{"id":4751,"date":"2008-11-11T15:32:10","date_gmt":"2008-11-11T17:32:10","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.cacellain.com.br\/2008\/11\/11\/pele-fala-sobre-a-copa-de-1958\/"},"modified":"2008-11-11T15:32:10","modified_gmt":"2008-11-11T17:32:10","slug":"pele-fala-sobre-a-copa-de-1958","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/historiadofutebol.com\/blog\/?p=4751","title":{"rendered":"Pel\u00e9 fala sobre a Copa de 1958"},"content":{"rendered":"<p>Em comemora\u00e7\u00e3o aos 50 anos do t\u00edtulo Mundial.<br \/>\nQuando o Atleta do S\u00e9culo fala, o mundo escuta. Desta vez, a entrevista foi para o jornal O Estado de SP.  Aos 67 anos, o Rei comemora o cinq\u00fcenten\u00e1rio da primeira Copa conquistada pelo Brasil. Confira alguns dos melhores momentos da entrevista:<\/p>\n<p>Foi nesse r\u00e1dio que seu pai ouviu a Copa de 50?<br \/>\nE a de 58 tamb\u00e9m. Em 50 ele estava com os colegas do time (BAC, o Baquinho, time da segunda divis\u00e3o profissional de Bauru) escutando o jogo no quintal de casa. Quando o Brasil perdeu, ele chorou e eu disse que iria ganhar uma Copa do Mundo para ele. Em 58 ele escutou por esse mesmo r\u00e1dio nossa vit\u00f3ria na Su\u00e9cia. E chorou de novo.<\/p>\n<p>E essa TV verde-amarela?<br \/>\nFoi outro pr\u00eamio que ganhamos em 58. Voc\u00ea viu como \u00e9 pesada? N\u00e3o existia TV no Brasil naquela \u00e9poca, embora a Copa tenha sido toda filmada. Hoje fico pensando nas facilidades de comunica\u00e7\u00e3o. Naquela Copa, eu n\u00e3o tinha nem telefone para ligar para meu pai depois da vit\u00f3ria e contar que o rei (da Su\u00e9cia) tinha descido at\u00e9 o gramado para nos cumprimentar.<\/p>\n<p>Voc\u00ea certamente sabe o que os escritores Mario Filho e Nelson Rodrigues disseram sobre a Copa de 58: que ali o Brasil venceu o complexo de inferioridade que tinha desde a derrota de 1950. Concorda?<br \/>\nNa verdade, acho que foi o contr\u00e1rio. Me diziam que em 1950 j\u00e1 estava tudo certo para comemorar a vit\u00f3ria (sobre o Uruguai na final no Maracan\u00e3), que o Brasil n\u00e3o tinha respeitado o advers\u00e1rio. Em 58 respeitamos muito os advers\u00e1rios, mas sem medo. Nunca achamos que seria f\u00e1cil.<\/p>\n<p>Antes da Copa, voc\u00ea se lembra da primeira convoca\u00e7\u00e3o para a sele\u00e7\u00e3o?<br \/>\nLembro, foi em 57. Lembro que ouvimos pelo r\u00e1dio e n\u00e3o entendemos se o locutor tinha dito Tel\u00ea (que ent\u00e3o jogava pelo Fluminense) ou Pel\u00e9. Por sinal, at\u00e9 ent\u00e3o viviam me chamando de Tel\u00ea ou Pel\u00ea. At\u00e9 o dia em que eu disse: &#8220;Olha, Tel\u00ea \u00e9 o loirinho, o crioulinho \u00e9 Pel\u00e9&#8221;. Eu nem gostava do nome Pel\u00e9, porque meu pai havia me dado o nome de um g\u00eanio, Edson (de Thomas Edison, inventor americano).<\/p>\n<p>Voc\u00ea teve outros apelidos na sele\u00e7\u00e3o de 58, n\u00e3o? Gasolina, Elisa, Amadeu Bicudo&#8230;<br \/>\nGasolina foi ainda nos tempos do Santos, porque eu era muito r\u00e1pido, explosivo. Elisa era por causa de uma torcedora do Corinthians que gostava de mim e, toda vez que eu chegava ao est\u00e1dio, me mandava beijos. Amadeu Bicudo \u00e9 porque eles diziam que tenho boca grande. A\u00ed eu passei a gostar de Pel\u00e9&#8230; (risos)<\/p>\n<p>E o dia da convoca\u00e7\u00e3o para a Copa, voc\u00ea lembra?<br \/>\nLembro, foi muito emocionante, mesmo que eu j\u00e1 esperasse. Eu estava machucado, tinha batido o joelho numa partida contra o Corinthians. Mas o m\u00e9dico, dr. Hilton Gosling, e o M\u00e1rio Am\u00e9rico (preparador f\u00edsico) sempre disseram que eu teria condi\u00e7\u00f5es para jogar. Foi por isso que fiquei fora dos amistosos na It\u00e1lia.<\/p>\n<p>Voc\u00ea disse que j\u00e1 esperava. Por qu\u00ea? E por que n\u00e3o tinha ido ao Sul-Americano de 57?<br \/>\nAcho que foi por causa das excurs\u00f5es do Santos. Eu esperava ir para a Copa de 58 porque tinha jogado bem na Copa Roca e tamb\u00e9m ia bem nos treinos. Eu j\u00e1 era o titular do time.<\/p>\n<p>J\u00e1 usava a camisa 10? Porque dizem que foi um membro uruguaio da Fifa que determinou os n\u00fameros dos jogadores, pois o Brasil enviou a escala\u00e7\u00e3o sem eles&#8230;<br \/>\n\u00c9 verdade. Mas eu j\u00e1 vinha usando a 10, embora \u00e0s vezes usava a 8&#8230; N\u00e3o era nada fixo. A partir da Copa \u00e9 que o n\u00famero passou a ser associado a mim. Viu aquela bola ali? (Aponta para um cubo de vidro com uma bola amarela pequena dentro, com inscri\u00e7\u00e3o em ingl\u00eas.) &#8220;Antes dele, 10 era apenas um n\u00famero&#8221;&#8230;<\/p>\n<p>Voc\u00ea lembra quanto pesava e media? Era mais franzino do que estaria nas Copas seguintes.<br \/>\nEra, sim. Acho que pesava 68 kg e media 1m70. Com topete, ficava 1m71&#8230; (risos)<\/p>\n<p>\u00c9 mesmo verdade que voc\u00ea gostava de treinar?<br \/>\nSempre gostei de me preparar fisicamente. Habilidade, dom, muita gente tem. Mas meu condicionamento f\u00edsico era privilegiado. Eu corria bastante, subia e descia aquelas escadas&#8230; E ficava sempre mais um tempo, cobrando faltas, treinando a esquerda. O pessoal ia embora sem ter nada para fazer.<\/p>\n<p>Apesar de titular, voc\u00ea n\u00e3o tinha mesmo condi\u00e7\u00f5es f\u00edsicas para o jogo de estr\u00e9ia contra a \u00c1ustria?<br \/>\nEu estava pronto, sim. N\u00e3o sei se preferiram esperar um pouco por eu ser jovem&#8230; O psic\u00f3logo, dr. Carvalhaes, havia dito que eu e Garrincha \u00e9ramos muito jovens, porque a gente vivia fazendo brincadeira, molecagem.<\/p>\n<p>Mas o t\u00e9cnico (Vicente Feola) e o dr. Paulo Machado de Carvalho (coordenador da delega\u00e7\u00e3o) tamb\u00e9m achavam isso?<br \/>\nN\u00e3o, n\u00e3o achavam. Eles e o M\u00e1rio Am\u00e9rico sempre disseram que a gente ia jogar. Depois do empate com a Inglaterra, a\u00ed eles viram a necessidade. Mesmo na vit\u00f3ria por 3 a 0 sobre a \u00c1ustria n\u00e3o t\u00ednhamos jogado bem.<\/p>\n<p>Por qu\u00ea?<br \/>\nO jogo n\u00e3o flu\u00eda. Os outros times eram fortes, corriam muito, e nossa qualidade era o toque de bola. Talvez com o Vav\u00e1 e o Altafini (Mazzola, a quem Pel\u00e9 se refere sempre como Altafini), que tinham estilos muito parecidos, n\u00e3o estivesse dando certo. E al\u00e9m de mim e do Garrincha entrou tamb\u00e9m o Zito, que n\u00e3o era t\u00e3o t\u00e9cnico como o Dino Sani, mas tinha muito f\u00f4lego e vis\u00e3o de jogo.<\/p>\n<p>Diz a lenda que Bellini, Nilton Santos e Didi foram pedir para voc\u00eas tr\u00eas jogarem, \u00e9 verdade?<br \/>\nN\u00e3o foi bem assim. Alguns jogadores eram consultados pela comiss\u00e3o t\u00e9cnica, como o Didi e principalmente o Nilton Santos. O Nilton Santos vivia dizendo para o Feola, at\u00e9 de brincadeira, &#8220;o time \u00e9 Pel\u00e9, Garrincha e os outros, sen\u00e3o n\u00e3o vai dar&#8221;.<\/p>\n<p>Dizem tamb\u00e9m que Garrincha tinha sido vetado porque deu dribles demais no amistoso contra a Inter de Mil\u00e3o.<br \/>\nO Feola realmente reclamava de quando a gente driblava muito. Eu mesmo reclamava do Garrincha porque \u00e0s vezes ele passava por dois, eu sabia que ele ia passar e ent\u00e3o eu corria para a \u00e1rea e ele n\u00e3o cruzava, dava outro drible para tr\u00e1s&#8230; Eu xingava muito! (risos)<\/p>\n<p>Mas \u00e9 verdade que o Feola dizia &#8220;Do meio para a frente, joguem \u00e0 vontade&#8221;?<br \/>\nEle se preocupava mais em acertar a defesa. E pedia sempre para a gente ser objetivo. Isso foi fundamental. Ele tamb\u00e9m sabia que n\u00e3o tinha como evitar que eu, o Garrincha, o Didi e o Vav\u00e1 f\u00f4ssemos para cima. Era nossa caracter\u00edstica. Mas o Zito marcava muito bem; o Zagallo tamb\u00e9m, pela esquerda. Os laterais sabiam quando subir e quando n\u00e3o subir.<\/p>\n<p>Ele teria gritado para o Nilton Santos no primeiro jogo &#8220;Volta, volta!&#8221; quando ele partiu com a bola e foi at\u00e9 marcar o gol. E teria dormido num dos jogos.<br \/>\nEu n\u00e3o ouvi isso. At\u00e9 porque o Nilton Santos fazia muito isso no Botafogo, com o pr\u00f3prio Zagallo, que tabelava com ele e cobria suas subidas. O Feola parece que cochilou num momento ali e ent\u00e3o pegaram no p\u00e9 dele. Mas ele via tudo.<\/p>\n<p>O t\u00e9cnico s\u00f3 foi definido em abril, a escala\u00e7\u00e3o n\u00e3o tinha n\u00fameros, foram s\u00f3 duas semanas de treino, voc\u00ea e Garrincha s\u00f3 entraram no terceiro jogo. Houve falta de planejamento? Ou o trabalho de Paulo Machado de Carvalho fez diferen\u00e7a? Jo\u00e3o Havelange era presidente da CBD (atual CBF) desde janeiro daquele ano. Havia uma obsess\u00e3o em ganhar a Copa?<br \/>\nT\u00ednhamos vontade. E houve um trabalho bastante bom de organiza\u00e7\u00e3o, sim. Tinha comiss\u00e3o t\u00e9cnica pela primeira vez e um grupo excelente de jogadores que se conheciam. Naquela \u00e9poca n\u00e3o havia material como hoje, e nos amistosos nem pod\u00edamos trocar de camisa.<\/p>\n<p>O Mazzola fez dois gols na estr\u00e9ia. Mesmo assim, acabou saindo do time para voc\u00ea entrar.<br \/>\nAcho que o Vav\u00e1 estava melhor para fazer a fun\u00e7\u00e3o de homem de \u00e1rea. Garrincha ca\u00eda pela direita e Zagallo pela esquerda. O Didi e eu v\u00ednhamos do meio, eu mais do que o Didi. Sempre parti em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 \u00e1rea, mais ou menos como o Kak\u00e1 faz hoje.<\/p>\n<p>O time tinha Didi, Nilton Santos, Zito, Garrincha e voc\u00ea, os maiores craques. Mas e o Vav\u00e1? Ele foi importante com seus 5 gols, n\u00e3o<br \/>\nClaro que foi. Era um grande jogador. N\u00e3o tinha tanta habilidade, mas n\u00e3o falam a\u00ed do Fen\u00f4meno (Ronaldo, segundo maior artilheiro da sele\u00e7\u00e3o)? Vav\u00e1 era mais completo do que ele, antes de mais nada porque cabeceava muito bem.<\/p>\n<p>E o papel do Didi?<br \/>\nEle era o maestro. Sem ele para dar lan\u00e7amentos e passes o time n\u00e3o teria ido t\u00e3o bem.<\/p>\n<p>Contra o Pa\u00eds de Gales voc\u00ea fez o \u00fanico gol do time. Uma vez disse que foi o gol mais importante da sua vida. Ainda diz?<br \/>\nFoi, no sentido de que ali tudo se fixou.<\/p>\n<p>Voc\u00ea d\u00e1 uma puxada na bola, num espa\u00e7o curto dentro da \u00e1rea. J\u00e1 tinha feito aquela jogada antes?<br \/>\nN\u00e3o, imaginei ali mesmo. Foi um meio-chap\u00e9u, um&#8230; Era a \u00fanica forma de tirar o zagueiro da jogada.<\/p>\n<p>Voc\u00ea \u00e9 o inventor de outras jogadas, como a paradinha na cobran\u00e7a do p\u00eanalti e a tabelinha com a canela do advers\u00e1rio. Tem algum lance do futebol atual que voc\u00ea gostaria de ter feito? A pedalada?<br \/>\nN\u00e3o&#8230; O que eu sempre tentei fazer, ficava ensaiando nos treinos, era a carretilha, em que voc\u00ea prende a bola e usa o calcanhar para jog\u00e1-la por cima. Mas n\u00e3o sa\u00eda&#8230; O Caneco, ponta do Santos, vivia fazendo isso. Eu nunca tive coragem de tentar num jogo.<\/p>\n<p>Em 24 de junho foi o jogo contra a Fran\u00e7a. Fontaine n\u00e3o jogava. Mas era o time a bater naquela Copa?<br \/>\nEra o que mais preocupava. Eu me lembro da gente conversando na concentra\u00e7\u00e3o sobre o jogo deles, que j\u00e1 t\u00ednhamos visto. Lembro o Bellini dizendo &#8220;O ataque deles \u00e9 muito bom&#8221;, algo do g\u00eanero. Respeit\u00e1vamos muito a Fran\u00e7a, mas tamb\u00e9m confi\u00e1vamos em n\u00f3s.<\/p>\n<p>A Fran\u00e7a saiu na frente&#8230; Depois o Brasil fez 5 x 2, com tr\u00eas gols seus.<br \/>\n\u00c9 verdade. Mas a\u00ed come\u00e7amos a jogar melhor e ganhamos at\u00e9 com facilidade. Era o jogo que ia ser o mais dif\u00edcil e terminou sendo o mais f\u00e1cil. O futebol \u00e9 assim.<\/p>\n<p>Seu terceiro gol \u00e9 o mais bonito que j\u00e1 fez? Um menino de 17 anos dar chap\u00e9u dentro da \u00e1rea em Copa do Mundo \u00e9 algo raro&#8230;<br \/>\n\u00c9 um deles, certamente. Depois na final contra a Su\u00e9cia eu praticamente fiz outro igual.<\/p>\n<p>No \u00faltimo gol contra a Su\u00e9cia, de cabe\u00e7a, a trajet\u00f3ria da bola \u00e9 proposital? Ela faz uma esp\u00e9cie de par\u00e1bola por cima do goleiro.<br \/>\nFoi proposital, sim. Raras vezes eu vejo um gol assim. Mas quando a bola vem muito alta, \u00e9 a melhor maneira de enganar o goleiro, encobrindo at\u00e9 o outro canto.<\/p>\n<p>\u00c9 verdade que o Paulo Machado de Carvalho disse que o azul era a cor do manto de Nossa Senhora Aparecida para animar os jogadores?<br \/>\nTamb\u00e9m n\u00e3o ouvi isso. A gente n\u00e3o se importou de jogar de azul. (Mostra a camisa numa estante ao lado.) E ela \u00e9 muito bonita, n\u00e3o?<\/p>\n<p>Como voc\u00ea compara a sele\u00e7\u00e3o de 58 e a de 70?<br \/>\nA de 58, se voc\u00ea analisar jogador a jogador, tinha mais talento, individualmente. Mas a de 70 jogava melhor, era mais compacta. Todo mundo voltava, menos o Tost\u00e3o e \u00e0s vezes o Jairzinho. Ent\u00e3o sa\u00edamos com velocidade, aproveitando os lan\u00e7amentos do G\u00e9rson. A de 58 era mais ofensiva.<\/p>\n<p>O curioso \u00e9 que ela teve a defesa menos vazada da Copa. Era boa defesa, n\u00e3o?<br \/>\nEra. Tinha o De Sordi pela direita, substitu\u00eddo no \u00faltimo jogo pelo Djalma Santos, e o Nilton Santos pela esquerda, com Bellini e Mauro no meio. Era muito experiente.<\/p>\n<p>O Bellini era capit\u00e3o, mas pelo que voc\u00ea conta o Zito, o Didi e o Nilton Santos eram os que mais gritavam e orientavam, n\u00e3o?<br \/>\nEram. O Zito era chato pra caramba&#8230; (risos) O Didi vinha falar sempre que a bola parava: &#8220;O Zagallo precisa voltar, o Pel\u00e9 tem de soltar mais a bola&#8221;&#8230; O Nilton Santos tamb\u00e9m falava, e o Orlando l\u00e1 do banco de reservas. Era um grupo muito s\u00e9rio e unido.<\/p>\n<p>Depois de 6 gols em 4 jogos e se consagrar como o rei do futebol, voc\u00ea como jogador ainda melhorou depois de 58 ou j\u00e1 atingiu o patamar?<br \/>\nMelhorei, sim. Eu n\u00e3o cabeceava t\u00e3o bem ainda e n\u00e3o chutava t\u00e3o forte com a esquerda. Na Copa de 70 voc\u00ea v\u00ea como fa\u00e7o mais essas duas coisas.<\/p>\n<p>Seu \u00eddolo maior era o Zizinho? Por qu\u00ea?<br \/>\nPorque ele era um jogador completo. Chutava com as duas, cabeceava, tinha velocidade. Eu sempre tentava imitar o que ele fazia.<\/p>\n<p>E voc\u00ea ainda n\u00e3o comemorava os gols com um soco no ar.<br \/>\n\u00c9 verdade, isso s\u00f3 veio em 59, num jogo contra o Juventus, quando a torcida me vaiava. Foi um desabafo, depois incorporei aquilo.<\/p>\n<p>Voc\u00ea vaiado?<br \/>\nO Santos s\u00f3 ganhava de goleada, especialmente na Vila, e quando o time jogava mal, quando eu n\u00e3o conseguia fazer gol, a torcida ficava decepcionada. Mas n\u00e3o era como hoje, que eles chamam o cara de g\u00eanio numa semana e na seguinte o vaiam.<\/p>\n<p>Por qu\u00ea?<br \/>\nPorque hoje tem poucos talentos. No meu tempo, era preciso esperar um ano, dois anos, at\u00e9 realmente algu\u00e9m poder dizer quem era craque.<\/p>\n<p>Em sua \u00e9poca e depois, sempre apontaram outros Pel\u00e9s. Quais voc\u00ea realmente admira?<br \/>\nEu gostava muito do Di St\u00e9fano.<\/p>\n<p>Melhor que o Maradona?<br \/>\nMelhor. Mais completo e r\u00e1pido, fazia muito mais gols.<\/p>\n<p>Quem mais?<br \/>\nIh, falaram do S\u00edvori, do LaBruna, do Dirceu Lopes, do Cruyff&#8230;<\/p>\n<p>O Zico foi chamado de &#8220;Pel\u00e9 branco&#8221;, e o Ronaldo e o Ronaldinho foram comparados com voc\u00ea quando brilharam no Barcelona.<br \/>\nO Zico realmente foi o mais pr\u00f3ximo de mim em estilo de jogo. Batia faltas, dava passes, fazia gols, entrava driblando na \u00e1rea. O Ronaldinho tem muita habilidade, mas decepcionou na Copa. O Robinho tamb\u00e9m sofreu com essa compara\u00e7\u00e3o. Em termos de aproveitamento, acho que o Rom\u00e1rio foi o melhor. Esse sabia fazer gols. Meu neg\u00f3cio nunca foi ficar equilibrando a bola na nuca. Eu queria era fazer gols.<\/p>\n<p>\u00c9 um peso desnecess\u00e1rio sobre eles, n\u00e3o \u00e9?<br \/>\nClaro que \u00e9. Acho que precisa ter mais paci\u00eancia. Outra coisa: hoje o jogador precisa pedir para a torcida levantar. A gente fazia a torcida levantar com nosso futebol. Isso n\u00e3o \u00e9 saudosismo. Realmente havia mais jogadores de qualidade. A gente fazia a bola correr, hoje agora quem corre s\u00e3o os burros. (risos)<\/p>\n<p>E o Maradona?<br \/>\nFoi um jogadora\u00e7o, mas veja bem: n\u00e3o chutava com a direita, n\u00e3o cabeceava&#8230; n\u00e3o era completo. E tem outra coisa. Por que tantos atletas ol\u00edmpicos perdem medalhas quando pegos em doping e ele n\u00e3o?<\/p>\n<p>Pel\u00e9, qual a melhor foto j\u00e1 feita de voc\u00ea? Aquela do cora\u00e7\u00e3o feito pelo suor na camisa? Ou aquela da aura de luz ao redor de sua cabe\u00e7a?<br \/>\nA do cora\u00e7\u00e3o. Mas a do &#8220;anjo&#8221; \u00e9 \u00f3tima tamb\u00e9m. Sabe o que era aquilo? A tuba da banda que executava o hino antes de come\u00e7ar o jogo.<\/p>\n<p>Voc\u00ea deve conhecer a frase de Drummond: &#8220;Fazer mil gols como Pel\u00e9 n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil. Dif\u00edcil \u00e9 fazer um gol como Pel\u00e9.&#8221; \u00c9 a melhor frase sobre voc\u00ea?<br \/>\n\u00c9, essa \u00e9 dif\u00edcil de superar. Mas eu tamb\u00e9m gosto da do Fernando Henrique (Cardoso), &#8220;o Pel\u00e9 \u00e9 o Brasil que deu certo&#8221;.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em comemora\u00e7\u00e3o aos 50 anos do t\u00edtulo Mundial. Quando o Atleta do S\u00e9culo fala, o mundo escuta. Desta vez, a entrevista foi para o jornal O Estado de SP. Aos 67 anos, o Rei comemora o cinq\u00fcenten\u00e1rio da primeira Copa conquistada pelo Brasil. 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