{"id":5862,"date":"2008-03-24T20:48:30","date_gmt":"2008-03-24T23:48:30","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.soccerlogos.com.br\/2008\/03\/24\/sexta-copa-do-mundo-em-1958-e-o-planejamento-brasileiro\/"},"modified":"2008-03-24T20:48:30","modified_gmt":"2008-03-24T23:48:30","slug":"sexta-copa-do-mundo-em-1958-e-o-planejamento-brasileiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/historiadofutebol.com\/blog\/?p=5862","title":{"rendered":"Sexta Copa do Mundo em 1958 e o planejamento brasileiro"},"content":{"rendered":"<p>Apesar da morte de tr\u00eas de seus pioneiros, a Fifa seguiu a receita da Copa de 1954, na Su\u00ed\u00e7a, para  garantir o sucesso do mundial de 1958, na Su\u00e9cia.<\/p>\n<p>A Su\u00e9cia foi apontada (provisoriamente) como sede da Copa de 1958 com dez anos de anteced\u00eancia, no Congresso da Fifa de 1948, em Luxemburgo. A decis\u00e3o acabou oficializada em 1954, sem contesta\u00e7\u00f5es, em Zurique, na Su\u00ed\u00e7a.Logo em seguida, por\u00e9m, tr\u00eas dos grandes pioneiros da Fifa morreram em 7 de outubro de 1955, aos 78 anos, o belga Rodolphe Seeldrayers, que presidia a entidade desde de novembro de 1954. Em 9 de novembro de 1954, aos 72 anos o franc\u00eas Henri Delaunay e em 16 de outubro, aos 83 anos, o tamb\u00e9m franc\u00eas Jules Rimet, seu primeiro presente de 1921 a 1954. Com a morte de Seeldrayers o comando passou para o brit\u00e2nico Arthur Drewry, de 64 anos. E ele, para n\u00e3o correr riscos na organiza\u00e7\u00e3o da primeira copa sob sua gest\u00e3o, entregou-a ao su\u00ed\u00e7o Ernst Thommen, que havia feito um excelente trabalho no mundial de 1954.<\/p>\n<p>Cada vez mais gente estava convencida de que nossos jogadores eram talentosos, mas nada confi\u00e1veis na hora da decis\u00e3o. As preces pelo surgimento de um craque foram atendidas em 1957, com a entrada em cena de Pel\u00e9. Nas cinco primeiras Copas, o Brasil acumulara mais desculpas do que glorias. Em 1930, t\u00ednhamos sido representados por uma sele\u00e7\u00e3o inferior. Em 1950, est\u00e1vamos confiantes demais. Em 1934, 1938 e 1954, a culpa foi de juizes mal intencionados. Ap\u00f3s a frustra\u00e7\u00e3o do mundial na Su\u00ed\u00e7a, come\u00e7ou a ganhar corpo a teoria de que nossos jogadores eram talentosos, mas pouco confi\u00e1veis, na hora da decis\u00e3o. Era consenso que havia atletas bons e s\u00e9rios, mas que os bons n\u00e3o eram muito s\u00e9rios e os s\u00e9rios n\u00e3o eram muito bons. Para levantar a ta\u00e7a Jules Rimet, o Brasil precisava de um craque diferenciado. E as preces foram atendidas em 1956, com a entrada em cena de Pel\u00e9. Tudo aconteceu muito r\u00e1pido. No dia 7 de setembro, aos 15 anos e 10 meses, Pel\u00e9 estreava no time principal do Santos. Em abril de 1957, assinou seu primeiro contrato de profissional com o clube da Vila Belmiro. Nesse mesmo ano foi artilheiro do campeonato paulista com 18 gols de 17 partidas. Em junho, participou de um combinado Vasco-Santos na disputa de um torneio internacional do Rio de Janeiro. Jogou quatro partidas e fez seis gols. Pirilo era o t\u00e9cnico da sele\u00e7\u00e3o e o convocou para os jogos do Brasil contra a Argentina. E no dia 7 de julho, no maracan\u00e3, Pel\u00e9 estava no banco e entrou no segundo tempo para marcar o \u00fanico gol do Brasil na derrota de 2&#215;1 para os argentinos. Nunca mais deixou de ser convocado.<\/p>\n<p>No inicio de 1958, Jo\u00e3o Havelange escolheu para chefe da delega\u00e7\u00e3o brasileira o paulista Paulo Machado de Carvalho, patrono do S\u00e3o Paulo e dono da TV Record. Paulo Machado e Carlos Nascimento foram os respons\u00e1veis pelo plano da sele\u00e7\u00e3o na Su\u00e9cia. E tinha mais Paulo Amaral, Dr. Hilton Gosling professor Cavalhares, Mario Am\u00e9rico e a novidade, o dentista Mario Trigo. S\u00f3 faltava a decis\u00e3o do t\u00e9cnico. Dois t\u00e9cnicos eram candidatos: Fleitas Solich e Flavio Costa. Mas, o eleito foi Vicente \u00cdtalo Feola. Foi bi campe\u00e3o paulista em 1948 e 1949. Foi auxiliar de Flavio Costa na Copa de 1950 e atuava nos bastidores do S\u00e3o Paulo quando o t\u00e9cnico era o hungaro Bela Guttman. A indica\u00e7\u00e3o provocou irrita\u00e7\u00e3o entre os jornalistas cariocas que come\u00e7aram a ter pesadelos com uma sele\u00e7\u00e3o somente com paulistas. Mas as inten\u00e7\u00f5es de Paulo Machado de Carvalho e Carlos Nascimento eram outras: eles s\u00f3 queriam algu\u00e9m capaz de se amoldar a um plano e de trabalhar em equipe, duas coisas que provocavam urtic\u00e1ria em Flavio Costa.<\/p>\n<p>Conforme o previsto, no dia 7 de abril os 33 convocados escolhidos se apresentaram para exames m\u00e9dicos na Santa Casa de Miseric\u00f3rdia, no Rio. Garrincha e Orlando tiveram que operam as amigdalas. Mas quem teve mais trabalho foi Mario Trigo: todos os jogadores tinham problemas dent\u00e1rios. Mario Trigo e seus ajudantes da faculdade Nacional de Odontologia contabilizaram perto de 500obtura\u00e7\u00f5es e extra\u00e7\u00f5es. No dia 10 de abril, a sele\u00e7\u00e3o partiu para Po\u00e7os de Caldas, em Minas Gerais, onde ficou por 20 dias treinando. E, por sugest\u00e3o dos jogadores, Mario Trigo foi junto, por sua capacidade de descontrair qualquer ambiente com uma piada. O tempo mostrou que ele ajudava a dar estabilidade emocional aos craques, mais at\u00e9 que o professor Cavalhares. Por falar nele, sua bateria de testes apresentou resultados assustadores: alguns jogadores eram infantis, outros tinham QI baixo e a maioria nem deu bola para aquela coisa de completar figuras ou interpretar rabiscos. O plano de Paulo Machado de carvalho tinha cr\u00edticos veementes. No Jornal dos Sports, Mario Filho n\u00e3o se cansava de torpedear as invencionices. Ademar Pimenta, t\u00e9cnico da sele\u00e7\u00e3o de 1938, batia na mesma tecla em seus coment\u00e1rios na R\u00e1dio Mau\u00e1 do Rio de Janeiro. Em S\u00e3o Paulo, o comentarista da R\u00e1dio Tupi, Geraldo Bretas, prometia solenemente nunca mais comentar futebol se o Brasil voltasse campe\u00e3o, promessa que n\u00e3o foi cumprida.<\/p>\n<p>A comiss\u00e3o t\u00e9cnica que tinha tudo planejado nos mininos detalhes, se esqueceu de fornecer a Fifa os n\u00fameros das camisas dos jogadores. Diz a lenda que o uruguaio Lorenzo Vilizio, membro do comit\u00ea organizar da Copa, definiu a numera\u00e7\u00e3o por contra pr\u00f3pria , sem consultar nenhum dirigente brasileiro. O que realmente ocorreu nunca ficou bem explicado, mas a lista de Vilizio teve erros e acertos incr\u00edveis. O mais intrigante foi a concess\u00e3o do 10 para Pel\u00e9. Mais do que um numer\u00f3logo por acidente, Vilizio foi prof\u00e9tico. Confira os n\u00fameros com que os jogadores brasileiros disputaram a Copa de 1958.<br \/>\n1) Castilho.<br \/>\n2) Belini.<br \/>\n3) Gilmar.<br \/>\n4) Djalma Santos.<br \/>\n5) Dini Sani.<br \/>\n6) Didi.<br \/>\n7) Zagalo.<br \/>\n8) Moacir.<br \/>\n9) Zozimo.<br \/>\n10) Pel\u00e9.<br \/>\n11) Garrincha.<br \/>\n12) Nilton Santos.<br \/>\n13) Mauro.<br \/>\n14) De Sordi.<br \/>\n15) Orlando.<br \/>\n16) Oreco.<br \/>\n17) Joel.<br \/>\n18) Mazzola.<br \/>\n19) Zito.<br \/>\n20) Vav\u00e1.<br \/>\n21) Dida.<br \/>\n22) Pepe.<\/p>\n<p>Depois de vencer por 4&#215;0, as duas partidas internacionais contra Fiorentina e Internacionale, na It\u00e1lia, no dia 3 de junho, o Brasil seguiu para Copenhague, na Dinamarca, e de l\u00e1, para Gotemburgo, na Su\u00e9cia. \u00c0s 11 horas e 30 minutos, os jogadores pisaram em solo sueco e seguiram direto para a concentra\u00e7\u00e3o, no Turist Hotel da pequena cidade de Hindas. Cinco dias depois, o Brasil estreou na Copa.<\/p>\n<p>Jogo final \u201329 de julho de 1958.<br \/>\nHor\u00e1rio: 15 horas.<br \/>\nBrasil 5 x Su\u00e9cia 2 \u2013Solna Racunda, em Estocolmo.<br \/>\nGols de Liedholm. Vav\u00e1. Vav\u00e1 no primeiro tempo. Pel\u00e9. Zagalo. Pel\u00e9 e Simonsson no etapa complementar.<br \/>\nJuiz: Maurice Guigue, da Fran\u00e7a.<br \/>\nPublico: 49.737 torcedores.<br \/>\nBrasil: Gilmar. Djalma Santos e Belini. Zito. Orlando e Nilton Santos. Garrincha. Didi. Vav\u00e1. Pel\u00e9 e Zagalo.<br \/>\nSu\u00e9cia: Swensson. Bergmark e Axdom. Borjesson. Gustavsson e Parling. Hamrim. Gunnar Green. Simonsson. Liedholn e Skoglund.<\/p>\n<p>Comiss\u00e3o T\u00e9cnica \u2013<br \/>\nChefe da delega\u00e7\u00e3o: Paulo Machado de Carvalho.<br \/>\nT\u00e9cnico: Vicente \u00cdtalo Feola.<br \/>\nSupervisor: Carlos Nascimento.<br \/>\nM\u00e9dico: Dr. Hilton Gosling.<br \/>\nPreparador Fisico: Paulo Amaral.<br \/>\nPsic\u00f3logo: Professor Cavalhares.<br \/>\nDentista: Dr. Mario Trigo.<br \/>\nMassagista: Mario Am\u00e9rico.<\/p>\n<p>Doutor Paulo&#8230; Na \u00e9poca, esse titulo era atribu\u00eddo, por m\u00e9rito, a m\u00e9dicos e advogados. Mas, por cortesia ou temor, o povo tamb\u00e9m apelidava de \u201cDoutor\u201d os delegados da policia e os homens ricos. Paulo Machado de Carvalho se enquadrava no \u00faltimo quesito, mas ningu\u00e9m duvidava que ele assumiria qualquer um dos outros tr\u00eas pap\u00e9is, se as circunst\u00e2ncias assim o exigissem. Figura exuberante, o doutor Paulo ria muito, gostava de apertar as bochechas dos jogadores e tinham sempre um conselho na ponta da l\u00edngua. Nilton Santos afirmou que ele foi o primeiro dirigente a tratar jogador de futebol como gente.<\/p>\n<p>Julinho Botelho, ponta direita da Sele\u00e7\u00e3o na Copa de 1954, preparava-se para voltar ao Brasil ap\u00f3s quatro anos em Floren\u00e7a. L\u00e1, ajudara a Fiorentina a ganhar o primeiro scudetto de campe\u00e3o italiano de sua hist\u00f3ria, em 1956. Julinho chegou a ser convocado para a Copa de 1958, mas recusou alegando que n\u00e3o era justo, jogando njo exterior, tomar o lugar daqueles que estavam atuando no Brasil. Ele chorou quando teve que enfrentar o Brasil em amistoso na It\u00e1lia antes da Copa na Su\u00e9cia.<\/p>\n<p>A Argentina foi goleada pela Tchecoslov\u00e1quia por 6&#215;1 e o retorno da delega\u00e7\u00e3o a Buenos Ayres foi precedido por noticias de noitadas e falta de empenho nos treinos. Apesar dos desmentidos de Raul Colombo, presidente da Associa\u00e7\u00e3o de Futebol da Argentina, uma pequena multid\u00e3o foi ao aeroporto atirar moedas e pedras nos jogadores. Foi um melanc\u00f3lico fim de carreira para o grande Angel Labruna, craque desde dos anos 40, com nove campeonatos conquistados pelo River Plate e 292 gols assinalados.<\/p>\n<p>Diz a lenda que uma comiss\u00e3o de jogadores \u2013 Belini, Nilton Santos e Didi \u2013 foi ao t\u00e9cnico Feola exigir a escala\u00e7\u00e3o de Garrincha e Pel\u00e9. Mas n\u00e3o foi bem assim. Dois dias antes do jogo contra a R\u00fassia, j\u00e1 era dada como certa a estr\u00e9ia de Pel\u00e9. Mas ningu\u00e9m sabia se Garrincha ia jogar. Nos dois primeiros Joel recebera boas notas da imprensa, por seu um ponta moderno que ajudava na marca\u00e7\u00e3o. Mas Zagalo j\u00e1 fazia isso pela esquerda. Com a entrada de Zito, um marcador implac\u00e1vel, Feola teve a chance de refor\u00e7ar o ataque com um ponta aut\u00eantico. Ele tinha duas op\u00e7\u00f5es: substituir Zagalo por Pepe ou Joel por Garrincha. E ficou com a segunda hip\u00f3tese. A altera\u00e7\u00e3o, decidida num treino secreto na v\u00e9spera do jogo, foi comunicada a todo o grupo. E o doutor Paulo Machado de Carvalho, como sempre fazia, foi ouvir a opini\u00e3o dos mais experientes, Belini como capit\u00e3o, se manifestou a favor e foi apoiado por Didi e Nilton Santos. Dessas conversas informais, ap\u00f3s o anuncio oficial, surgiu mais tarde a lenda da rebeli\u00e3o.<\/p>\n<p>Terminada a decis\u00e3o, os jogadores brasileiros ficaram perfilados no centro do campo para ouvir o hino nacional, com Zagalo e Pel\u00e9 chorando copiosamente. Em seguida, o Rei Gustavo Adolfo desceu das tribunas e entregou a Ta\u00e7a Jules Rimet para o capit\u00e3o Belini, em cima de um patamar de madeira. A legi\u00e3o de jornalistas impedia que muitos fot\u00f3grafos registrassem o momento \u2013 e um deles pediu para Belini levantar o trof\u00e9u. Belini segurou a ta\u00e7a com as duas m\u00e3os e ergueu sobre a cabe\u00e7a, num gesto que, dali em diante, virou marca registrada de todos os campe\u00f5es.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Apesar da morte de tr\u00eas de seus pioneiros, a Fifa seguiu a receita da Copa de 1954, na Su\u00ed\u00e7a, para garantir o sucesso do mundial de 1958, na Su\u00e9cia. A Su\u00e9cia foi apontada (provisoriamente) como sede da Copa de 1958 com dez anos de anteced\u00eancia, no Congresso da Fifa de 1948, em Luxemburgo. 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