{"id":4799,"date":"2009-03-13T07:48:47","date_gmt":"2009-03-13T09:48:47","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.cacellain.com.br\/2009\/03\/13\/biografia-recupera-a-trajetoria-do-craque-quarentinha\/"},"modified":"2009-03-13T07:48:47","modified_gmt":"2009-03-13T09:48:47","slug":"biografia-recupera-a-trajetoria-do-craque-quarentinha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/historiadofutebol.com\/blog\/?p=4799","title":{"rendered":"Biografia recupera a trajet\u00f3ria do craque Quarentinha"},"content":{"rendered":"<p>Muitas vezes Garrincha contou esta hist\u00f3ria, divertindo-se com as agruras pelas quais passou Quarentinha numa partida do Botafogo com o V\u00e9lez Sarsfield, da Argentina, na d\u00e9cada de 1960. Logo nos primeiros minutos, o goleiro advers\u00e1rio riu na cara do atacante brasileiro, que chegou para o companheiro de time e disse: \u201cMan\u00e9, esse goleiro est\u00e1 me sacaneando. Me rola uma daquelas, que vou enfiar esse cara para dentro do gol com bola e tudo\u201d. Feito: o ponta foi \u00e0 linha de fundo e cruzou na medida, mas Quarentinha chutou o ch\u00e3o, e a bola foi pererecando para as m\u00e3os do argentino, que fez um gesto de negativo, com a cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>No intervalo, ele s\u00f3 faltou implorar: \u201cPelo amor de Deus, Garrincha, me deixa frente a frente com aquele goleiro\u201d. O objetivo de Quarentinha, que tinha uma bomba no p\u00e9 esquerdo, era acertar o peito. Se a bola entrasse depois, melhor.<\/p>\n<p>No segundo tempo, sempre bem municiado, tentou mais umas tr\u00eas vezes, mas o chute n\u00e3o sa\u00eda como queria. Numa delas, ao furar de forma bisonha, o argentino riu alto. A cabe\u00e7a de Quarentinha \u2013 bastante grande, por sinal, o que lhe valeu os apelidos de Cabe\u00e7\u00e3o e Cabe\u00e7udo, dados por (quem mais?) Garrincha \u2013 s\u00f3 faltou explodir de raiva.<\/p>\n<p>A um minuto do fim, houve uma falta na meia-lua. Quarentinha se apressou a p\u00f4r a bola na marca, com carinho. \u201cDesta vez arranco a cabe\u00e7a daquela cara\u201d, falou, entre dentes. Tomou enorme dist\u00e2ncia, apertou o la\u00e7o da chuteira, suspendeu as meias, deu mais uma olhada terr\u00edvel por cima da barreira, formada por sete argentinos, para saber onde estava o goleiro. O juiz apitou. Ele bateu com a ponta da chuteira no gramado e partiu em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 bola como um b\u00fafalo, ganhando velocidade. Mas, quando estava a tr\u00eas metros dela, Garrincha chutou. E fez o gol.<\/p>\n<p>Todos correram para abra\u00e7ar o autor do gol, que s\u00f3 pensava em fugir da f\u00faria de Quarentinha. \u201cDepois, no vesti\u00e1rio, com a vit\u00f3ria assegurada, consegui amansar a fera, dizendo que pelo menos ele n\u00e3o arrancara a cabe\u00e7a do goleiro\u201d, lembrava Garrincha, \u00e0s gargalhadas.<\/p>\n<p>Times dos deuses<\/p>\n<p>Isso n\u00e3o \u00e9 futebol. \u00c9 outra coisa. Envolve o Botafogo, entre 1957 e 1962, um time escalado pelos deuses cansados da mediocridade terrena. Quarentinha, ou Waldir Lebrego \u2013 que tem sua trajet\u00f3ria narrada na biografia O artilheiro que n\u00e3o sorria(LivrosdeFutebol.com, 332 p\u00e1ginas, R$ 40), de Rafael Cas\u00e9, lan\u00e7ada em dezembro de 2008\u2013 era um desses divinos. E n\u00e3o um perna-de-pau, como a hist\u00f3ria contada acima pode sugerir aos mais novos, obrigados a conviver com a Sele\u00e7\u00e3o do Dunga e o jogo sem gra\u00e7a visto hoje em nossos gramados (como pode o Campeonato Brasileiro, tido e havido como \u201co mais dif\u00edcil e disputado do mundo\u201d, estar prestes a ter o mesmo campe\u00e3o \u2013 uma equipe sem craques, ainda por cima \u2013 tr\u00eas vezes seguidas?)<\/p>\n<p>O jornalista Rafael Cas\u00e9 abre seu livro com estas palavras mais que apropriadas: \u201cEntre a batida seca na bola e o estufar das redes, poucos segundos. Tempo suficiente, apenas, para o torcedor se preparar para festejar mais um gol de Quarentinha. Afinal, quando o p\u00e9 esquerdo do maior artilheiro da hist\u00f3ria do Botafogo pegava de jeito na bola, o desfecho do lance era inevit\u00e1vel: trabalho, na certa, para o garoto do placar\u201d. Foram 313 gols (cinco a mais que contabilizado anteriormente, de acordo com as descobertas do autor) em menos de 450 partidas com a camisa alvinegra. Na Sele\u00e7\u00e3o Brasileira, a impressionante m\u00e9dia de quase um gol por jogo.<\/p>\n<p>Durante um ano e meio, Cas\u00e9 fez o trabalho de reconstitui\u00e7\u00e3o dos 62 anos da vida pessoal e profissional do jogador (que nasceu em Bel\u00e9m em 15 de setembro de 1933 e morreu no Rio de Janeiro em 11 de fevereiro de 1996). Al\u00e9m de entrevistar parentes, amigos e companheiros de gramado, pesquisou documentos nos lugares onde Quarentinha \u2013 que ganhou este apelido por ser filho de Quarenta, \u00eddolo do Paysandu \u2013 viveu e trabalhou: Par\u00e1, Bahia, Rio, Col\u00f4mbia e Santa Catarina. Entre o come\u00e7o, no Paysandu, em 1951, e o t\u00e9rmino da carreira, no N\u00e1utico de Santa Catarina, defendeu as camisas de 11 clubes, entre os quais o Deportivo Cali. Mas o principal deles, sem d\u00favida, foi o Botafogo. Foram duas passagens por General Severiano: em 1954-55 e 1957-64, sendo campe\u00e3o do Torneio Rio-S\u00e3o Paulo em 1962 e 1964 e do Campeonato Carioca em 1957 e 1962 (em 1961, fez parte do elenco, mas n\u00e3o jogou devido a problemas no joelho direito).<\/p>\n<p>Tudo est\u00e1, tintim por tintim, registrado na biografia, cujo maior m\u00e9rito, no entanto, \u00e9 uma revela\u00e7\u00e3o de car\u00e1ter mais humano que esportivo. Entre os torcedores que viram o craque atuar, n\u00e3o h\u00e1 quem n\u00e3o se lembre de uma caracter\u00edstica: a fria rea\u00e7\u00e3o ap\u00f3s os gols que marcava, por mais decisivos que fossem. A desculpa era a de que n\u00e3o fazia mais que a obriga\u00e7\u00e3o, pois ganhava para isso \u2013 ali\u00e1s, uma \u00f3tima desculpa, al\u00e9m de um ensinamento para muitos jogadores atuais. Mas, na verdade, a atitude era fruto t\u00e3o somente de&#8230; timidez.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Saldanha que o diga. Ele gostava tanto de Quarentinha que o tratava como a um filho. Em seus primeiros tempos em General Severiano, o jogador custou a se adaptar, devido ao temperamento arredio e por enfrentar o preconceito dos cartolas. Escolhido capit\u00e3o do time por Saldanha \u2013 ap\u00f3s ter sido repatriado do Bonsucesso \u2013 mais de uma vez um e outro ouviram a frase sussurrada com maldade: \u201cOnde j\u00e1 se viu um negro como capit\u00e3o do Botafogo?\u201d.<\/p>\n<p>A decis\u00e3o do Campeonato Carioca de 1957 selou para sempre a amizade entre o t\u00e9cnico e o atacante. Jo\u00e3o havia implantado no Botafogo o lema segundo o qual \u201cquem n\u00e3o \u00e9 o maior tem de ser o melhor\u201d.<\/p>\n<p>Na hora da verdade, entretanto, n\u00e3o foi bem assim. Aos trancos e barrancos, sem conseguir vencer um cl\u00e1ssico sequer durante a competi\u00e7\u00e3o, o time chegou \u00e0 final com o Fluminense, considerado favorito ao t\u00edtulo.<\/p>\n<p>Os alvinegros, como sempre, apegavam-se \u00e0 supersti\u00e7\u00e3o. Carlito Rocha, o presidente do clube na \u00faltima conquista, em 1948 \u2013 um tempo que j\u00e1 ia longe \u2013 reapareceu, munido de santos e ros\u00e1rios, para declarar que havia visto \u201co dedo de Deus apontar para o Botafogo como o her\u00f3i da temporada\u201d.<\/p>\n<p>Mas foi Saldanha quem tratou de mexer seus pauzinhos aqui na terra, dando uma for\u00e7a para o Homem. Instruiu Quarentinha para colar em Tel\u00ea, o c\u00e9rebro tricolor. E exigiu que ningu\u00e9m atrapalhasse Garrincha. Queria, no lado direito do ataque, um corredor livre, e todo mundo atento, principalmente o centroavante Paulinho Valentim, para aproveitar os cruzamentos de Man\u00e9.<\/p>\n<p>Deu mais que certo. Man\u00e9 deixou o dele. E Paulinho simplesmente comeu a bola, marcando cinco gols, o \u00faltimo dos quais fuzilando Castilho. Segundo o rep\u00f3rter Oldem\u00e1rio Touguinh\u00f3, que estava atr\u00e1s do gol, o atacante teria perguntado ao goleiro antes de bater: \u201cQuer que eu chute aonde, filho da &#8230;..?\u201d. No fim, um placar de rima: 6 a 2 no p\u00f3-de-arroz.<\/p>\n<p>Aquilo n\u00e3o era futebol. Era outra coisa.<br \/>\nFonte:Alvaro Costa e Silva, JB Online<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Muitas vezes Garrincha contou esta hist\u00f3ria, divertindo-se com as agruras pelas quais passou Quarentinha numa partida do Botafogo com o V\u00e9lez Sarsfield, da Argentina, na d\u00e9cada de 1960. 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