{"id":4769,"date":"2008-12-12T20:32:49","date_gmt":"2008-12-12T22:32:49","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.cacellain.com.br\/2008\/12\/12\/cronica-de-uma-paixao-banguense\/"},"modified":"2008-12-12T20:32:49","modified_gmt":"2008-12-12T22:32:49","slug":"cronica-de-uma-paixao-banguense","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/historiadofutebol.com\/blog\/?p=4769","title":{"rendered":"CR\u00d4NICA DE UMA PAIX\u00c3O BANGUENSE"},"content":{"rendered":"<p>E l\u00e1 se v\u00e3o 65 de idade! Neles, durante eles, algumas paix\u00f5es, que sem paix\u00e3o n\u00e3o h\u00e1 como se viver. Uma delas, n\u00e3o sei se a maior mas certamente a mais duradoura: o Bangu.<\/p>\n<p>Era o ano de1951, logo ap\u00f3s a Copa do Mundo (que n\u00e3o acompanhei, a n\u00e3o ser por rumores), quando tive minha aten\u00e7\u00e3o voltada para o futebol. Filho de portuguesa, talvez tivesse me tornado torcedor cruzmaltino, n\u00e3o fossem aquelas f\u00e9rias em Conservat\u00f3ria, aquele grupo de pessoas em torno do r\u00e1dio do hotel, os coment\u00e1rios sobre uma decis\u00e3o invulgar de campeonato: de um lado, o consagrado tricolor das Laranjeiras, de Didi, Castilho, Pinheiro, Tele, Carlyle e tantos outros; de outro, David contra Golias, um time que parecia n\u00e3o contar com muita torcida entre os presentes, mas de quem se falava com respeito, um time pequeno que se tornara grande pela for\u00e7a do magistral Zizinho, o maior craque da Copa de 50. Sem saber direito por que, meu sentimento tendeu para o mais fraco \u2013 como tenderiam todos os meus sentimentos a partir da\u00ed \u2013 e nasceu a paix\u00e3o. O Bangu perdeu os dois jogos da melhor de tr\u00eas \u2013 dizem que, no primeiro jogo, pela brutal atitude de Didi ao quebrar a perna de Mendon\u00e7a -, mas incorporou-se \u00e0 minha vida de forma definitiva.<\/p>\n<p>De l\u00e1 pra c\u00e1, muita coisa aconteceu, comigo, com o pa\u00eds, com o futebol. Os mais fracos continuaram mais fracos, as covardias dos mais fortes mantiveram-se presentes, mas eu sempre via no Bangu e no sentimento que nutria por esse clube uma marca da minha pr\u00f3pria vis\u00e3o do mundo.<\/p>\n<p>Fui feliz. Pude presenciar o Bangu dos anos 60, um time de m\u00fasicos orquestrados pelo inolvid\u00e1vel Tim, o time do Parada, do Bianchini, do Mateus, do Paulo Borges, que n\u00e3o chegou a ser campe\u00e3o \u2013 novamente o Fluminense&#8230; -, mas que ditava c\u00e1tedra nos campos de futebol carioca. O Bangu do Z\u00f3zimo, estrela de \u00e9bano, a classe tornada zagueiro. Pude assistir a memor\u00e1veis jogos em que o time de Mo\u00e7a Bonita desfilava talento no Maracan\u00e3. Esse time n\u00e3o foi campe\u00e3o, mas deixou preparado o caminho para 1966. Fui feliz, eu estava l\u00e1&#8230;com Cabralzinho, Paulo Borges, Aladim, Ocimar, Jaime, M\u00e1rio Tito, Ubirajara, tantos outros&#8230;3 x 0 , o jogo que n\u00e3o acabou, porque, se acabasse, se teria transformado na maior das humilha\u00e7\u00f5es rubro-negras na hist\u00f3ria do M\u00e1rio Filho.<\/p>\n<p>Fui feliz pela presen\u00e7a do Castor, que acompanhei dividido, misto de torcedor admirador e cidad\u00e3o n\u00e3o tanto, mas inevitavelmente deslumbrado por sua ousadia no meio dos grandes, \u00fanica forma de fazer valer m\u00e9ritos que nem sempre o futebol concede a quem n\u00e3o tem poder.<\/p>\n<p>Vi grandes equipes. A de 1985, esplendor e trag\u00e9dia bang\u00fcense, com o divino Marinho e o injustamente estigmatizado Ado. Um time apote\u00f3tico, um Maracan\u00e3 de simpatizantes. Estive l\u00e1. Ri, gritei, chorei, chorei demais&#8230; Mas a isso levam as verdadeiras paix\u00f5es. Estive l\u00e1 tamb\u00e9m no t\u00edtulo conferido ao Fluminense (sempre o Fluminense&#8230;) pelo parcial\u00edssimo Wright, o \u00fanico que n\u00e3o viu o abra\u00e7o no Cl\u00e1udio Ad\u00e3o, talvez em troca de outros abra\u00e7os tricolores que viriam&#8230;<\/p>\n<p>Vi o ocaso do time. Acompanhei de longe suas derrotas sem gl\u00f3ria, sua hist\u00f3ria desprezada por quantos n\u00e3o o souberam conduzir. E sofri, porque a tanto levam as paix\u00f5es verdadeiras.<\/p>\n<p>Um companheiro di\u00e1rio: o site Bangu.net, trazendo de volta tantos momentos vividos, mantendo acesas t\u00eanues luzes de esperan\u00e7a, fazendo e refazendo a hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Voltei a Bangu no dia do jogo com o Olaria. Era v\u00e9spera de uma cirurgia s\u00e9ria por que teria que passar. Senti que teria que estar l\u00e1. N\u00e3o poderia estar na final. Levar meu filho comigo foi emo\u00e7\u00e3o indescrit\u00edvel. Rever o estadinho, conviver com pessoas irmanadas pelo mesmo amor naqueles 90 minutos, coisa sem pre\u00e7o. Fui feliz, muito.<\/p>\n<p>Feita a cirurgia, afastados os fantasmas, ainda pude ouvir pelo r\u00e1dio os dois a zero da volta \u00e0 primeira divis\u00e3o.<\/p>\n<p>E agora aqui estou. L\u00e1 se v\u00e3o 57 anos de paix\u00e3o, mas, aqui, o mesmo entusiasmo, a mesma sensa\u00e7\u00e3o de garoto, de rapaz, homem maduro que me foi acompanhando nos campos do futebol alvi-rubro.<\/p>\n<p>Quem sabe que alegrias ainda me reservar\u00e1 o Bangu? N\u00e3o importam as poucas perspectiva, as dif\u00edceis probabilidades. Estou feliz pela simples exist\u00eancia delas. Estou feliz porque o Bangu est\u00e1 de volta.<\/p>\n<p>Texto: Rodolpho Motta Lima<br \/>\nwww.bangu.net\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>E l\u00e1 se v\u00e3o 65 de idade! 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