{"id":4846,"date":"2009-09-28T20:54:58","date_gmt":"2009-09-28T23:54:58","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.cacellain.com.br\/2009\/09\/28\/a-volta-do-suburbano-uma-homenagem-ao-bangu-e-ao-domingos-da-guia\/"},"modified":"2009-09-28T20:54:58","modified_gmt":"2009-09-28T23:54:58","slug":"a-volta-do-suburbano-uma-homenagem-ao-bangu-e-ao-domingos-da-guia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/historiadofutebol.com\/blog\/?p=4846","title":{"rendered":"A Volta do Suburbano (Uma homenagem ao Bangu e ao Domingos da Guia)"},"content":{"rendered":"<p>[img:domingos_da_guia.jpg,thumb,vazio]<br \/>\nDomingos sintonizou o r\u00e1dio para acompanhar a grande final entre Bangu e Flamengo. Afinal, ele havia dado seus primeiros chutes jogando pelo gr\u00eamio suburbano, e seu cora\u00e7\u00e3o era Bangu de verdade.<\/p>\n<p>Isso foi no final da d\u00e9cada de 20, os treinos eram feitos ap\u00f3s a sua jornada de trabalho como tecel\u00e3o na f\u00e1brica de tecidos. Essa f\u00e1brica, ali\u00e1s, era a geradora de renda e empregos em Bangu, e o clube fora fundado em raz\u00e3o da sua exist\u00eancia. Naqueles tempos, Domingos era mais um do cl\u00e3 dos Da Guia a tentar a sorte no futebol.<\/p>\n<p>Antes dele vieram os irm\u00e3os Ladislau e Mamede, chamado de \u201cM\u00e9dio\u201d, e Luiz Ant\u00f4nio, todos no Bangu. Sabemos bem aonde Domingos chegou. Todos os adjetivos sobre ele foram esgotados, o maior beque do Brasil, \u201co divino mestre\u201d. A bola que seguia o seu comando, como se ele tivesse um im\u00e3 em seus p\u00e9s. \u201cA est\u00e1tua noturna\u201d, sereno e apol\u00edneo mesmo no meio do mais selvagem dos ataques inimigos. Luiz Ant\u00f4nio, mais velho, foi melhor do que Domingos, um jogador sensacional, nas palavras do pr\u00f3prio irm\u00e3o ca\u00e7ula. Mas os louros e a condi\u00e7\u00e3o de mito ficaram com Domingos, que, antes de virar \u00eddolo, trabalhou tamb\u00e9m como ladrilheiro e mata-mosquitos.<\/p>\n<p>Infelizmente, Domingos n\u00e3o conseguiu ser campe\u00e3o com o Bangu. Em 33, ele j\u00e1 estava no Nacional do Uruguai, j\u00e1 era craque da sele\u00e7\u00e3o brasileira.<br \/>\n[img:o_divino_mestre.jpg,thumb,vazio]<br \/>\nFoi nesse ano que o quadro suburbano amealhou a sua maior gl\u00f3ria: campe\u00e3o carioca, o primeiro da era profissional. Ladislau, cuja alcunha era \u201ctijoleiro\u201d, gra\u00e7as \u00e0 pot\u00eancia de seus chutes, fazia parte do plantel, assim como M\u00e9dio, e v\u00e1rios outros atletas negros. Dizem que os loucos abrem os caminhos que mais tarde ser\u00e3o trilhados pelos s\u00e1bios. Nesse caso, a contribui\u00e7\u00e3o em quebrar barreiras raciais foi um not\u00e1vel m\u00e9rito do Bangu.<\/p>\n<p>O t\u00e9cnico Luis Vinhaes at\u00e9 tentou implementar uma culin\u00e1ria mais sofisticada nas concentra\u00e7\u00f5es, mas a rapaziada pedia o bom e velho feij\u00e3o.<\/p>\n<p>Era um grupo oper\u00e1rio e humilde, que teve o Fluminense como contendor na final do campeonato. A zaga suburbana era um osso duro de roer. Euclides no gol, M\u00e1rio ou Camar\u00e3o e S\u00e1 Pinto. No meio tinha o Santana e o M\u00e9dio, e o ataque contava com Sobral, Ladislau, Pl\u00e1cido e o goleador Ti\u00e3o. Embora todos previssem o contr\u00e1rio, inclusive o jornalista Mario Filho, a ta\u00e7a foi mesmo parar em Bangu. Ap\u00f3s uma estrondosa goleada de 4 a 0, a hist\u00f3ria estava escrita nas cores vermelho e branco. A festa na chegada dos jogadores ao sub\u00farbio foi algo de propor\u00e7\u00f5es avassaladoras. Diz a lenda que os estoques de cerveja nos botecos terminaram, consumidos pela torcida em \u00eaxtase. Foguetes estouraram at\u00e9 a madrugada, como se fossem trov\u00f5es dos deuses do futebol, reconhecendo a fa\u00e7anha antol\u00f3gica de um Davi contra um Golias.<\/p>\n<p>Campe\u00e3o Carioca de 1966<br \/>\n[img:bangu_campeao1966.jpg,thumb,vazio]<br \/>\nFoi o t\u00edpico caso de uma ilus\u00e3o que virou verdade. O tempo revelou que aquele fora um ano \u00fanico, pois o Bangu n\u00e3o mais ergueria o caneco. At\u00e9 que em 1966 os ventos pareciam estar mudando novamente. O gr\u00eamio suburbano vinha com tudo, comandado pelo t\u00e9cnico argentino Alfredo Gonz\u00e1les. Domingos acompanhava o trabalho de Alfredo, ambos haviam jogado juntos no Boca Juniors e no Flamengo. O rosto do argentino era branco como se fosse de cera, contrastando com olhos negros e fundos. Ele herdara aquele time quando Zizinho teve que sair por quest\u00f5es particulares. Mestre Ziza, por\u00e9m, deixara algumas boas jogadas ensaiadas, como a tabela em \u201cX\u201d entre Paulo Borges e Cabralzinho.<\/p>\n<p>O Maracan\u00e3 seria o palco da final. O Flamengo era o franco favorito para ganhar o bi-campeonato. O ju\u00edz apita o in\u00edcio da partida. Espantosamente, o Bangu come\u00e7a a enfiar gols. Ocimar. Aladim. Paulo Borges. Domingos atento ao p\u00e9 do r\u00e1dio. O baile era tremendo, os nervos foram ficando \u00e0 flor da pele. De repente, um choque entre Ladeira e o rubro negro Paulo Henrique. O sururu est\u00e1 formado. Almir Pernambuquinho, valente como s\u00f3 ele, briga como um le\u00e3o, at\u00e9 ser contido pelo goleiro Ubirajara do Bangu.<br \/>\n[img:briga_de_Almir.jpg,thumb,vazio]<br \/>\nV\u00e1rios jogadores s\u00e3o expulsos, o jogo termina por ali mesmo. Os jornais sentenciam o nascimento de uma nova m\u00edstica. A m\u00edstica da camisa suburbana, desmanchando, ainda que em uma fugaz oportunidade, o poder do manto sagrado rubro-negro.<\/p>\n<p>Domingos desliga o r\u00e1dio. Na sua casa em Bangu, ele vai dormir feliz.<\/p>\n<p>Fonte: L\u00facio Humberto Saretta \u00e9 escritor e mora em Caxias do Sul\/RS<br \/>\n           Pesquisa de imagens<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[img:domingos_da_guia.jpg,thumb,vazio] Domingos sintonizou o r\u00e1dio para acompanhar a grande final entre Bangu e Flamengo. Afinal, ele havia dado seus primeiros chutes jogando pelo gr\u00eamio suburbano, e seu cora\u00e7\u00e3o era Bangu de verdade. 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