{"id":6079,"date":"2010-03-12T20:56:52","date_gmt":"2010-03-12T23:56:52","guid":{"rendered":"https:\/\/historiadofutebol.com\/blog\/?p=6079"},"modified":"2010-03-12T20:56:52","modified_gmt":"2010-03-12T23:56:52","slug":"memoria-do-futebol-mundial-selecao-brasileira-na-copa-de-1930","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/historiadofutebol.com\/blog\/?p=6079","title":{"rendered":"Mem\u00f3ria do Futebol Mundial &#8211; Sele\u00e7\u00e3o Brasileira na Copa de 1930"},"content":{"rendered":"<h1><span style=\"font-size: x-small;\">Em sua primeira edi\u00e7\u00e3o, a Copa do Mundo era uma experi\u00eancia com gosto de aventura. V\u00e1rias das maiores sele\u00e7\u00f5es do mundo \u00e0 \u00e9poca, declinaram de participar. O Brasil, por sua vez, encarou o desafio<\/span><\/h1>\n<div><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/juvando.blog.uol.com.br\/images\/selecao_1930_com_legenda.gif\" alt=\"\" \/><\/div>\n<div>Existe um ditado chin\u00eas que diz: \u201cas mais altas torres se erguem do ch\u00e3o\u201d. Frase interessante, e cheia de significado \u2013 traz em si a ideia de que os grandes projetos demandam tempo, as maiores conquistas s\u00e3o fruto de esfor\u00e7o infatig\u00e1vel e que eventuais trope\u00e7os s\u00e3o pedras \u00fateis para refor\u00e7ar as funda\u00e7\u00f5es de nossos projetos de vida. Aplicando essa singela sabedoria oriental na hist\u00f3ria das Copas do Mundo, podemos dizer que a sele\u00e7\u00e3o brasileira \u00e9 a mais alta de todas as torres constru\u00eddas pelo torneio \u2013 afinal, j\u00e1 conquistamos cinco ta\u00e7as, disputamos decis\u00f5es outras duas vezes, e algumas de nossas participa\u00e7\u00f5es, mesmo sem levantar caneco, entraram para a hist\u00f3ria. E a nossa torre, no caso, tamb\u00e9m foi erguida do ch\u00e3o \u2013 mais precisamente, de participa\u00e7\u00f5es pouco empolgantes e\/ou fracassos dolorosos nas primeiras disputas pela ta\u00e7a. Com direito inclusive a derrota na estreia em Copas, contra a Iugosl\u00e1via, no j\u00e1 muito distante ano de 1930&#8230;<\/div>\n<div id=\"texto\">\n<p>Em sua primeira edi\u00e7\u00e3o, a Copa do Mundo era uma experi\u00eancia com gosto de aventura.V\u00e1rias das maiores sele\u00e7\u00f5es do mundo \u00e0 \u00e9poca, como It\u00e1lia, Espanha, Portugal e Alemanha, declinaram de participar devido aos altos custos e ao longo per\u00edodo de deslocamento \u2013 de navio \u2013 para chegar ao pa\u00eds sede Uruguai. Outras na\u00e7\u00f5es fizeram grandes sacrif\u00edcios para participar \u2013 conta-se que a Rom\u00eania s\u00f3 jogou a Copa porque o rei Karol II interveio pessoalmente, bancando financeiramente a expedi\u00e7\u00e3o e garantindo junto aos patr\u00f5es dos atletas que ningu\u00e9m perderia o emprego por causa da viagem&#8230; O Brasil encarou esse desafio todo, mas sofreu com mais de cinco dias de viagem, o que somado ao trabalho ainda rudimentar de prepara\u00e7\u00e3o f\u00edsica resultou em grande desgaste f\u00edsico antes da estreia.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, outro problema fragilizou a sele\u00e7\u00e3o pioneira \u2013 desta feita, pol\u00edtico. A Confedera\u00e7\u00e3o Brasileira de Desportos (CBD), sediada na ent\u00e3o capital Rio de Janeiro, recusou-se a integrar profissionais da Associa\u00e7\u00e3o Paulista de Esportes Atl\u00e9ticos (Apea) na delega\u00e7\u00e3o que iria para o Uruguai. A implic\u00e2ncia, motivada pela rivalidade pol\u00edtica entre Rio e S\u00e3o Paulo, recebeu uma resposta dura dos paulistas. Como repres\u00e1lia \u00e0 afronta carioca, a Apea proibiu clubes paulistas de cederem jogadores para a sele\u00e7\u00e3o \u2013 o que privou a equipe de v\u00e1rios dos maiores craques da \u00e9poca, como Del Debbio, Feiti\u00e7o, Ja\u00fa e o lend\u00e1rio Friedenreich.<\/p>\n<p>Com isso, a sele\u00e7\u00e3o brasileira (que j\u00e1 seria, na pr\u00e1tica, um selecionado RJ-SP) contou com um \u00fanico jogador paulista \u2013 Araken, ou Abraham Patusca da Silveira para os n\u00e3o-\u00edntimos. Integrante da que hoje \u00e9 considerada a primeira grande fase do Santos, entrou para a hist\u00f3ria em 1927, como craque do ent\u00e3o chamado \u201cataque dos cem gols\u201d. A participa\u00e7\u00e3o do atacante na Copa \u00e9 no m\u00ednimo curiosa: brigado com a dire\u00e7\u00e3o santista na \u00e9poca, Araken literalmente convidou-se para viajar, indo at\u00e9 o porto de Santos e aproveitando uma pausa na viagem para embarcar no navio rumo a Montevid\u00e9u&#8230; Na volta, sem clima para seguir na Vila Belmiro, assinaria com o S\u00e3o Paulo, onde foi campe\u00e3o estadual em 1931.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de Araken, e apesar das aus\u00eancias provocadas pelo racha entre Apea e CBD, o grupo brasileiro tinha outros jogadores de grande destaque na \u00e9poca. Entre eles, podemos come\u00e7ar citando Oscarino e Manoelzinho, considerados os maiores craque da hist\u00f3ria do Ypiranga de Niter\u00f3i (RJ). Na \u00e9poca, os dois eram campe\u00f5es estaduais pela Associa\u00e7\u00e3o Nictheroyense \u2013 vale frisar que, naqueles tempos, o campeonato carioca era disputado por sele\u00e7\u00f5es citadinas e n\u00e3o por clubes propriamente ditos. O zagueiro It\u00e1lia (do Vasco), o meia Fernando Giudicelli (Fluminense) e Moderato, ga\u00facho de Alegrete e ent\u00e3o atacante do Flamengo, eram nomes considerados igualmente fortes naquele elenco pioneiro.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Coelho Neto, o Prego (que mais tarde desceu na hierarquia dos apelidos e virou Preguinho) era talvez o maior destaque individual daquele time. Al\u00e9m de famoso pela sua capacidade de marcar gols, a rela\u00e7\u00e3o de amor do atacante com o Fluminense entrou para a hist\u00f3ria. Sua fam\u00edlia foi uma das fundadoras do clube, e diz-se que virou s\u00f3cio antes mesmo de ser batizado, detentor que era da inscri\u00e7\u00e3o n\u00ba 20 do quadro social do P\u00f3 de Arroz. Defendeu o Fluminense em nada menos que oito esportes diferentes, e conquistou para o tricolor carioca impressionantes 55 t\u00edtulos (!) e 387 medalhas (!!!) durante sua carreira. E tudo isso sem cobrar um tost\u00e3o: apaixonado pelo Fluminense, Preguinho manteve-se amador mesmo quando o profissionalismo chegou ao futebol, defendendo as cores do clube de 1925 a 1938. Convenhamos, n\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que virou benem\u00e9rito e hoje em dia d\u00e1 nome ao gin\u00e1sio que fica ao lado do Est\u00e1dio das Laranjeiras&#8230;<\/p>\n<p>Para comandar esse plantel fragilizado pelas aus\u00eancias, mas ainda assim dotado de bons nomes, a CBD indicou o ex-jogador P\u00edndaro de Carvalho Rodrigues. Entre outros feitos, o ent\u00e3o defensor participou do primeir\u00edssimo jogo de futebol da hist\u00f3ria do Clube de Regatas Flamengo \u2013 a saber, uma estrondosa goleada de 16 a 2 sobre o pobre-diabo Mangueira, ocorrida no dia 3 de maio de 1912. Defendeu o clube por dez anos, disputando mais de oitenta partidas e marcando tr\u00eas gols em sua carreira. Vestiu tamb\u00e9m a camisa canarinho (ent\u00e3o branca como a virtude, mas enfim) em oito oportunidades, inclusive conquistando a Copa Am\u00e9rica de 1919. P\u00edndaro tinha, portanto, uma hist\u00f3ria respeit\u00e1vel dentro do futebol \u2013 que talvez n\u00e3o tenha sido suficiente para arrumar a bagun\u00e7a daquela primeira participa\u00e7\u00e3o em Copas, mas que justificava plenamente a escolha dele para t\u00e3o importante posto. Vale citar, por\u00e9m, que P\u00edndaro chegou em Montevideo depois dos seus atletas, v\u00e1rios deles vindo a conhecer seu comandante j\u00e1 em solo uruguaio&#8230;<\/p>\n<p>Voltemos, ent\u00e3o, ao Uruguai e \u00e0 Copa que deu in\u00edcio a todas as Copas. O Brasil era cabe\u00e7a de chave no Grupo 2, onde jogariam tamb\u00e9m Iugosl\u00e1via e Bol\u00edvia, classificando-se apenas o campe\u00e3o para a fase semifinal. A disputa, como de praxe posteriormente, era em turno \u00fanico, e cada sele\u00e7\u00e3o teria apenas duas partidas para definir o seu destino. Mesmo com todos os problemas, os brasileiros eram dados como favoritos \u2013 muito devido ao desempenho recente do time, com v\u00e1rias vit\u00f3rias em amistosos contra equipes internacionais como Ferencvaros (HUN) e Rampla Juniors (URU). Confiantes, apesar de tudo, num bom resultado, a equipe brasileira entrou em campo para encarar a Iugosl\u00e1via, \u00e0s 12h45 do dia 14 de julho de 1930, com Joel; Brilhante e It\u00e1lia; Herm\u00f3genes, Fausto e Fernando Giudicelli; Poly, Araken, Prego, Nilo e Te\u00f3philo.<\/p>\n<p>A grande estreia brasileira em Copas, no entanto, foi decepcionante. J\u00e1 aos 21mins de jogo, o atacante Aleksandar Tirnani\u0107, na \u00e9poca com meros 19 anos de idade, fez o primeiro gol dos iugoslavos, para surpresa dos cerca de cinco mil torcedores presentes ao Parque Central de Montevideo. Oito minutos depois, Yvan Beck (que, vejam s\u00f3, defenderia a sele\u00e7\u00e3o da Fran\u00e7a cinco anos depois) marcou o segundo. Sem o melhor preparo f\u00edsico, os atletas brasileiros tiveram dificuldades para buscar uma rea\u00e7\u00e3o \u2013 somente aos 17mins do segundo tempo o preju\u00edzo seria diminu\u00eddo, com nosso amigo Prego acertando um \u201cplaced shot\u201d (abra\u00e7o, FM). Foi nosso primeiro gol em Copas do Mundo \u2013 pena que a hist\u00f3ria se escreveu em tristes circunst\u00e2ncias, com a derrota de 2 a 1 para os iugoslavos e a classifica\u00e7\u00e3o para as semifinais transformada num sonho praticamente inalcan\u00e7\u00e1vel. Uma derrota que, paradoxalmente, gerou muita festa no Brasil \u2013 mais especificamente em S\u00e3o Paulo, onde houve aglomera\u00e7\u00e3o em frente a sedes de jornais para comemorar o fracasso dos \u201ccariocas\u201d&#8230;<\/p>\n<p>Como a Iugosl\u00e1via enfrentaria a Bol\u00edvia tr\u00eas dias depois, e como at\u00e9 ent\u00e3o os bolivianos jamais haviam vencido nenhuma partida em sua hist\u00f3ria, a chance do Brasil entrar em campo j\u00e1 eliminado era bastante alta. E assim foi: apesar da bravura boliviana, segurando um empate at\u00e9 o come\u00e7o do segundo tempo, os iugoslavos abriram a porteira e acabaram patrolando os advers\u00e1rios com um categ\u00f3rico 4 a 0. Restava aos brasileiros, portanto, jogar pela honra a partida derradeira contra os bolivianos. Com a equipe bastante modificada em rela\u00e7\u00e3o a da estreia, nossa sele\u00e7\u00e3o conquistou sua primeira vit\u00f3ria em Mundiais, com um 4 a 0 honrado e cheio de brio. Al\u00e9m de Prego, que marcou dois gols e somou-os ao gol inaugural para ser nosso artilheiro naquela Copa, os destaques v\u00e3o para o alegretense Moderato, autor dos outros dois tentos do jogo, para Fausto (que jogou t\u00e3o bem na Copa que ganhou a alcunha &#8220;Maravilha Negra&#8221; e acabou contratado pelo Barcelona) e para Velloso, que substituiu Joel debaixo das traves e defendeu um p\u00eanalti quando a partida ainda estava no zero a zero.<\/p>\n<p>Uma vit\u00f3ria que, se n\u00e3o serviu para nada em termos de classifica\u00e7\u00e3o, mostrou qual seria a nossa tend\u00eancia em Mundiais, sendo o primeiro de sessenta e quatro triunfos em dezoito edi\u00e7\u00f5es do torneio. E que emprestou dignidade a uma participa\u00e7\u00e3o pioneira e a um grupo de atletas idem. Mesmo fragilizado e privado de v\u00e1rios craques por conta de picuinhas que hoje soam rid\u00edculas, o Brasil fez o melhor que p\u00f4de, dadas as circunst\u00e2ncias. E \u00e9 como foi dito no in\u00edcio: toda torre come\u00e7a do ch\u00e3o, e toda a hist\u00f3ria tem um primeiro cap\u00edtulo. Esse foi o nosso \u2013 talvez n\u00e3o t\u00e3o glorioso quanto outros que se seguiriam, mas ainda assim um belo cap\u00edtulo. Corajoso, cheio de desafios e apontando para o futuro.<\/p><\/div>\n<p>Fonte:\u00a0 Brasildefato.com.br<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em sua primeira edi\u00e7\u00e3o, a Copa do Mundo era uma experi\u00eancia com gosto de aventura. V\u00e1rias das maiores sele\u00e7\u00f5es do mundo \u00e0 \u00e9poca, declinaram de participar. O Brasil, por sua vez, encarou o desafio Existe um ditado chin\u00eas que diz: \u201cas mais altas torres se erguem do ch\u00e3o\u201d. Frase interessante, e cheia de significado \u2013 [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":29,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[],"class_list":["post-6079","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-historia-do-futebol"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/historiadofutebol.com\/blog\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/6079","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/historiadofutebol.com\/blog\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/historiadofutebol.com\/blog\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/historiadofutebol.com\/blog\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/29"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/historiadofutebol.com\/blog\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=6079"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/historiadofutebol.com\/blog\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/6079\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6080,"href":"https:\/\/historiadofutebol.com\/blog\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/6079\/revisions\/6080"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/historiadofutebol.com\/blog\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=6079"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/historiadofutebol.com\/blog\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=6079"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/historiadofutebol.com\/blog\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=6079"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}