{"id":4766,"date":"2008-12-10T20:28:26","date_gmt":"2008-12-10T22:28:26","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.cacellain.com.br\/2008\/12\/10\/maracana-1976-os-paulistas-estao-chegando\/"},"modified":"2008-12-10T20:28:26","modified_gmt":"2008-12-10T22:28:26","slug":"maracana-1976-os-paulistas-estao-chegando","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/historiadofutebol.com\/blog\/?p=4766","title":{"rendered":"Maracan\u00e3 1976 &#8211; Os paulistas est\u00e3o chegando"},"content":{"rendered":"<p>Em dezembro , completam-se 32 anos de um dos mais marcantes momentos da hist\u00f3ria do futebol brasileiro, a invas\u00e3o corinthiana no est\u00e1dio do Maracan\u00e3, em 1976, na partida semifinal entre Corinthians e Fluminense pelo Campeonato Brasileiro.<\/p>\n<p>A equipe paulista amargava um jejum de 22 anos sem t\u00edtulos e os paulistas resolveram apoiar a equipe em massa. Mais de 146 mil pagantes para acompanhar a partida que marcou \u00e9poca por um simples detalhe: mais de 70 mil deles eram corinthianos. O placar foi 1-1 e o Corinthians se classificou para a final nos p\u00eanaltis. Os gols, no tempo normal, foram de Carlos Alberto Pintinho, para o Fluminense e de Ru\u00e7o, para o alvinegro. Nos p\u00eanaltis, Tobias defendeu as cobran\u00e7as de Rodrigues Neto e Carlos Alberto Torres.<\/p>\n<p>Sobre a memor\u00e1vel partida, Nelson Rodrigues, torcedor fan\u00e1tico do Tricolor das Laranjeiras, afirmou: &#8220;Ningu\u00e9m sabia, ningu\u00e9m desconfiava. O jogo come\u00e7ou na v\u00e9spera, quando a Fiel explodiu na cidade. Durante toda a madrugada, os fan\u00e1ticos do Tim\u00e3o faziam uma festa no Leme, em Copacabana, Leblon, Ipanema. E as bandeiras do Corinthians ventavam em procela. Ali, chegavam os corintianos, aos borbot\u00f5es. \u00d4nibus, avia\u00e7\u00e3o, carros particulares, t\u00e1xis, a p\u00e9, a bicicleta. A coisa era terr\u00edvel. Nunca uma torcida invadiu outro estado com tamanha euforia. Um turista que por aqui passasse, havia de anotar no seu caderninho: &#8211; O Rio \u00e9 uma cidade ocupada. Os corintianos passavam a toda hora e em toda parte&#8221;.<\/p>\n<p>[img:invas__o_completa_32_anos.jpg,resized,vazio]<\/p>\n<p> Tratou-se de um imenso deslocamento de torcedores entre S\u00e3o Paulo e Rio de Janeiro. Setenta mil corinthianos assistiram, no est\u00e1dio do Maracan\u00e3, a partida entre o Fluminense Futebol Clube e o Sport Club Corinthians Paulista, v\u00e1lida pelas semifinais do Campeonato Brasileiro de 1976 e \u00e0 que atendeu um p\u00fablico de 146 mil pessoas. Nem na hist\u00f3ria do futebol brasileiro nem na do mundial, n\u00e3o se conhece outro evento esportivo com tamanho deslocamento humano.<\/p>\n<p>O fasc\u00ednio demonstrado pela imprensa paulista associava-se \u00e0 perplexidade dos cariocas. O que seria a invas\u00e3o? O que era a torcida do Corinthians? E paulista sabe fazer festa? Eram as preocupa\u00e7\u00f5es dos ve\u00edculos de comunica\u00e7\u00e3o cariocas em compreender o que estava acontecendo.<\/p>\n<p> Apesar da Ponte A\u00e9rea, paulistanos e cariocas tinham, aparentemente, universos distantes. Ainda havia a forte id\u00e9ia da descontra\u00e7\u00e3o carioca por causa das praias e da cidade como um todo e S\u00e3o Paulo como um espa\u00e7o essencialmente relacionado ao trabalho. Paulista trabalha, carioca desfruta dos prazeres da vida.<\/p>\n<p>Quando as not\u00edcias sobre as movimenta\u00e7\u00f5es da torcida do Corinthians come\u00e7am a chegar ao Rio, as primeiras impress\u00f5es foram delineadas. Tratava-se de uma dupla descoberta em que paulistas conheciam cariocas e vice-versa. A consci\u00eancia de uma grande presen\u00e7a corinthiana no Rio apareceu rapidamente nas p\u00e1ginas dos jornais cariocas.<\/p>\n<p>No entanto, o clima de euforia assumido pela imprensa foi quebrado por um artigo publicado pelo Jornal do Brasil, no qual o jornalista Jos\u00e9 N\u00eaumanne Pinto apresenta e analisa o \u201cfen\u00f4meno Corinthians\u201d. A tese do jornalista \u00e9 a de que a torcida do Corinthians estava ressentida por causa dos 22 anos sem t\u00edtulos \u2013 fato que a tornou motivo de piada para os outros torcedores de S\u00e3o Paulo e, al\u00e9m disso, por conta de uma conjuntura favor\u00e1vel, a imprensa de S\u00e3o Paulo estava adotando o Corinthians como mais uma mercadoria e sucedendo nesse investimento. R\u00e1dio, jornal, revista e televis\u00e3o entraram na onda corinthiana.<\/p>\n<p>Se a presen\u00e7a da massa de torcedores corinthianos assustava parte dos cariocas, tamb\u00e9m as not\u00edcias que continuavam a chegar de S\u00e3o Paulo surpreendiam. Mat\u00e9rias com t\u00edtulos sugestivos, como \u201cCorinthiano s\u00f3 trabalha na ter\u00e7a-feira\u201d, eram veiculadas o tempo todo na m\u00eddia.<\/p>\n<p>Depois de uma semana de muita expectativa, veio o jogo. Parte das previs\u00f5es se cumpriram. Provavelmente, se n\u00e3o fosse pela maci\u00e7a presen\u00e7a da torcida corinthiana pelas terras cariocas, o evento n\u00e3o chamaria tanta aten\u00e7\u00e3o. Apesar de ser um jogo decisivo, a ocasi\u00e3o ficou, em grande parte, comprometida pela forte chuva. A decis\u00e3o por p\u00eanaltis trouxe mais emo\u00e7\u00e3o \u00e0 disputa, mas, de fato, n\u00e3o foi uma grande partida de futebol. Valeu, dessa maneira, mais pela presen\u00e7a dos torcedores.<\/p>\n<p>Como n\u00e3o poderia deixar de ser, os jornais de segunda-feira foram invadidos: cada parte do jornal, fosse esporte ou n\u00e3o, falava do jogo e dos corinthianos. O Rio sentiu a invas\u00e3o. Assim como j\u00e1 estava ocorrendo com os peri\u00f3dicos de S\u00e3o Paulo, o Corinthians e a sua torcida sa\u00edram das p\u00e1ginas esportivas e migraram para todas as outras se\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, a participa\u00e7\u00e3o da torcida e a concretiza\u00e7\u00e3o da \u201cInvas\u00e3o\u201d s\u00f3 trouxeram dividendos para os que estavam no poder. A presen\u00e7a oportunista de dirigentes pol\u00edticos da ditadura militar tentando tirar proveitos da euforia corinthiana n\u00e3o pode, por\u00e9m, ser apresentada de forma absoluta. Os torcedores partiram para a \u2018subvers\u00e3o da ordem\u2019 \u2013 forma como gostavam de qualificar os generais de plant\u00e3o \u2013 como, por exemplo, com o gasto de milh\u00f5es de litros de combust\u00edveis, enquanto o governo apresentava planos de racionamento.<\/p>\n<p>No entanto, era mais do que isso: era tamb\u00e9m a subvers\u00e3o do prazer. A rigor, n\u00e3o havia nada de produtivo na invas\u00e3o corinthiana. Muito pelo contr\u00e1rio, uma vez que muitos deixariam de trabalhar para acompanhar o Corinthians na capital fluminense. Um grande n\u00famero de empresas de regi\u00f5es industriais de S\u00e3o Paulo e do ABC paulista disponibilizaram transporte para os seus funcion\u00e1rios, em uma atitude de patronato que pode ser lida como mais um mecanismo de controle sobre os trabalhadores.<\/p>\n<p>Em uma tentativa de contextualizar historicamente o acontecimento, \u00e9 poss\u00edvel perguntar se n\u00e3o houve, a partir daquele momento de sociabilidade entre os torcedores a partir do futebol, uma maior possibilidade de organiza\u00e7\u00e3o para as lutas sindicais e trabalhistas. Ou seja, os mesmos trabalhadores que estiveram lado a lado para torcer e lutar por um sucesso corinthiano n\u00e3o poderiam estender esses la\u00e7os para a luta pela democracia?<\/p>\n<p>Pode-se notar que h\u00e1 tamb\u00e9m um ato de forte simbolismo presente nas manifesta\u00e7\u00f5es de rua como o espa\u00e7o p\u00fablico urbano voltando a ser ocupado. Ainda n\u00e3o era uma ocupa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica \u2013 que pode ser compreendida como a luta pelo fim da ditadura militar \u2013, mas mesmo que para torcer pelo Corinthians, saindo com seus carros buzinando pelas ruas da cidade, as ruas voltavam a ser ocupadas. N\u00e3o eram mais as manifesta\u00e7\u00f5es populares anteriores ao AI-5: era o povo que voltava a tomar de volta o ambiente que sempre fora seu.<\/p>\n<p>\u00c9 comum na hist\u00f3ria do Corinthians a convoca\u00e7\u00e3o de especialistas no campo das humanidades para tentar desvendar pela ci\u00eancia o que significa essa massa de apaixonados-torcedores. Por isso, vale destacar a conclus\u00e3o apontada pelo soci\u00f3logo S\u00e9rgio Miceli, j\u00e1 que ainda era mais f\u00e1cil tratar o futebol como um eficiente mecanismo de aliena\u00e7\u00e3o popular. Na mem\u00f3ria da intelectualidade ainda estava muito presente o uso pol\u00edtico que a ditadura militar tinha feito \u2013 e continuava a fazer \u2013 do esporte mais popular do pa\u00eds.<\/p>\n<p>\u201cA esta altura, o Corinthians \u00e9 menos um time do que uma milit\u00e2ncia, menos uma torcida desinteressante do que uma organiza\u00e7\u00e3o embrion\u00e1ria de anseios populares. Seria mesmo ocioso listar as in\u00fameras express\u00f5es com que os Gavi\u00f5es se disp\u00f5em a \u201cacordar a burguesia\u201d. Sabem muito bem que est\u00e3o embaixo, do lado do alambrado, nas gerais, t\u00eam consci\u00eancia de que a segmenta\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria torcida corinthiana se inscreve num processo de luta interno e externo ao clube, envolvendo cartolas, t\u00e9cnicos, conselheiros\u201d. (S\u00e9rgio Miceli, Os que sabem muito bem que est\u00e3o embaixo, Jornal do Brasil, Caderno B, 13\/12\/1976, p. 1.)<\/p>\n<p>Pl\u00ednio Labriola Negreiros<br \/>\nWander Luiz<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em dezembro , completam-se 32 anos de um dos mais marcantes momentos da hist\u00f3ria do futebol brasileiro, a invas\u00e3o corinthiana no est\u00e1dio do Maracan\u00e3, em 1976, na partida semifinal entre Corinthians e Fluminense pelo Campeonato Brasileiro. 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