{"id":4860,"date":"2009-11-11T11:06:10","date_gmt":"2009-11-11T14:06:10","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.cacellain.com.br\/2009\/11\/11\/julinho-o-palmeirense-que-fez-o-maracana-se-curvar\/"},"modified":"2009-11-11T11:06:10","modified_gmt":"2009-11-11T14:06:10","slug":"julinho-o-palmeirense-que-fez-o-maracana-se-curvar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/historiadofutebol.com\/blog\/?p=4860","title":{"rendered":"Julinho: O palmeirense que fez o Maracan\u00e3 se curvar"},"content":{"rendered":"<p>Meu Personagem da Semana<\/p>\n<p>N\u00e9lson Rodrigues<\/p>\n<p>Manchete Esportiva<\/p>\n<p>Rio de Janeiro, maio de 1959<br \/>\n[img:Julinho.jpg,thumb,vazio]<\/p>\n<p> Amigos, Julinho come\u00e7ou a ser o meu personagem da semana a partir do momento em que o vaiaram. Foi, at\u00e9, se me permitem a express\u00e3o, tr\u00e1gico. Insisto: tr\u00e1gico! Quem estava l\u00e1 viu ou, por outra, ouviu. No instante em que o alto-falante do Maracan\u00e3 anunciou Julinho em lugar de Garrincha, o est\u00e1dio entupido foi uma vaia s\u00f3. Menos eu. Eis a verdade: &#8211; eu n\u00e3o apupei, embora preferisse Garrincha. Parecia-me que o escrete sem o &#8220;seu&#8221; Man\u00e9 era um mutilado. Na pior das hip\u00f3teses, eu achava que o Feola devia ter posto os dois: &#8211; Julinho na ponta direita e Garrincha na esquerda. Mas um t\u00e9cnico tem raz\u00f5es que a raz\u00e3o desconhece. Puseram s\u00f3 Julinho e esqueceram o Garrincha. Verificou-se, ent\u00e3o, o amargo e ululante desagrado da multid\u00e3o. Naquele momento, ningu\u00e9m se lembrou, no Maracan\u00e3 e fora dele, de quem \u00e9 Julinho na hist\u00f3ria do futebol brasileiro. Sim, amigos: &#8211; o homem andou pela It\u00e1lia e quando voltou n\u00f3s o olhamos, de alto \u00e0 baixo, como se fosse um gringo qualquer ou pior do que isso, como se fosse um perna de pau. N\u00e3o h\u00e1 nada mais relapso do que a mem\u00f3ria. atrevo-me mesmo a dizer que a mem\u00f3ria \u00e9 uma vigarista, uma em\u00e9rita falsificadora de fatos e de figuras. Por exemplo: &#8211; ningu\u00e9m se lembrava de que, no mundial da Su\u00ed\u00e7a, contra os h\u00fangaros, Julinho fizera um carnaval medonho. De certa feita, driblara toda a defesa contr\u00e1ria para finalizar com uma bomba e que bomba! O arqueiro nem viu por onde a bola entrou. Esse gol Foi uma obra-prima e devia estar numa vitrine de turismo, para a admira\u00e7\u00e3o pateta dos visitantes. Pois bem: &#8211; ao ser anunciada a escala\u00e7\u00e3o de Julinho, a nossa mem\u00f3ria apresentou-nos a imagem n\u00e3o aut\u00eantica, n\u00e3o fidedigna do craque, mas de um quase penetra do escrete.<\/p>\n<p> Ao ouvir o apupo,, eu fui um pouco oracular para mim mesmo. Imaginei o seguinte vatic\u00ednio:<\/p>\n<p>&#8211; \u201cJulinho vai comer a bola!&#8221; Podia parecer uma piada e, no entanto, era uma grave profecia. Eis a verdade: &#8211; para o jogador de car\u00e1ter uma vaia \u00e9 um incentivo fabuloso, um afrodis\u00edaco infal\u00edvel. Imagino que Julinho a de ter entrado em campo crispado da cabe\u00e7a aos sapatos ou, retifico, \u00e0s chuteiras. Nunca um craque foi t\u00e3o s\u00f3. Era um \u00fanico contra duzentos mil. Mas homem de brio indom\u00e1vel, Julinho aceitou a luta: &#8211; bateu-se contra a multid\u00e3o que o cercava por todos os lados, disposta a crucific\u00e1-lo em outras vaias. Mas se n\u00f3s t\u00ednhamos e esquecido Julinho, Julinho n\u00e3o estava esquecido de si mesmo. Foi Julinho em cada um dos 45 minutos, foi sempre Julinho e s\u00f3 Julinho. Em in\u00fameras ocasi\u00f5es o que ele fez com o advers\u00e1rio foi pior que xingar a m\u00e3e. E o primeiro gol, ah, o primeiro gol! Ele o marcou contra os ingleses, sim, mas tamb\u00e9m contra os que o vaiaram. Enfiou a bola de uma maneira, por assim dizer, s\u00e1dica. Jamais houve um gol t\u00e3o amorosamente sofrido como este. A partir da abertura da contagem, todo mundo passou a reconhec\u00ea-lo, todo mundo admitiu para si mesmo:<\/p>\n<p>&#8211; &#8220;Este \u00e9 o Julinho !&#8221; E era.<\/p>\n<p> Ele n\u00e3o parou mais. Aquela multid\u00e3o se arremessara contra ele como um touro enfurecido. Pois bem: &#8211; ele agarra o touro a unha e lhe quebra os chifres. Ent\u00e3o, aconteceu o milagre. O ex-touro brabo, j\u00e1 manso, tornou-se em outro bicho. Sim, amigos: &#8211; do primeiro gol em diante, a multid\u00e3o transformou-se a &#8220;macaca de audit\u00f3rio&#8221; de Julinho. Se ele apanhava a bola, os duzentos mil espectadores arreganhavam o riso enorme e j\u00e1 gozavam, por antecipa\u00e7\u00e3o, o que o Julinho iria fazer. Vejam voc\u00eas as ironias da vida e do futebol: &#8211; de um momento para outro, o vaiado, o apupado, o quase cuspido, transformava-se num triunfador. E, de fato, Julinho foi grande. Nos p\u00e9s de Julinho a jogada se enfeitava como um \u00edndio de carnaval. De certa feita, como um, dois, tr\u00eas, quatro e quase entra com bola e tudo. Imagino que, neste momento, Lord Nelson h\u00e1 de ter perguntado, l\u00e1 do alto, para o mais pr\u00f3ximo companheiro de eternidade:<\/p>\n<p> &#8211; &#8220;Quem \u00e9 esse cara ?&#8221; O &#8220;cara&#8221; era Julinho, sempre Julinho.<br \/>\n[img:Julinho_dando_show_na_inglaterra.jpg,resized,vazio]<\/p>\n<p> Assim \u00e9 o brasileiro de brio. D\u00eaem-lhe uma boa vaia e ele sai por a\u00ed, fazendo milagres, aos borbot\u00f5es. Amigos, cada jogada de Julinho foi exatamente isso: &#8211; um milagre de futebol.<\/p>\n<p>site palestrinos<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Meu Personagem da Semana N\u00e9lson Rodrigues Manchete Esportiva Rio de Janeiro, maio de 1959 [img:Julinho.jpg,thumb,vazio] Amigos, Julinho come\u00e7ou a ser o meu personagem da semana a partir do momento em que o vaiaram. Foi, at\u00e9, se me permitem a express\u00e3o, tr\u00e1gico. Insisto: tr\u00e1gico! Quem estava l\u00e1 viu ou, por outra, ouviu. 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