{"id":5875,"date":"2008-03-31T11:40:05","date_gmt":"2008-03-31T14:40:05","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.soccerlogos.com.br\/2008\/03\/31\/radinho-de-pilha\/"},"modified":"2008-03-31T11:40:05","modified_gmt":"2008-03-31T14:40:05","slug":"radinho-de-pilha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/historiadofutebol.com\/blog\/?p=5875","title":{"rendered":"Radinho de Pilha"},"content":{"rendered":"<p>Sempre gostei de futebol. E \u00e9 tanta essa paix\u00e3o que acho que at\u00e9 sou meio fan\u00e1tico, a ponto de deixar alguns compromissos familiares de lado, s\u00f3 pra poder ir ao est\u00e1dio assistir \u00e0 partida do meu time.<\/p>\n<p>Mas, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 de futebol que gosto. Gosto tamb\u00e9m de ouvir r\u00e1dio. Isso desde criancinha. N\u00e3o sei porque o r\u00e1dio sempre me atraiu.<\/p>\n<p>Quando era crian\u00e7a, na minha casa t\u00ednhamos um r\u00e1dio na sala. Era habitual. Todas as casas tinham seu r\u00e1dio na sala. Mesmo porque n\u00e3o havia ainda televis\u00e3o. Ali\u00e1s, minto, j\u00e1 havia. N\u00f3s \u00e9 que n\u00e3o t\u00ednhamos dinheiro para comprar uma. Na verdade, poucas eram as fam\u00edlias que as tinham. Depois a coisa foi ficando mais acess\u00edvel. Da\u00ed a tev\u00ea acabou sendo incorporada \u00e0quele ambiente. N\u00e3o para tomar o lugar do r\u00e1dio, pois esse era insubstitu\u00edvel. Mas sim, para somar. A tev\u00ea ficava em um canto e o r\u00e1dio no ambiente central. Mas n\u00e3o vou aqui falar da rivalidade do r\u00e1dio e da tev\u00ea. Vou \u00e9 mais falar das minhas paix\u00f5es pueris, que na verdade continuam at\u00e9 hoje, talvez porque eu ainda n\u00e3o tenha crescido, ou essas paix\u00f5es cresceram comigo, as duas: futebol e r\u00e1dio.<\/p>\n<p>E por falar nelas, nas duas paix\u00f5es, que pensar ent\u00e3o, nas duas misturadas: o futebol no r\u00e1dio. Como me fascinava ouvir no r\u00e1dio as transmiss\u00f5es das partidas de futebol. Que emo\u00e7\u00e3o! Quanta vibra\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p>Jamais locutor nenhum na tev\u00ea conseguir\u00e1 colocar tanta energia numa transmiss\u00e3o de jogo como nas transmiss\u00f5es do r\u00e1dio. Mesmo porque, como dizem, uma imagem fala mais que mil palavras. Ent\u00e3o, por isso, talvez, o locutor de r\u00e1dio seja obrigado a falar duas mil palavras para tentar construir na mente do ouvinte a precis\u00e3o do lance, na precis\u00e3o do momento da partida. E nesse esfor\u00e7o, eles acabam se tornando insuper\u00e1veis!<\/p>\n<p>Ainda me lembro da Copa de 66, aquela fat\u00eddica em que o Brasil entrou de salto alto por conta dos dois t\u00edtulos nas Copas anteriores (58-62). Daquela em que quebraram o rei, Pel\u00e9. Daquela em que reinou o pr\u00edncipe, Euz\u00e9bio. Daquela em que a Cor\u00e9ia mostrou que n\u00e3o tinha s\u00f3 radinho de pilha. Tinha tamb\u00e9m futebol. Daquela em que fizeram tudo para o time da rainha ganhar, sobre o time do kaiser. E n\u00e3o deu outra!<\/p>\n<p>Essa foi a primeira Copa que acompanhei. E pelo r\u00e1dio. Transmiss\u00e3o tecnicamente ruim, cheia de chiado, como se as ondas magn\u00e9ticas do r\u00e1dio viessem ao sabor das ondas do mar que atravessa os dois continentes. Mas tudo isso era superado quando \u201cabriam-se as cortinas e come\u00e7ava o espet\u00e1culo\u201d. Era o brilhante Fiori Giglioti, o mo\u00e7o nascido em Barra Bonita, mas criado em Lins! Divino Fiori. Entrava em campo com os jogadores. Sent\u00edamos o cora\u00e7\u00e3o saindo pela boca a cada jogada de ataque do \u201cescrete canarinho\u201d, termo por ele lapidado. Ele lapidava e coloria a transmiss\u00e3o!<\/p>\n<p>Mas essa foi a Copa da frustra\u00e7\u00e3o. A primeira pra mim, que nem nascido era em 1950, quando, dizem, foi essa a pior de todas!<\/p>\n<p>Mas, \u201co tempo passa&#8230;\u201d, como diria o meu amigo Fiori. E da\u00ed veio a Copa de 70. Aquela que n\u00e3o teve pra ningu\u00e9m e talvez a mais espetacular trajet\u00f3ria de nossa sele\u00e7\u00e3o em uma competi\u00e7\u00e3o. Todos os resultados incontest\u00e1veis. E era tamb\u00e9m a estr\u00e9ia da tev\u00ea, ofuscando as transmiss\u00f5es de r\u00e1dio, na voz das gerais, do Geraldo Jos\u00e9 de Almeida. \u00c9 verdade, mas ele veio da escola do r\u00e1dio, como muitos outros que migraram para a televis\u00e3o, como o Walter Abrah\u00e3o, comandando a Equipe 1040 da Tupi.<\/p>\n<p>Tempos outros. O nosso r\u00e1dio da sala, aos poucos trocou de lugar com a tev\u00ea. Ele que era de madeira brilhante, tipo m\u00f3vel, acabou cedendo seu espa\u00e7o. E se retirou para um canto da sala. Mas mesmo de canto, ainda era \u00fatil. E nessa de ser encostado, teve que inovar. Deixou de ser de v\u00e1lvula, que levava um s\u00e9culo para ligar, fazendo-me muitas vezes perder o lance do gol. Incorporou outra tecnologia: a do transistor. Ficou menor. Ganhou mobilidade e outro nome. Era o Spica. Deixou o canto da sala, nos acompanhando para todos os lados, mais \u00e1gil em todos os sentidos. Bastava acionar o bot\u00e3o e l\u00e1 come\u00e7ava ele a tagarelar sem parar, passando todos os lances das partidas, n\u00e3o mais me fazendo perder o lance do gol.<\/p>\n<p>E assim, eu continuei fiel a ele, por todas as partidas dos campeonatos paulistas. E ele nunca me decepcionou. Mandava suas transmiss\u00f5es de todos os cantos. De Ribeir\u00e3o Preto, a \u201cCalif\u00f3rnia Paulista\u201d ora com o Comercial, ora com o Botafogo. De Piracicaba com o Quinze. De Araraquara, a \u201cMorada do Sol\u201d, com a Ferrovi\u00e1ria. De Prudente, com a Prudentina, l\u00f3gico. De Campinas, com a Ponte e o Guarani. Sempre o Fiori. E s\u00f3 o Fiori, pra criar essas imagens do r\u00e1dio.<\/p>\n<p>Quantas noites de quarta-feira eu ia pra cama com o meu radinho de pilha, ouvindo as partidas de futebol. E quantas vezes meu pai tinha que tirar o radinho por de baixo do travesseiro para poder deslig\u00e1-lo, pois quando o jogo era morno ou meu cansa\u00e7o era grande, que me desculpasse o Fiori. Eu o deixava falando sozinho!<\/p>\n<p>E os anos foram passando. Novos campeonatos. Os torneios Rio &#8211; S\u00e3o Paulo, tamb\u00e9m pelas ondas do r\u00e1dio. Vieram os primeiros campeonatos brasileiros. Vieram outros locutores criando suas pr\u00f3prias ondas. \u201cPimba na gorduchinha\u201d, era o Osmar Santos. Talentoso Osmar, que o destino quis que se calasse e passasse a ser ouvinte apenas, como eu. Mas enquanto deu seu recado, falou bonito, criou escola e deixou um irm\u00e3o, o Oscar Ulysses, que apesar do gene da fam\u00edlia, tem seu estilo pr\u00f3prio.<\/p>\n<p>Teve o Joseval Peixoto, nome de cantor, mas um tremendo locutor! E o Z\u00e9, tamb\u00e9m! O Jos\u00e9 Silv\u00e9rio. Conseguiu o seu espa\u00e7o. Pinta as transmiss\u00f5es com cores pr\u00f3prias. Ele e outros tantos. Locutores e seus estilos, que v\u00e3o e que v\u00eam, nas ondas et\u00e9reas do r\u00e1dio.<\/p>\n<p>E com todas idas e vindas, a tev\u00ea procura selvagemente atingir as transmiss\u00f5es de r\u00e1dio. S\u00e3o um, dois, tr\u00eas, trinta canais, livres e pagos. Transmitem v\u00e1rias partidas, de v\u00e1rios campeonatos ao mesmo tempo. Com tudo que \u00e9 recurso t\u00e9cnico. O slow motion, o replay, o tira-teima, a computa\u00e7\u00e3o gr\u00e1fica, as dezoito, vinte e quatro c\u00e2meras espalhadas no campo, nos vesti\u00e1rios e corredores, a tomada a\u00e9rea do dirig\u00edvel. Tudo, pura covardia!<\/p>\n<p>E o r\u00e1dio, o radinho, coitado, tem resistido bravamente. E talvez esse seja o seu segredo. Hoje com seu impercept\u00edvel tamanho, resoluto, diminuto, consegue se esconder no bolso dos seus fi\u00e9is ouvintes, que sempre o acompanhar\u00e3o, atr\u00e1s das emo\u00e7\u00f5es que s\u00f3 ele, com seus vibrantes locutores, sabe passar!<br \/>\nFonte: S\u00e3o Paulo Minha Cidade<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sempre gostei de futebol. E \u00e9 tanta essa paix\u00e3o que acho que at\u00e9 sou meio fan\u00e1tico, a ponto de deixar alguns compromissos familiares de lado, s\u00f3 pra poder ir ao est\u00e1dio assistir \u00e0 partida do meu time. Mas, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 de futebol que gosto. Gosto tamb\u00e9m de ouvir r\u00e1dio. Isso desde criancinha. 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