{"id":4871,"date":"2010-01-04T04:53:45","date_gmt":"2010-01-04T07:53:45","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.cacellain.com.br\/2010\/01\/04\/do-vasquinho-da-vila-mariana-ao-jogo-de-botao\/"},"modified":"2010-01-04T04:53:45","modified_gmt":"2010-01-04T07:53:45","slug":"do-vasquinho-da-vila-mariana-ao-jogo-de-botao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/historiadofutebol.com\/blog\/?p=4871","title":{"rendered":"Do Vasquinho da Vila Mariana ao jogo de bot\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>D\u00e9cada de 40. \u00c9ramos todos pequenos e foi na Rua Alice de Castro, uma ruazinha de cento e poucos metros que fica entre as ruas Morgado de Mateus e Joaquim T\u00e1vora, a um quarteir\u00e3o do Instituto Biol\u00f3gico de S\u00e3o Paulo, que se deu nosso primeiro contato com a bola. As traves dos gols eram demarcadas por duas pedras de cada lado do \u201ccampo\u201d. A rua de terra nos fazia voltar imundos para casa, ora empoeirados at\u00e9 a raiz dos cabelos, ora irreconhec\u00edveis sob uma crosta de barro.<\/p>\n<p>O futebol rapidamente virou paix\u00e3o. Na rua encarn\u00e1vamos as figuras de Bauer, Noronha, Le\u00f4nidas, Baltazar, Brand\u00e3ozinho, Cl\u00e1udio, Luizinho, Jair e outros craques que s\u00f3 conhec\u00edamos atrav\u00e9s das transmiss\u00f5es de r\u00e1dio e por \u201cretratos\u201d na Gazeta Esportiva.<\/p>\n<p>Quando chovia, nossa paix\u00e3o se transferia para o futebol de bot\u00e3o, cada um com seu time \u2013 havia at\u00e9 Jabaquara, Juventus e Nacional. \u201cFabric\u00e1vamos\u201d os nossos jogadores com bot\u00f5es de roupa e tampas de rel\u00f3gios de pulso. Arm\u00e1vamos os times iguaizinhos aos de verdade. Sistema dois tr\u00eas cinco, que mudou para WM,  sempre ao sabor dos t\u00e9cnicos da \u00e9poca. Tudo virava bagun\u00e7a na mesa assim que os jogos tinham andamento.<\/p>\n<p>Cont\u00e1vamos com transmiss\u00e3o ao vivo: o Nilton imitava os locutores da \u00e9poca. Por vezes, \u201cmetralhava\u201d com a rapidez e os trejeitos vocais do Pedro Luiz. De outras, imitava as entona\u00e7\u00f5es do Geraldo Jos\u00e9 de Almeida. Vibr\u00e1vamos quando ele irradiava o jarg\u00e3o \u201cmata a bola no peito, rola na coxa, fuzila para o gol\u201d, mesmo sem atinarmos como \u00e9 que uma simples tampa de rel\u00f3gio pudesse realizar tais milagres.<\/p>\n<p>No in\u00edcio dos anos 50, sa\u00edmos \u00e0 procura de um jogo completo de uniformes \u2013 camisas, cal\u00e7\u00f5es e meias \u2013 inicialmente patrocinado pelo pai do Paulinho, mas que seria religiosamente devolvido com o pagamento das mensalidades. Na loja s\u00f3 encontramos o uniforme do carioca Vasco da Gama, camisa preta com a listra diagonal branca. Nascia o Vasquinho. Que virou Vasquinho da Vila Mariana.<\/p>\n<p>Instalamos nossa sede no quarto de empregada da casa do Paulinho. T\u00ednhamos at\u00e9 diretoria, eleita \u201cdemocraticamente\u201d de acordo com o maior ou menor grau de amizade do dono da sede. Cada jogador (ou sua m\u00e3e) ficava respons\u00e1vel pela lavagem do uniforme, que devia estar impec\u00e1vel no dia do pr\u00f3ximo jogo. O que nem sempre ocorria.<\/p>\n<p>Trein\u00e1vamos e jog\u00e1vamos em um campinho completamente fora de medidas e de propor\u00e7\u00f5es, na Rua Fran\u00e7a Pinto, e que al\u00e9m de tudo era inclinado para um dos lados. Um chute mais forte para fora e um dos nossos era intimado a correr morro abaixo para buscar a bola.<\/p>\n<p>Com o tempo, o Vasquinho ganhou fama. Surgiram at\u00e9 espectadores, que ficavam ao redor do campinho. Tamb\u00e9m jog\u00e1vamos \u201cfora de casa&#8221;: disputamos partidas nos Col\u00e9gios S\u00e3o Bento, S\u00e3o Luiz, Arquidiocesano, no Ip\u00ea Clube, em um terreno baldio da Rua Humberto Primo, na Vila Guarani e em outros bairros.<\/p>\n<p>Lentamente, come\u00e7aram as perdas. Perdemos nosso campinho da Rua Fran\u00e7a Pinto, l\u00e1 come\u00e7aram a construir casas. Perdemos alguns jogadores, que mudaram de bairro ou foram convidados a jogar em outros times. Perdemos o interesse pelo futebol de bot\u00e3o, trocado por brincadeiras mais interessantes e que j\u00e1 admitiam \u2013 oh, heresia! \u2013 a participa\u00e7\u00e3o de meninas.<\/p>\n<p>Em um triste domingo, n\u00e3o conseguimos mais reunir jogadores em n\u00famero suficiente. N\u00f3s nos dispersamos. O Vasquinho da Vila Mariana, nosso dream time da \u00e9poca, acabou. Restaram apenas as lembran\u00e7as&#8230; e uma irracional paix\u00e3o pelo futebol.<\/p>\n<p>Que isso ningu\u00e9m nos tira.<br \/>\nJulio Ernesto Bahr<br \/>\nwww.pedacodavila.com.br<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>D\u00e9cada de 40. \u00c9ramos todos pequenos e foi na Rua Alice de Castro, uma ruazinha de cento e poucos metros que fica entre as ruas Morgado de Mateus e Joaquim T\u00e1vora, a um quarteir\u00e3o do Instituto Biol\u00f3gico de S\u00e3o Paulo, que se deu nosso primeiro contato com a bola. 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