{"id":5914,"date":"2008-04-21T15:53:41","date_gmt":"2008-04-21T18:53:41","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.soccerlogos.com.br\/2008\/04\/21\/primeira-cronica-de-nelson-rodrigues-sobre-pele-25021958\/"},"modified":"2008-04-21T15:53:41","modified_gmt":"2008-04-21T18:53:41","slug":"primeira-cronica-de-nelson-rodrigues-sobre-pele-25021958","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/historiadofutebol.com\/blog\/?p=5914","title":{"rendered":"Primeira cr\u00f4nica de Nelson Rodrigues sobre Pel\u00e9 &#8211; 25\/02\/1958"},"content":{"rendered":"<p>Reparem na data e nas palavras do Nelson Rodrigues. Sensacional!<br \/>\nSantos 5&#215;3 Am\u00e9rica, 25\/02\/1958, no Maracan\u00e3, pelo Torneio Rio-S\u00e3o Paulo<\/p>\n<p>Depois do jogo Am\u00e9rica x Santos, seria uma crime n\u00e3o fazer de Pel\u00e9 o meu personagem da semana. Grande figura, que o meu confrade Albert Laurence chama de \u201co Domingos da Guia do ataque\u201d. Examino a ficha de Pel\u00e9 e tomo um susto: \u2014 dezessete anos! H\u00e1 certas idades que s\u00e3o aberrantes, inveross\u00edmeis. Uma delas \u00e9 a de Pel\u00e9. Eu, com mais de quarenta, custo a crer que algu\u00e9m possa ter dezessete anos, jamais. Pois bem: \u2014 verdadeiro garoto, o meu personagem anda em campo com uma dessas autoridades irresist\u00edveis e fatais. Dir-se-ia um rei, n\u00e3o sei se Lear, se imperador Jones, se et\u00edope. Racionalmente perfeito, do seu peito parecem pender mantos invis\u00edveis. Em suma: \u2014 Ponham-no em qualquer rancho e sua majestade din\u00e1stica h\u00e1 de ofuscar toda a corte em derredor.<\/p>\n<p>O que n\u00f3s chamamos de realeza \u00e9, acima de todo, um estado de alma. E Pel\u00e9 leva sobre os demais jogadores uma vantagem consider\u00e1vel: \u2014 a de se sentir rei, da cabe\u00e7a aos p\u00e9s. Quando ele apanha a bola e dribla um advers\u00e1rio, \u00e9 como quem enxota, quem escorra\u00e7a um plebeu ignaro e piolhento. E o meu personagem tem uma tal sensa\u00e7\u00e3o de superioridade que n\u00e3o faz cerim\u00f4nias. J\u00e1 lhe perguntaram: \u2014 \u201cQuem \u00e9 o maior meia do mundo?\u201d. Ele respondeu, com a \u00eanfase das certeza eternas: \u2014 \u201cEu\u201d. Insistiram: \u2014 \u201cQual \u00e9 o maior ponta do mundo?\u201d. E Pel\u00e9: \u2014 \u201cEu\u201d. Em outro qualquer, esse desplante faria rir ou sorrir. Mas o fabuloso craque p\u00f5e no que diz uma tal carga de convic\u00e7\u00e3o, que ningu\u00e9m reage e todos passam a admitir que ele seja, realmente, o maior de todas as posi\u00e7\u00f5es. Nas pontas, nas meias e no centro, h\u00e1 de ser o mesmo, isto \u00e9, o incompar\u00e1vel Pel\u00e9.<\/p>\n<p>Vejam o que ele fez, outro dia, no j\u00e1 referido Am\u00e9rica x Santos. Enfiou, e quase sempre pelo esfor\u00e7o pessoal, quatro gols em Pomp\u00e9ia. Sozinho, liquidou a partida, liquidou o Am\u00e9rica, monopolizou o placar. Ao meu lado, um americano doente estrebuchava: \u2014 \u201cV\u00e1 jogar bem assim no diabo que o carregue!\u201d. De certa feita, foi at\u00e9 desmoralizante. Ainda no primeiro tempo, ele recebe o couro no meio do campo. Outro qualquer teria despachado. Pel\u00e9, n\u00e3o. Olha para frente e o caminho at\u00e9 o gol est\u00e1 entupido de advers\u00e1rios. Mas o homem resolve fazer tudo sozinho. Dribla o primeiro e o segundo. Vem-lhe ao encal\u00e7o, ferozmente, o terceiro, que Pel\u00e9 corta sensacionalmente. Numa palavra: \u2014 sem passar a ningu\u00e9m e sem ajuda de ningu\u00e9m, ele promoveu a destrui\u00e7\u00e3o minuciosa e s\u00e1dica da defesa rubra. At\u00e9 que chegou um momento em que n\u00e3o havia mais ningu\u00e9m para driblar. N\u00e3o existia uma defesa. Ou por outra: \u2014 a defesa estava indefesa. E, ent\u00e3o, livre na \u00e1rea inimiga, Pel\u00e9 achou que era demais driblar Pomp\u00e9ia e enca\u00e7apou de maneira genial e inapel\u00e1vel.<\/p>\n<p>Ora, para fazer um gol assim n\u00e3o basta apenas o simples e puro futebol. \u00c9 preciso algo mais, ou seja, essa plenitude de confian\u00e7a, certeza, de otimismo, que faz de Pel\u00e9 o craque imbat\u00edvel. Quero crer que a sua maior virtude \u00e9, justamente, a imod\u00e9stia absoluta. P\u00f5e-se por cima de tudo e de todos. E acaba intimidando a pr\u00f3pria bola, que vem aos seus p\u00e9s com uma lambida docilidade de cadelinha. Hoje, at\u00e9 uma cambaxirra sabe que Pel\u00e9 \u00e9 imprescind\u00edvel em qualquer escrete. Na Su\u00e9cia, ele n\u00e3o tremer\u00e1 de ningu\u00e9m. H\u00e1 de olhar os h\u00fangaros, os ingleses, os russos de alto a baixo. N\u00e3o se inferiorizar\u00e1 diante de ningu\u00e9m. E \u00e9 dessa atitude viril e mesmo insolente que precisamos. Sim, amigos: \u2014 aposto minha cabe\u00e7a como Pel\u00e9 vai achar todos os nossos advers\u00e1rios uns pernas-de-pau.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Reparem na data e nas palavras do Nelson Rodrigues. Sensacional! Santos 5&#215;3 Am\u00e9rica, 25\/02\/1958, no Maracan\u00e3, pelo Torneio Rio-S\u00e3o Paulo Depois do jogo Am\u00e9rica x Santos, seria uma crime n\u00e3o fazer de Pel\u00e9 o meu personagem da semana. Grande figura, que o meu confrade Albert Laurence chama de \u201co Domingos da Guia do ataque\u201d. 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