{"id":5908,"date":"2008-04-16T20:37:12","date_gmt":"2008-04-16T23:37:12","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.soccerlogos.com.br\/2008\/04\/16\/elba-de-padua-lima-o-tim-foi-o-maior-estrategista-do-futebol-brasileiro\/"},"modified":"2021-10-03T23:04:14","modified_gmt":"2021-10-04T02:04:14","slug":"elba-de-padua-lima-o-tim-foi-o-maior-estrategista-do-futebol-brasileiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/historiadofutebol.com\/blog\/?p=5908","title":{"rendered":"Elba de P\u00e1dua Lima, o Tim: O maior estrategista do futebol brasileiro"},"content":{"rendered":"<p>No mapa paulista, em 1916, a cidade de Rifaina era um quase nada e n\u00e3o tinha sequer 500 viventes &#8211; uma fazenda crescida, com bode pastando, vaca leiteira no curral e a falta de perspectiva das pessoas maior que o horizonte. Para l\u00e1, a Companhia Mogiana de Estrada de Ferro transferiu o chefe de esta\u00e7\u00e3o Vargas Lima, marido de Tereza Granato. Nesse ano, em 20 de fevereiro, ela pariu o \u00fanico filho homem do casal: Elba de P\u00e1dua Lima &#8211; Tim -, que se imp\u00f4s como craque e estrategista de futebol. Vargas Lima gostava de ler hist\u00f3ria e geografia, por isso homenageou o rebento com esse nome de ilha italiana, onde exilaram Napole\u00e3o Bonaparte.<\/p>\n<p>Se a situa\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia j\u00e1 n\u00e3o era boa, com a morte do ferrovi\u00e1rio Vargas Lima ficou ainda pior. E ele faleceu no dia em que o guri fez 7 anos. E Tereza, de firmeza italiana e com cinco filhos menores &#8211; Tim e as irm\u00e3s -, fazia das tripas cora\u00e7\u00e3o para criar a prole.<\/p>\n<p>S\u00f3 n\u00e3o pode impedir que o filho fugisse de casa para jogar pelada, onde passou de Ti (nome dom\u00e9stico) a Tim. E, aos 12 anos, estreou no infantil do Botafogo de Ribeir\u00e3o Preto. Sua bola levou-o ao time principal em 1931. Tr\u00eas anos ap\u00f3s, a Portuguesa Santista fez do rapaz franzino o seu meia-esquerda. E levou Tim para a cidade de Santos, onde ele viu o mar &#8211; coisa da natureza que encanta aos do interior, tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Encantada ficaria a torcida ao v\u00ea-lo no certame estadual paulista, abrindo defesas com dribles incr\u00edveis. E o escrete de S\u00e3o Paulo o convocou em 1935 para vencer o campeonato nacional de sele\u00e7\u00f5es. Disso ao sul-americano de 36, em Buenos Aires, foi s\u00f3 um passo. E l\u00e1 a imprensa argentina, vendo nele o c\u00e9rebro do time brasileiro, o cognominaria de El Pe\u00f3n, j\u00e1 que na vida rural \u00e9 o pi\u00e3o quem controla e conduz o rebanho pelos pampas.<\/p>\n<p>Contudo, saudoso de casa, Tim retornou ao Botafogo de Ribeir\u00e3o. Mas no interior ele n\u00e3o ficaria, pois o Fluminense carioca fez-lhe um convite financeiramente irrecus\u00e1vel. E por quase 8 anos &#8211; ao lado de Romeu Pellicciari &#8211; Elba de P\u00e1dua Lima seria, e ainda \u00e9, das estrelas mais luzentes da constela\u00e7\u00e3o do clube tricolor das Laranjeiras.<\/p>\n<p>Com tal brilho, em 38, Tim deu ao Flu o tricampeonato. E foi ao Mundial na Fran\u00e7a, onde s\u00f3 disputou o jogo de desempate contra os checos, vencidos pelo Brasil para o encanto dos franceses de Bordeaux. Segundo Le\u00f4nidas, na Fran\u00e7a, ele vencia tamb\u00e9m a concentra\u00e7\u00e3o, pulando a janela do hotel para farrear. Mas Tim n\u00e3o venceu o boicote de Ademar Pimenta, t\u00e9cnico do Botafogo carioca e dessa sele\u00e7\u00e3o brasileira. Isso era claro nos treinos preparat\u00f3rios do escrete, com Pimenta estimulando beques a par\u00e1-lo a todo custo, e assim abrir espa\u00e7o para o alvinegro Per\u00e1cio jogar a Copa. Nas Laranjeiras, Tim seria ainda bicampe\u00e3o em 41. L\u00e1, o escrete brasileiro foi busc\u00e1-lo pela \u00faltima vez no ano seguinte. E em 1944, tendo garantido no Fluminense o lugar ao sol, ele se transferiu para o S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Na Paulic\u00e9ia, fez apenas uma temporada, transferido-se para o Botafogo do Rio, no qual ficou at\u00e9 1947, quando apareceu no Olaria como atleta e t\u00e9cnico. Nessas fun\u00e7\u00f5es, esteve 2 anos no Botafogo paulista e, at\u00e9 51, no colombiano Atl\u00e9tico Junior de Barranquilla, junto com Heleno de Freitas e outros sul-americanos, como os argentinos Di St\u00e9fano, Pedernera e Nestor Rossi.<\/p>\n<p>De volta ao Brasil, o t\u00e9cnico Tim de fato fez jus ao ep\u00edteto de El Pe\u00f3n: foi o maior estrategista do futebol brasileiro. Para ser entendido, ele expunha a sua t\u00e1tica mostrando como um time de bot\u00f5es se posicionava. E era mais facilmente aceito pelo grupo. Outra de suas caracter\u00edsticas: tratar o atleta com respeito, sem altear a voz, e assim se impor como autoridade democr\u00e1tica &#8211; exatamente o oposto de certos treinadores, como o intrat\u00e1vel Fl\u00e1vio Costa. Este, manda chuva no Flamengo e na sele\u00e7\u00e3o carioca de 43 e 45, quis deixar Tim no banco do escrete estadual &#8211; coincidentemente, para escalar Per\u00e1cio, \u00e0 \u00e9poca na G\u00e1vea. Contudo, por press\u00e3o do povo e da m\u00eddia, Tim atuou como titular nessas competi\u00e7\u00f5es, sendo inclusive campe\u00e3o em ambas.<\/p>\n<p>Elba de P\u00e1dua Lima dirigiu times no exterior e pelo Pa\u00eds afora. Dentre outros, al\u00e9m da sele\u00e7\u00e3o peruana na Copa do Mundo de 82, o San Lorenzo argentino, o escrete carioca e os bons clubes do Rio. Em Mo\u00e7a Bonita, teve o feeling de ver que na cidade paulista de Bauru raiava o maior astro de bola do mundo: Pel\u00e9. E, em v\u00e3o, Tim quis lev\u00e1-lo para o Bangu, por\u00e9m a fam\u00edlia do futuro Rei n\u00e3o deixou. Como t\u00e9cnico, Elba \u00e0s vezes era ir\u00f4nico. Um dia, fazendo peneira de candidatos, veio a ele um rapaz dizendo, para agrad\u00e1-lo: &#8220;N\u00e3o bebo, n\u00e3o fumo nem farreio&#8221;. E o rifainense: &#8220;Pois voc\u00ea aqui vai aprender a fazer tudo isso&#8221;. Outra hist\u00f3ria, vem do escritor Luiz Eduardo Lages: ap\u00f3s ouvir algu\u00e9m falar que no est\u00e1dio havia alambrado e vesti\u00e1rios, Tim inquiriu: &#8220;E grama, tem?&#8221;. Quando o outro confirmou, ele coseu com alfinete: &#8220;\u00c9 s\u00f3 o que precisamos para jogar, o resto n\u00e3o interessa&#8221;. Para Zizinho, Tim foi, disparadamente, o melhor t\u00e9cnico que apareceu no Brasil.<\/p>\n<p>Esse treinador ainda cativaria os atletas na mesa, pois cozinhava bem &#8211; habilidade exercida com a mesma arte com que jogou e soube ensinar futebol. A culin\u00e1ria foi aprimorada gra\u00e7as \u00e0 sua proverbial timidez, que o fazia fugir dos f\u00e3s, deixando-o em casa a ver a m\u00e3e e as 4 irm\u00e3s (uma delas atendia pelo suave nome de Cor\u00e9ia) preparar as iguarias. Seu segredo era o tempero. E quem provou do que fez diz que a alm\u00f4ndega ao molho atra\u00eda tanto quanto a dobradinha. Da\u00ed, houve quem dissesse que Elba fora melhor cozinheiro que craque e treinador &#8211; um exagero desmedido, \u00e9 claro.<\/p>\n<p>Segundo os jornalistas Marcos de Castro e Jo\u00e3o M\u00e1ximo, &#8220;seu melhor prato, entretanto, continuou sendo por muito tempo o futebol, servido todos os domingos \u00e0 torcida do Fluminense&#8221;. Sim, ele foi not\u00e1vel com os p\u00e9s. E &#8220;o futebol faz parte da hist\u00f3ria particular de cada brasileiro da nossa \u00e9poca&#8221;, dizia o poeta e cronista Paulo Mendes Campos, que jamais renunciou ao direito e ao prazer de sonhar com esse esporte, &#8220;por fidelidade \u00e0 inf\u00e2ncia e por fidelidade ao orgulho inexplic\u00e1vel de ser brasileiro&#8221;. No caso espec\u00edfico do El Pe\u00f3n, a sua bola era tanta que outra sumidade, Romeu Pellicciari &#8211; ressentido com a semifinal contra a It\u00e1lia em 1938 -, revelou: &#8220;Se Tim tivesse jogado, n\u00f3s ganh\u00e1vamos&#8221;. Nas tr\u00eas situa\u00e7\u00f5es, portanto, s\u00e3o palavras abalizadas de quem sabe das coisas &#8211; e como.<\/p>\n<p>Elba de P\u00e1dua Lima morreu no Rio em 7 de julho de 1984. Os seus legados ao futebol s\u00e3o a finta, a vis\u00e3o de jogo e o passe preciso, al\u00e9m da estrat\u00e9gia. A vi\u00fava herdou as duas filhas. E na Hist\u00f3ria esta certeza de Domingos da Guia: &#8220;Eu nunca vi Tim errar&#8221;.<\/p>\n<p><em><strong>FONTE:<\/strong> Papo de Bola &#8211; Vida de Craque<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No mapa paulista, em 1916, a cidade de Rifaina era um quase nada e n\u00e3o tinha sequer 500 viventes &#8211; uma fazenda crescida, com bode pastando, vaca leiteira no curral e a falta de perspectiva das pessoas maior que o horizonte. 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