tempo no jogo com o Peru, classificou o Brasil para a disputa da Copa do Mundo de 1958, na Su\u00e9cia.<br \/>\nO jogo estava equilibrado, o time orientado por Osvaldo Brand\u00e3o encontrava dificuldades para furar o bloqueio peruano. At\u00e9 que surge uma falta nas proximidades da \u00e1rea peruana. Didi ajeita a bola e chuta. A bola sai sem muita for\u00e7a, encobre a barreira, ganha muita altura, cai rapidamente e entra, enganando o goleiro. \u00c9 o &#8220;folha-seca&#8221;, tipo de chute que foi sua marca registrada.<br \/>\nO resto da hist\u00f3ria todo mundo conhece: Brasil, campe\u00e3o mundial de futebol revelando ao mundo um meia-esquerda apelidado Pel\u00e9.<\/p>\n<p>Mas o gol que levou o Brasil \u00e0 Su\u00e9cia nasceu dos p\u00e9s de um meia-direita. O goleiro peruano foi tra\u00eddo pela folha-seca a grande especialidade de Valdir Pereira dos Santos, do Botafogo do Rio de Janeiro, conhecido como Didi. \u00c9 prov\u00e1vel que ele n\u00e3o soubesse disso, mas dois fen\u00f4menos aerodin\u00e2micos s\u00e3o respons\u00e1veis por aquele e dezenas de outros gols parecidos que marcou: a for\u00e7a ascensional, a mesma que ajuda os avi\u00f5es a voar, e o chamado efeito Magnus, de onde se originou a express\u00e3o tiro com efeito, para designar os chutes enviesados que fazem o desespero dos goleiros.<br \/>\nA for\u00e7a ascensional aerodin\u00e2mica pode aparecer tamb\u00e9m aliada ao efeito Magnus no v\u00f4o de uma bola quando, al\u00e9m de subir, ela gira ao redor de seu pr\u00f3prio eixo. Os jogadores de futebol costumam dizer ent\u00e3o que a bola est\u00e1 envenenada.<br \/>\nNo Brasil, quem n\u00e3o se lembra das cobran\u00e7as de falta de Nelinho, no Cruzeiro de Belo Horizonte ou na sele\u00e7\u00e3o, h\u00e1 seis anos? Ele foi o mais impressionante cobrador de faltas que j\u00e1 conheci, lembra o cronista esportivo Vital Bataglia. Alguns, como Pepe, do Santos, ou Miranda, do Corinthians, at\u00e9 chutavam mais forte; outros, como Ailton Lira, do Santos, e M\u00e1rio S\u00e9rgio, do Gr\u00eamio de Porto Alegre e depois do S\u00e3o Paulo, eram virtuoses do efeito. Mas nenhum deles, como Nelinho, combinava perfeitamente as duas coisas a ponto de dar a impress\u00e3o de que a bola mudava de rumo tr\u00eas vezes no ar.<\/p>\n<p>Para contrabalan\u00e7ar a vantagem que os chutes de Nelinho davam ao time do Cruzeiro, seu arquiinimigo no futebol mineiro, o Atl\u00e9tico, contava com o ponta-esquerda \u00c9der, tamb\u00e9m ele um artista na cobran\u00e7a de faltas, com seus chutes fortes e cheios de efeito. \u00c9der, Nelinho e o flamenguista Zico substitu\u00edram, na Sele\u00e7\u00e3o Brasileira, outros especialistas na arte de envenenar a bola: G\u00e9rson e Rivelino, estrelas da sele\u00e7\u00e3o que conquistou o tricampeonato mundial em 1970.<\/p>\n<p>A maior dificuldade nesse tipo de chute est\u00e1 em bater na bola com for\u00e7a suficiente para obter uma mudan\u00e7a significativa em sua rota normal. Uma bola oficial de futebol tem um peso relativamente alto entre 453 e 534 gramas e n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil faz\u00ea-la descrever uma curva no ar.<\/p>\n<p>Quem j\u00e1 chutou uma bola de praia sabe como ela descreve as mais estranhas curvas. Isso acontece porque, sendo muito leve, lhe \u00e9 muito dif\u00edcil vencer a resist\u00eancia do ar. Ao ter o movimento de rota\u00e7\u00e3o sobre seu pr\u00f3prio eixo interrompido pelo ar, ela muda bruscamente de dire\u00e7\u00e3o. Alguns jogadores t\u00eam um dom\u00ednio t\u00e3o grande dos chutes de efeito que n\u00e3o o utilizam apenas na cobran\u00e7a de faltas, mas tamb\u00e9m para lan\u00e7amentos de longa dist\u00e2ncia aos companheiros.<\/p>\n<p>O mestre de todos eles, Didi, aprendeu a arte com outro g\u00eanio em bolas envenenadas: Jair Rosa Pinto, Mestre Jaj\u00e1, como era chamado, n\u00e3o chegava a impressionar os advers\u00e1rios. Mas de seus p\u00e9s pequenos, cal\u00e7ados com chuteiras n\u00famero 37, sa\u00edam bolas que ele colocava onde desejava, depois de faz\u00ea-las descrever graciosas curvas no ar. Observando Jair Rosa Pinto, Didi desenvolveu sua folha-seca.<\/p>\n<p>Embora teoricamente n\u00e3o tenha segredo para os profissionais do futebol que o chamam de tr\u00eas dedos, pela forma com que o p\u00e9 bate na bola , o chute de Didi ainda n\u00e3o foi imitado. Elegante, bo\u00eamio e sem paci\u00eancia para as longas sess\u00f5es de treinamentos f\u00edsicos no futebol, quem deve correr \u00e9 a bola, n\u00e3o o jogador, dizia , Didi batia na bola com impulso suficiente para faz\u00ea-la chegar at\u00e9 perto do gol advers\u00e1rio, para ent\u00e3o perder for\u00e7a, descrever uma curva e cair suavemente, como uma folha seca levada pelo vento.<br \/>\nEm seu livro, Jogando com Pel\u00e9, ele ensina como enviesar um tiro: Usa-se o dorso interno ou externo do p\u00e9 para os chutes de curva. A fim de obrigar a bola a fazer uma curva para a esquerda, chuta-se com o dorso interno do p\u00e9, visando n\u00e3o o meio, mas o lado direito da bola, no caso de o chute ser feito com o p\u00e9 direito. Com o esquerdo, a a\u00e7\u00e3o \u00e9 ao contr\u00e1rio. Se voc\u00ea quiser chutar em curva para a direita com o p\u00e9 direito , utilize o dorso externo do p\u00e9 e a \u00e1rea de impacto \u00e9 o lado esquerdo da bola. Os lados interno e externo do p\u00e9 s\u00e3o usados nos chutes pr\u00f3ximos \u00e0 meta, quando o goleiro advers\u00e1rio sai do gol em dire\u00e7\u00e3o ao atacante.<\/p>\n<p>O goleiro sempre oferece um canto da meta, tentando obrigar-nos a chutar naquele canto, como ele queria. \u00c9 por isso que, quando pr\u00f3ximos da meta, devemos colocar a bola, observando bem a posi\u00e7\u00e3o do goleiro. Sabe por qu\u00ea? \u00c9 muito mais f\u00e1cil o goleiro defender um chut\u00e3o do que um chute fraco, mas bem colocado. No chut\u00e3o, a bola sai violentamente, mas n\u00e3o modifica muito a sua rota, e o chute com menos for\u00e7a, mas colocado, pode modificar o rumo pela maneira como a gente bate na bola. Com a parte interna do p\u00e9, \u00e9 poss\u00edvel coloc\u00e1-la muito bem, porque a \u00e1rea de contato \u00e9 maior, portanto a precis\u00e3o do chute tamb\u00e9m \u00e9 maior.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na hist\u00f3ria do futebol, alguns jogadores ficaram famosos por seus tiros enviesados, que surpreendem os goleiros ao mudar subitamente de rumo. Mas essa invej\u00e1vel habilidade tem explica\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. A bola, chutada quase da intermedi\u00e1ria, subiu demais, passando por cima da barreira formada a uma dist\u00e2ncia de 10 metros. 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