{"id":4116,"date":"2009-01-21T22:11:42","date_gmt":"2009-01-22T00:11:42","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.cacellain.com.br\/2009\/01\/21\/1982-e-a-selecao-de-tele-o-time-que-merecia-mais-do-que-o-mundo\/"},"modified":"2009-01-21T22:11:42","modified_gmt":"2009-01-22T00:11:42","slug":"1982-e-a-selecao-de-tele-o-time-que-merecia-mais-do-que-o-mundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/historiadofutebol.com\/blog\/?p=4116","title":{"rendered":"1982 e a sele\u00e7\u00e3o de Tel\u00ea: o time que merecia mais do que o mundo"},"content":{"rendered":"<p>J\u00fanior dominou a bola na intermedi\u00e1ria, pelo lado esquerdo. Percebeu a movimenta\u00e7\u00e3o de Zico e tocou-lhe rasteiro, correndo para o espa\u00e7o vazio, como fazia no Flamengo. Zico dominou e parou o tempo, o suficiente para atrair Daniel Passarela. Conhecia o ritmo exato de J\u00fanior e seu passe colheu o lateral atr\u00e1s de Galvan e Olguin, de frente para o gol. J\u00fanior chutou colocado, entre as pernas do grande Ubaldo Fillol. A Argentina campe\u00e3 mundial estava incontestavelmente batida no est\u00e1dio de Sarri\u00e1, em Barcelona.<\/p>\n<p>O jogo variado e agressivo do time de Tel\u00ea Santana era cantado pela imprensa mundial como um futebol de outra gal\u00e1xia. Desde a virada na estr\u00e9ia contra a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, com dois chutes sobrenaturais de S\u00f3crates e \u00c9der, passamos a acreditar que a sele\u00e7\u00e3o tinha tr\u00eas ou quatro solu\u00e7\u00f5es para cada problema de campo que lhe fosse proposto. A falha de Valdir Perez no chute de Bal abriu uma inesperada vantagem sovi\u00e9tica e p\u00f4s o time a bombardear um Rinat Dasaev que parecia intranspon\u00edvel. A quinze minutos do fim S\u00f3crates abriu o meio da defesa a dribles diagonais e acertou o \u00e2ngulo direito numa combina\u00e7\u00e3o de precis\u00e3o e pot\u00eancia, um a um. Mas a disciplina do advers\u00e1rio n\u00e3o caiu com o gol de empate. Caiu aos quarenta e tr\u00eas minutos. Falc\u00e3o recebeu de Paulo Isidoro na meia-direita e iludiu a marca\u00e7\u00e3o abrindo as pernas, deixando a jogada seguir at\u00e9 \u00c9der Aleixo. Vindo de tr\u00e1s, o ponta ergueu a bola com um toque e no exato instante em que ela ca\u00eda entre dois defensores, voou para peg\u00e1-la no ar. A bomba explodiu \u00e0 esquerda do est\u00e1tico Dasaev, enfim indefeso.<\/p>\n<p>Com cores de drama e final \u00e9pico, a virada deu a n\u00f3s, torcedores, a sensa\u00e7\u00e3o de invencibilidade. A entrada de Cerezo a partir do segundo jogo derrubou as \u00faltimas resist\u00eancias dos que pediam um time com pontas. Era no vazio da ponta-direita que surgiam S\u00f3crates ou Falc\u00e3o, ou ainda Leandro resguardado por Cerezo, \u00e0s vezes dois deles ao mesmo tempo para jogar com Zico. Tudo aconteceria por ali ou pelos p\u00e9s de \u00c9der e J\u00fanior, que ficavam livres do outro lado quando o advers\u00e1rio resolvia povoar de defensores o seu flanco esquerdo. Talvez tenha sido a exatid\u00e3o dessa varia\u00e7\u00e3o de jogadas, ou o talento incalcul\u00e1vel de um time que tinha Falc\u00e3o, S\u00f3crates, \u00c9der e Zico no auge de suas formas, mas o pecado cresceu e se consolidou atrav\u00e9s da excel\u00eancia do escrete: a sele\u00e7\u00e3o brasileira de 1982, assim como a sua torcida, passou a se sentir invenc\u00edvel.<\/p>\n<p>N\u00e3o havia soberba. Os pecados eram, todos e em sua plenitude, escus\u00e1veis. Surgiram na forma\u00e7\u00e3o do time, e n\u00e3o se corrige um defeito de forma\u00e7\u00e3o sem se alterar uma virtude. Quando um time se d\u00e1 por pronto \u00e9 porque tem uma ess\u00eancia indivis\u00edvel. A sele\u00e7\u00e3o de 1982 n\u00e3o se achava perfeita, mas sabia-se pronta e invenc\u00edvel. Seria campe\u00e3 do mundo ou se tornaria uma li\u00e7\u00e3o, mais funda que a de 1950, mais dolorida que a de 1978, porque incompreens\u00edvel.<\/p>\n<p>Assim foi que o gol de J\u00fanior contra os argentinos teve um significado imediato maior que a vit\u00f3ria selada. Batidos os campe\u00f5es mundiais restava um jogo protocolar contra a It\u00e1lia de tr\u00eas empates pequenos contra Pol\u00f4nia, Peru e Camar\u00f5es, e com ela bastava empatar. Sair\u00edamos do pequeno Sarri\u00e1 para o monumental Camp Nou, para uma semifinal contra a previs\u00edvel Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica ou contra a Pol\u00f4nia do cansado Lato e do inst\u00e1vel Boniek. Da\u00ed para Madrid e a grande celebra\u00e7\u00e3o do futebol bem jogado contra a Fran\u00e7a de Tresor, Tigan\u00e1 e Michel Platini.<\/p>\n<p>J\u00e1 revi a partida contra a It\u00e1lia mais de vinte vezes. A perfei\u00e7\u00e3o dos gols de S\u00f3crates e Falc\u00e3o \u00e9 quase proibitiva para um jogo t\u00e3o humano e inexato. E por mais que reveja, eu n\u00e3o entendo o que aconteceu em campo. Nos meus sonhos, a foto de Paulo Roberto Falc\u00e3o \u2013 uma das \u00faltimas do grande J.B. Scalco \u2013 vem com a legenda <em>o gol que abriu o caminho para o tetra<\/em>.<\/p>\n<p>O sonho \u00e9 sonho, o pesadelo \u00e9 real. Paolo Rossi correndo de bra\u00e7os abertos, as veias saltadas e o n\u00famero vinte branco vazado do fundo azul \u00e9 um fantasma de pesadelo. Mas se n\u00e3o consigo entender aquela partida, foi no dia 5 de julho de 1982 que entendi outras coisas. Entendi que jamais seria plenamente feliz, que nunca mais me sentiria invenc\u00edvel e que estava eternamente preso ao jogo incompreens\u00edvel que chamamos de futebol.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>J\u00fanior dominou a bola na intermedi\u00e1ria, pelo lado esquerdo. Percebeu a movimenta\u00e7\u00e3o de Zico e tocou-lhe rasteiro, correndo para o espa\u00e7o vazio, como fazia no Flamengo. 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