{"id":5871,"date":"2008-03-28T15:26:50","date_gmt":"2008-03-28T18:26:50","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.soccerlogos.com.br\/2008\/03\/28\/o-dia-em-que-a-terra-piracicaba-parou\/"},"modified":"2008-03-28T15:26:50","modified_gmt":"2008-03-28T18:26:50","slug":"o-dia-em-que-a-terra-piracicaba-parou","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/historiadofutebol.com\/blog\/?p=5871","title":{"rendered":"O dia em que a terra (Piracicaba) parou"},"content":{"rendered":"<p>Existe uma hist\u00f3ria, a qual n\u00e3o \u00e9 desmentida por ningu\u00e9m, de que a nossa &#8220;terrinha&#8221; parou por um dia. Outros dizem que isso \u00e9 mentira. Pois era parou por v\u00e1rios dias &#8230; Este fato completa na pr\u00f3xima semana seus 40 anos. Foi quando os piracicabanos aguardavam a decis\u00e3o do Torneio do Acesso ao Futebol Profissional de 1967. A cidade acompanhou na expectativa as tr\u00eas partidas do triangular decis\u00f3rio. Parou tamb\u00e9m para comemorar a vit\u00f3ria do E. C. XV de Novembro e para receber como her\u00f3is os jogadores do alvinegro local. Toda essa festividade ocorreu em janeiro, encerrando assim as comemora\u00e7\u00f5es do bicenten\u00e1rio de funda\u00e7\u00e3o do munic\u00edpio.<\/p>\n<p>   Foi exatamente na noite de 17 de janeiro de 1968 que o XV venceu o Bragantino, em pleno Pacaembu, na capital paulista, sagrando-se Campe\u00e3o do Acesso (atual S\u00e9rie A-2), retornando, assim, \u00e0 elite do futebol paulista onde ficou de 1948 a 1965.<\/p>\n<p>   Testemunhos da \u00e9poca relatam que, no in\u00edcio de 1968, a cidade torceu para o alvinegro como se fosse a Sele\u00e7\u00e3o Brasileira de Futebol disputando uma final do mundial. At\u00e9 o carnaval, que ocorreria duas semanas depois, come\u00e7ou cedo. As festividades prosseguiram por semanas pois foi um orgulho o retorno do time \u00e0s partidas junto aos grandes, como S\u00e3o Paulo, Palmeiras, Santos, Corinthians e outros, sem levar em conta a proje\u00e7\u00e3o que a cidade conseguiu em todo o pa\u00eds. A cidade estava em efus\u00e3o constante devido \u00e0 ousadia do prefeito Luciano Guidotti que instalava obras grandiosas para tudo que era canto. Foi o ano de crescimento da cidade, condecorada como a cidade de maior desenvolvimento do pa\u00eds.<\/p>\n<p>   Especialistas acreditam que a euforia de janeiro de 1968 s\u00f3 foi sentida em 1947 quando o time subiu para a divis\u00e3o principal decretando ser equipe profissional, e, em 1976, quando foi o segundo colocado no Campeonato Paulista.<\/p>\n<p>   Segundo Rubens Braga, 78, ex-dirigente do basquete e do futebol do XV, a conquista de 1967 serviu para ratificar o esporte como profiss\u00e3o na cidade. &#8220;Os anos 60 serviram para as grandes contrata\u00e7\u00f5es do alvinegro e, com este retorno \u00e0 Divis\u00e3o Especial, houve a necessidade de contratar jogadores de grandes times&#8221;, diz. A equipe contratada pelo presidente Humberto D\u2019Abronzo, industrial propriet\u00e1rio da Caninha Tatuzinho, \u00e9 considerada como uma das melhores em toda sua hist\u00f3ria. Braga \u00e9 mais enf\u00e1tico e diz que as comemora\u00e7\u00f5es pelo t\u00edtulo n\u00e3o duraram apenas algumas semanas. &#8220;A comemora\u00e7\u00e3o foi o ano todo, pois at\u00e9 dezembro, quando se decidiria o pr\u00f3ximo campe\u00e3o, o t\u00edtulo era de Piracicaba&#8221;.<\/p>\n<p>   Era uma \u00e9poca diferente, per\u00edodo em que o futebol era transmitido apenas pelas emissoras de r\u00e1dio, gerava rodinhas nos bares, era motivo de festa at\u00e9 para a alta sociedade e celebrado at\u00e9 por aqueles que n\u00e3o possu\u00edam qualquer simpatia pela bola.<\/p>\n<p>   Com\u00e9rcio, ind\u00fastria, escolas &#8230; Tudo parou nos dias 11 e 17 de janeiro, quando o alvinegro foi a S\u00e3o Paulo jogar, respectivamente contra o Paulista F.C., de Jundia\u00ed, e o C. A. Bragantino, de Bragan\u00e7a Paulista. A cidade acompanhava as partidas pelas emissoras de r\u00e1dio, sendo que tr\u00eas delas transmitiam pela freq\u00fc\u00eancia A.M.<\/p>\n<p>   Nestas duas disputas, os jogadores viajaram em \u00f4nibus da Prefeitura Municipal cedido pelo prefeito Luciano Guidotti (que faleceria no dia 7 de julho do mesmo ano), um amante do esporte e ass\u00edduo incentivador do time. Guidotti tinha paix\u00e3o imensur\u00e1vel pelo time, utilizando seus jogadores como garotos-propaganda para propagar a imagem da cidade. Ele chegou a presidir o XV por v\u00e1rios anos.<\/p>\n<p>   Em ambas as partidas, o Executivo Municipal pediu aten\u00e7\u00e3o especial \u00e0 seguran\u00e7a no Est\u00e1dio Municipal Paulo Machado de Carvalho (o Pacaembu), sendo que foram disponibilizados cerca de 200 soldados da For\u00e7a P\u00fablica e Guardas Rodovi\u00e1rios.<\/p>\n<p>   No dia 11 de janeiro de 1967, o alvinegro partiu a tarde para S\u00e3o Paulo. Venceu o Paulista por 2 a 0 (Piau aos 19\u2019 do primeiro tempo e Amauri aos 45\u2019 do segundo), garantindo vaga para a final que ocorreria seis dias depois. No dia 14, o Bragantino vence o Paulista por 1 a 0 definindo sua vaga na final diante do XV.<\/p>\n<p>   A partir de ent\u00e3o, a euforia tomou conta de Piracicaba. A vit\u00f3ria era previamente comemorada pois o time havia feito uma excelente campanha no Paulista de 1967. Para chegar \u00e0 fase decisiva, o alvinegro esteve junto a outros 29 times divididos em duas s\u00e9ries. Na primeira fase foi campe\u00e3o do grupo B, tendo como vice o Paulista. A campanha foi positiva pois foram 30 jogos, sendo 22 vit\u00f3rias, seis empates e duas derrotas. Foram feitos 68 gols e a defesa deixou passar 15 gols dos advers\u00e1rios.<\/p>\n<p>   Contavam-se os minutos para a disputa final. Os comandados do t\u00e9cnico Renganeschi eram a esperan\u00e7a da terra. Motivaram, inclusive, os vereadores a realizar uma sess\u00e3o extraordin\u00e1ria, no dia 12, para votar a cess\u00e3o de NCR$ 150 mil ao E.C. XV de Novembro, valor que seria utilizado para premiar os jogadores caso ocorresse a vit\u00f3ria. Foi aprovado por unanimidade pelos 15 presentes do legislativo municipal que participaram da sess\u00e3o. Um dia antes, o time participa de uma missa de a\u00e7\u00e3o de gra\u00e7as celebrada pelo ent\u00e3o padre Jorge Sim\u00e3o Miguel na Matriz Imaculada Concei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>   \u00c0s 15 horas de 17 de janeiro, data da partida decisiva, o alvinegro ruma ao Pacaembu novamente em \u00f4nibus cedido pela prefeitura. A partida ocorreu \u00e0 noite permeada por pancadas de chuva que castigaram a torcida.<\/p>\n<p>   Em sua edi\u00e7\u00e3o desta data, um jornal da cidade relata que uma &#8220;caravana monstro&#8221; foi organizada para levar a torcida alvinegra para S\u00e3o Paulo. Desde o dia anterior j\u00e1 n\u00e3o era poss\u00edvel encontrar um \u00f4nibus dispon\u00edvel para ser fretado. Muitos foram de carro, trem ou t\u00e1xi. Segundo Waldemar Romano, cirurgi\u00e3o-dentista e vereador na \u00e9poca, a C\u00e2mara Municipal fretou tr\u00eas carros para levar vereadores na disputa. &#8220;O Legislativo se via na obriga\u00e7\u00e3o de acompanhar os passos do time, e como n\u00e3o tinha ve\u00edculos, contratou-se motoristas para levar alguns vereadores&#8221;, diz. Ele comenta que isso n\u00e3o pode ser considerado regalia, pois na \u00e9poca a fun\u00e7\u00e3o de vereador nem era remunerada.<\/p>\n<p>  H\u00e1 not\u00edcias de que torcidas de cidades vizinhas tamb\u00e9m incentivaram o time piracicabano, destacando-se as cidades de Santa B\u00e1rbara D\u2019Oeste, Americana, Rio Claro, Limeira e Rio das Pedras. O fato congestionou ruas e avenidas da capital, provocando a falta de vagas no estacionamento para os \u00f4nibus nas proximidades do est\u00e1dio. Interessante \u00e9 que muitos dos \u00f4nibus chegaram ao mesmo tempo, como que por acaso. A bola come\u00e7ou a rolar em campo, e a torcida ainda estava na fila no port\u00e3o do Pacaembu. Alguns sequer viram o primeiro gol alvinegro marcado aos dois minutos iniciais. Foi motivo para que, os que estavam fora, iniciassem uma correria para o interior do est\u00e1dio, pulando catracas a fim de n\u00e3o perder nenhum minuto da disputa. O fato n\u00e3o atrapalhou o juiz Armando Marques e seus assistentes Wilson Medeiros e Eraldo Gongora.<\/p>\n<p>   A partida foi acirrada definindo-se no primeiro tempo quando o alvinegro marcou os seus quatro gols feitos por Amauri (aos 2\u2019), Joaquinzinho (13\u2019), Piau (25\u2019) e Amauri (38\u2019). Luiz\u00e3o fez o primeiro para o advers\u00e1rio ainda no primeiro tempo. O Bragantino marcou mais dois no segundo tempo, provocando pavor na torcida. Resultado : XV de Piracicaba 4 Bragantino 3. Piracicaba desabou de alegria. Foi a gl\u00f3ria para o munic\u00edpio. Praticamente ningu\u00e9m dormiu naquela noite. Muito menos na noite seguinte, quando a equipe retornaria a cidade.<\/p>\n<p>   Ap\u00f3s a partida, mesmo molhada, a torcida caiu na folia em pleno Pacaembu, com m\u00fasica a noite toda. Nos vesti\u00e1rios, jogadores tomavam banho com champanhe. Piracicaba era uma alegria s\u00f3. As manifesta\u00e7\u00f5es se concentraram na Pra\u00e7a Jos\u00e9 Bonif\u00e1cio que era toda aberta, com travessias por todas as suas laterais.<\/p>\n<p>   Autoridades estudavam a recep\u00e7\u00e3o dos atletas-her\u00f3is para o dia 19 no per\u00edodo noturno. O trajeto da equipe, diretores e comiss\u00e3o t\u00e9cnica foi tra\u00e7ado. Todos circulariam em carro do Corpo de Bombeiros concentrando-se na avenida Independ\u00eancia pr\u00f3ximo \u00e0 atual sede do DER, percorrendo a avenida Armando de Salles Oliveira, a avenida Rui Barbosa, avenida Bar\u00e3o de Serra Negra, rua do Ros\u00e1rio, avenida Doutor Paulo de Moraes, rua Governador Pedro de Toledo, rua S\u00e3o Jos\u00e9, finalizando em frente \u00e0 catedral de Santo Ant\u00f4nio. No local foi montado um palanque no qual o elenco quinzista seria recebido pelas autoridades.<\/p>\n<p>   A cidade n\u00e3o funcionou normalmente no dia 19 de janeiro. Por volta das 15 horas, a pra\u00e7a Jos\u00e9 Bonif\u00e1cio come\u00e7a a receber os torcedores. A cidade vivia um clima de feriado e carnaval nesta data. Consta que a TV Tupi acompanhou a viagem do alvinegro de S\u00e3o Paulo a Piracicaba filmando manifesta\u00e7\u00f5es de cidades vizinhas que esperaram \u00e0 beira das rodovias para acenar aos campe\u00f5es. A pr\u00f3pria emissora, mais a TV Bandeirantes, cobriram as festividades levando o nome do alvinegro para todo o pa\u00eds.<\/p>\n<p>   A popula\u00e7\u00e3o comemorava com fl\u00e2mulas, faixas, serpentina, confete, roj\u00f5es &#8230; Era o carnaval &#8211; que cairia naquele ano em 5 de fevereiro &#8211; sendo antecipado. A Banda Uni\u00e3o Oper\u00e1ria abriu as festividades tocando no palanque pontualmente \u00e0s 18 horas. A comitiva chega por volta das 21 horas e inicia o trajeto programado. \u00c0s 22h10m come\u00e7a chover motivando encurtar o percurso. Decide-se que a equipe n\u00e3o daria a volta por toda a Pra\u00e7a Jos\u00e9 Bonif\u00e1cio entre a popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>   Todos os campe\u00f5es saem do \u00f4nibus e sobem o palanque. Gritaria incontrol\u00e1vel. Roj\u00f5es. Dos pr\u00e9dios vizinhos, moradores soltam \u00e1gua atrav\u00e9s de bisnagas e com serpentinas criam um clima festivo. O chafariz da pra\u00e7a \u00e9 invadido por pessoas que festejam de forma saud\u00e1vel, n\u00e3o chegando a ser reprimida pela for\u00e7a policial. \u00c9 estendida nela uma faixa com mais de 24 metros quadrados com a inscri\u00e7\u00e3o &#8220;XV&#8221;. No palanque, prefeito Luciano Guidotti sa\u00fada os jogadores alvinegros, seguido pelo presidente do time comendador Humberto D\u2019Abronzo, Lodovico Trevizan (Corregedoria) e Francisco Antonio Coelho (Presidente da C\u00e2mara Municipal). Outros pronunciaram-se at\u00e9 que os populares decidem subir no palanque criando um clima desconcertante para a equipe que \u00e9 agarrada pelos mais afoitos, deixando alguns jogadores apenas de cal\u00e7a, levando suas camisetas, meias e cal\u00e7ados como souvenirs. Relatos da \u00e9poca dizem que cerca de mil pessoas sobem desordenadamente ao palanque, ocasionando sua queda e fazendo v\u00e1rios feridos. Como a aglomera\u00e7\u00e3o era intensa, a for\u00e7a policial encontrou resist\u00eancia para prestar aux\u00edlio aos machucados. Mas, imperou o bom-senso e as festividades seguiram por toda a madrugada sem qualquer outra ocorr\u00eancia. O incidente adiou a entrega de medalhas, desenhadas por Archimedes Dutra, que seria feita pelo prefeito Luciano Guidotti.<br \/>\n  Outras manifesta\u00e7\u00f5es foram realizadas nas semanas seguintes. Foram feitas homenagens nos clubes recreativos locais com membros da diretoria e jogadores recepcionados junto ao Rei Momo oficial vivido pelo radialista Antonio Jos\u00e9. Santa B\u00e1rbara D\u2019Oeste, Saltinho e o Rotary Club, dentre outros munic\u00edpios e entidades, realizaram sess\u00f5es para recepcionar o time.<\/p>\n<p>   O XV realizou um amistoso comemorativo \u00e0 vit\u00f3ria no Torneio do Acesso contra a Sele\u00e7\u00e3o da Rom\u00eania em pleno Est\u00e1dio Bar\u00e3o da Serra Negra (inaugurado dois anos antes), no dia 23 de janeiro. A comemora\u00e7\u00e3o era t\u00e3o importante que o governador do estado, Abreu Sodr\u00e9, marcou presen\u00e7a na partida fazendo quest\u00e3o de participar da solenidade. Por ironia, levou uma goleada : 6 a 2. Na ocasi\u00e3o seriam entregues as faixas aos camp\u00f5es do acesso. Aos 25 minutos, o juiz paralisou a partida. Um p\u00e1ra-quedista de Rio Claro saltou no meio do Bar\u00e3o trazendo uma bandeira do XV. O est\u00e1dio ovacionou a iniciativa.<br \/>\n  Na primeira partida de seu retorno \u00e0 Divis\u00e3o Especial, o XV empatou com o Comercial em 2 a 2, no dia 28 de janeiro de 1968.<\/p>\n<p>   No livro &#8220;A Hist\u00f3ria Ilustrada do Futebol Brasileiro&#8221; (Edobr\u00e1s, 1968), escrito por Roberto Porto e Jo\u00e3o M\u00e1ximo, diz que os pequenos times escrevem sua hist\u00f3ria com esp\u00edrito de sacrif\u00edcio que o futebol exige de quem o pratica. Isso faz com que muitos times pequenos desapare\u00e7am e os times grandes, com bases s\u00f3lidas e constantes investimentos acabem se perpetuando. &#8220;Na comemora\u00e7\u00e3o de uma vit\u00f3ria, na alegria do povo nas ruas, no carnaval improvisado pela conquista de um ansiado t\u00edtulo, no cerco ao juiz que se equivocou, na luta pela bola, est\u00e1 o esfor\u00e7o her\u00f3ico, dram\u00e1tico e at\u00e9 tr\u00e1gico dos pequenos clubes&#8221;, fala um trecho. Outro diz que &#8220;partidas ou t\u00edtulos conquistados no interior paulista, onde o campeonato de acesso \u2013 esperan\u00e7a de equipes modestas no sentido de subirem \u00e0 divis\u00e3o principal \u2013 mobiliza uma popula\u00e7\u00e3o inteira&#8221;. Foi o que ocorreu em Piracicaba.<\/p>\n<p>A Prov\u00edncia de Piracicaba<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Existe uma hist\u00f3ria, a qual n\u00e3o \u00e9 desmentida por ningu\u00e9m, de que a nossa &#8220;terrinha&#8221; parou por um dia. Outros dizem que isso \u00e9 mentira. Pois era parou por v\u00e1rios dias &#8230; Este fato completa na pr\u00f3xima semana seus 40 anos. 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