{"id":4776,"date":"2008-12-25T21:11:53","date_gmt":"2008-12-25T23:11:53","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.cacellain.com.br\/2008\/12\/25\/mangas-compridas-deram-sorte\/"},"modified":"2008-12-25T21:11:53","modified_gmt":"2008-12-25T23:11:53","slug":"mangas-compridas-deram-sorte","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/historiadofutebol.com\/blog\/?p=4776","title":{"rendered":"Mangas compridas deram sorte"},"content":{"rendered":"<p>Aquele s\u00e1bado, 15 de dezembro de 1962, amanheceu nublado e abafado. \u00c0s v\u00e9speras do ver\u00e3o, naquela \u00e9poca como hoje, fazia calor no Rio. O folcl\u00f3rico roupeiro Alo\u00edsio Birruma, contempor\u00e2neo de Carlito Rocha no lend\u00e1rio Campeonato Carioca de 1948, acordou cedo, colocou as supersti\u00e7\u00f5es na balan\u00e7a e decidiu: o Botafogo iria disputar a final com o Mais Querido, usando as habituais camisas de mangas compridas. Se a mandinga dera certo desde o in\u00edcio do campeonato, n\u00e3o seria no \u00faltimo ato que ele iria mudar o esquema. At\u00e9 porque o treinador, Marinho Rodrigues, n\u00e3o se metia em sua seara. E como fiel seguidor de Carlito, Alo\u00edsio sabia que n\u00e3o se deve provocar os deuses do futebol, supostamente chefiados por Jesus Cristo, devo\u00e7\u00e3o do dirigente.<\/p>\n<p>Antigo jogador alvinegro, Marinho, inclusive, havia participado de dois jogos em 1948 \u2013 da infeliz estr\u00e9ia contra o S\u00e3o Crist\u00f3v\u00e3o (quando o Botafogo sofreu sua \u00fanica derrota) e da vit\u00f3ria sobre o Am\u00e9rica, ainda no primeiro turno. De certa forma, desde o in\u00edcio, ficara implicitamente combinado: Marinho mandava no time e Alo\u00edsio, nas camisas. E n\u00e3o havia bicampe\u00e3o do mundo que desafiasse as determina\u00e7\u00f5es do roupeiro: Nilton Santos, Garrincha, Amarildo e Zagallo podiam at\u00e9 n\u00e3o gostar daquelas mangas compridas, mas ficavam quietos em seus cantos. Quem poderia reclamar de calor era Didi. Mas Didi j\u00e1 n\u00e3o estava no Botafogo. Disputara cinco partidas com o time, no turno, e, tal qual um caixeiro viajante, fora tentar a sorte no Peru depois de renegado no Real Madri.<\/p>\n<p>A rigor, Marinho Rodrigues n\u00e3o estava preocupado com o uniforme que o Botafogo iria utilizar. O ex-zagueiro direito, substituto imediato de Rubinho na campanha de 1948, sabia que Fl\u00e1vio Costa, o \u201cprofessor\u201d, iria armar o Flamengo de maneira diferente e isso sim o colocava em estado de alerta. No lugar do j\u00e1 velho e surrado 4-2-4, Fl\u00e1vio certamente escalaria tr\u00eas homens no meio de campo \u2013 Carlinhos, Nelsinho e o jovem G\u00e9rson, pela canhota. O t\u00e9cnico rubro-negro sabia que teria de bloquear o setor advers\u00e1rio, que sempre contava com tr\u00eas jogadores a partir do momento em que Zagallo desembarcara em General Severiano, em 1958, logo ap\u00f3s a Copa do Mundo da Su\u00e9cia. Marinho queria apenas que o Botafogo n\u00e3o mudasse seu esquema. Mesmo precisando da vit\u00f3ria para conquistar o bicampeonato, seu time iria fica jogar fechado, explorando os contra-ataques. E, de certa forma, n\u00e3o era dif\u00edcil enfrentar o Mais Querido, sempre euf\u00f3rico, empurrado pelos gritos de guerra de seus torcedores.<\/p>\n<p>O esquema do \u201cprofessor\u201d ficou claro. Al\u00e9m de escalar G\u00e9rson no meio de campo, ele acabara de escolher o tamb\u00e9m jovem Espanhol para jogar na ponta-direita. O t\u00e9cnico estava convencido de que Espanhol, r\u00e1pido e habilidoso, faria um carnaval pelo setor esquerdo do Botafogo. Rildo era bom marcador, mas certamente faria as habituais faltas, parte intr\u00ednseca de seu repert\u00f3rio. E se Nilton Santos, aos 37 anos, quase 38, viesse socorr\u00ea-lo na condi\u00e7\u00e3o de quarto-zagueiro, abriria uma avenida para Henrique e Dida, que teriam apenas o veterano Jadir (ex-Flamengo) pela frente no meio da \u00e1rea.<\/p>\n<p>Fl\u00e1vio sabia ainda que o alvinegro teria quatro desfalques: tr\u00eas na pr\u00e1tica e um psicol\u00f3gico. Joel Martins, ex-Bangu, contundido, hom\u00f4nimo do ponteiro rubro-negro, seria substitu\u00eddo por Paulistinha na lateral-direita. Z\u00e9 Maria, machucado, havia cedido seu lugar justamente a Jadir. E Arlindo, o garoto de ouro dos juvenis da \u00e9poca de Jairzinho e Roberto, tamb\u00e9m sentira a perna. Em seu lugar jogaria o p\u00e9-de-coelho Edson Pra\u00e7a Mau\u00e1, campe\u00e3o de 1957. O problema psicol\u00f3gico, obviamente, seria a dor da aus\u00eancia de Didi. Que clube resistiria \u00e0 aus\u00eancia de um Didi? Fl\u00e1vio Costa s\u00f3 n\u00e3o contava com Garrincha, com o desequil\u00edbrio t\u00e9cnico e t\u00e1tico que teria pela frente.<\/p>\n<p>E Garrincha, naquela tarde quente, exagerou na dose.<br \/>\n[img:garrincha_de_manga_comprida.jpg,resized,vazio]<\/p>\n<p>Naquele s\u00e1bado o eterno Manoel Francisco dos Santos, ent\u00e3o com 29 anos completados em outubro \u2013 faria, com a mais absoluta e convicta das certezas, a \u00faltima grande partida de sua encurtada vida (1933-1982). Garrincha n\u00e3o fez chover, apesar do tempo encoberto e do calor que quase sufocou os 145 mil pagantes e \u2013 \u00e9 sempre bom lembrar \u2013 abafou os 10 jogadores obrigados a vestir camisas de mangas compridas. Mas jogou como nunca, como para gravar com letras de ouro sua passagem pelo glorioso Botafogo de Futebol e Regatas. A rigor, Garrincha, \u00c9dson e Zagallo dobraram apenas os punhos. Mas Quarentinha e Amarildo, literalmente, arrega\u00e7aram as mangas para enfrentar, como sempre \u2013 ontem como hoje \u2013 o advers\u00e1rio e a empolgada e imensa torcida rubro-negra. Quem esteve no lotado Maracan\u00e3 daquele dia viu uma esp\u00e9cie de canto do cisne de um dos melhores jogadores do mundo. A partir de 1963, a artrose corroeu ainda mais as pr\u00e9-existentes degenera\u00e7\u00f5es nas extremidades \u00f3sseas de suas f\u00edbulas e f\u00eamures. Artrose avan\u00e7ada e irrevers\u00edvel diagnosticada pelo brilhante reumatologista N\u00e9lson Senise (1918-2001), contratado pelo Juventus, ap\u00f3s a Copa de 1962, para um diagn\u00f3stico definitivo sobre o verdadeiro estado f\u00edsico do jogador. O alvinegro de Turim queria Garrincha, mas desistiu ao saber da gravidade da artrose.<\/p>\n<p>At\u00e9 hoje o improvisado 4-3-3 de Fl\u00e1vio Costa \u00e9 discutido. Para uns, simplesmente n\u00e3o deu resultado porque Garrincha desequilibrou totalmente o jogo. Para G\u00e9rson, o Canhotinha de Ouro, Fl\u00e1vio Costa s\u00f3 escalou para dar o primeiro combate a Garrincha, fazendo uma esp\u00e9cie de guardi\u00e3o do lateral-esquerdo Jordan. E G\u00e9rson, que no ano seguinte iria parar em General Severiano, comprado por Cr$ 150 milh\u00f5es \u00e0 vista \u2013 o Botafogo vendera Amarildo ao Milan e enchera os cofres \u2013 sua miss\u00e3o era simplesmente imposs\u00edvel. E at\u00e9 hoje ele diz:<\/p>\n<p>\u2013 Brincadeira&#8230;Como \u00e9 que eu ia marcar aquele cara, certo?<\/p>\n<p>Com Armando Marques na arbitragem, o Botafogo, todo agasalhado, meias e cal\u00e7\u00f5es negros \u2013 Alo\u00edsio vetara as meias cinzas de 1957 \u2013 e camisas de mangas compridas entrou em campo com Manga, Paulistinha, Z\u00e9 Maria, Nilton Santos e Rildo; Ayrton, \u00c9dson e Zagallo; Garrincha, Quarentinha e Amarildo.<br \/>\n[img:time_de_manga_comprida.jpg,resized,vazio]<br \/>\n O Flamengo, com seu uniforme tradicional, pisou o gramado do Maracan\u00e3 com Fernando, Joubert, Vanderlei, D\u00e9cio Crespo e Jordan; Carlinhos, Nelsinho e G\u00e9rson; Espanhol, Henrique e Dida. O jogo foi Garrincha e Garrincha foi o jogo . Logo aos 10 minutos, Ayrton pegou o rebote de um ataque rubro-negro e lan\u00e7ou Man\u00e9 entre G\u00e9rson e Jordan. O n\u00famero sete alvinegro passou de passagem por seu marcador, entrou na \u00e1rea e chutou de p\u00e9 direito no canto direito de Fernando. Aos 35 a jogada se repetiu, sempre com Ayrton, meias arriadas, procurando Garrincha. Dessa vez, por\u00e9m, Man\u00e9 perdeu o \u00e2ngulo e quase da linha de fundo bateu forte para a \u00e1rea na esperan\u00e7a de encontrar Quarentinha ou Amarildo, que estavam no lance. Caprichosamente, o chute de Garrincha passou pelo goleiro Fernando, bateu no nariz de Vanderlei e entrou: 2 a 0 Botafogo. Agora, para chegar ao t\u00edtulo, o Flamengo precisaria de dois gols.<\/p>\n<p>O terceiro e \u00faltimo gol, que encerrou as esperan\u00e7as rubro-negras, veio logo aos dois minutos do segundo tempo e merece uma descri\u00e7\u00e3o toda especial. Amarildo, jogando com uma prote\u00e7\u00e3o na coxa, recebeu na intermedi\u00e1ria e tocou de imediato para Zagallo, nas costas de Joubert. Zagallo, quase da linha de fundo, centrou alto sobre o meio da \u00e1rea. Quarentinha, acrob\u00e1tico, acertou em cheio uma tesoura voadora da marca do p\u00eanalti e a bola explodiu no peito de Fernando. Por fim, Garrincha, que corria livre pela direita, s\u00f3 teve o trabalho de aproveitar o rebote de Fernando e empurrar a bola para o fundo das redes no gol \u00e0 esquerda das tribunas.<\/p>\n<p>O lance foi t\u00e3o r\u00e1pido, t\u00e3o inesperado, que o experiente narrador Oduvaldo Cozzi \u2013 um dos mais brilhantes do r\u00e1dio esportivo brasileiro \u2013 se confundiu todo. Cozzi pegou a tabela Amarildo-Zagallo e o chuta\u00e7o de Quarentinha (que ele chama de Quarenta na descri\u00e7\u00e3o do lance). Mas n\u00e3o apanhou a entrada fulminante de Garrincha. Quem corrige o narrador \u00e9 o ponta Ot\u00e1vio Name (1934-1978), que tempos depois seria redator do Jornal do Brasil, ao lado de nomes famosos como Jo\u00e3o M\u00e1ximo, Oldem\u00e1rio Vieira Touguinh\u00f3, Marcos de Castro, Jos\u00e9 In\u00e1cio Werneck, Ant\u00f4nio Maria Filho, Jo\u00e3o Saldanha e Sandro Moreyra e, de maneira bem mais modesta, o locutor que vos fala. Os \u00faltimos momentos da partida na voz de Oduvaldo Cozzi s\u00e3o espetaculares. Quase dois minutos de posse de bola de Garrincha, cercado por Carlinhos, Jordan e G\u00e9rson, no espa\u00e7o m\u00ednimo de um metro quadrado. S\u00f3 quem tem essa fita hist\u00f3rica pode ter id\u00e9ia das m\u00e1gicas de Man\u00e9.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos minutos, o jogo descambou ligeiramente para a viol\u00eancia. Paulistinha e Dida \u2013 j\u00e1 falecidos \u2013 trocaram pontap\u00e9s e foram expulsos por Armando Marques. Sobre a arbitragem por sinal, um detalhe: preocupado com o clima do jogo, Armando Marques jamais correu para o meio do campo nos tr\u00eas gols do Botafogo. Correu, sim, para apanhar a bola aninhada na redes, dando \u00e0 torcida alvinegra a impress\u00e3o de que o lance fora impugnado. Anos depois, ele reconheceu o equ\u00edvoco, que fez com que muitos torcedores cortassem o grito de gol. Na \u00e9poca, Armando Marques reconhecia seus erros.<\/p>\n<p>Um detalhe. Garrincha, ao final da partida, declarou que n\u00e3o sentiu calor:<\/p>\n<p>\u2013 Calor? Que calor? Estou acostumado a jogar no sol. Na sombra \u00e9 mole&#8230;<\/p>\n<p>fonte: Blog do Roberto Porto<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Aquele s\u00e1bado, 15 de dezembro de 1962, amanheceu nublado e abafado. \u00c0s v\u00e9speras do ver\u00e3o, naquela \u00e9poca como hoje, fazia calor no Rio. 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