{"id":3877,"date":"2008-11-22T22:51:03","date_gmt":"2008-11-23T00:51:03","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.cacellain.com.br\/2008\/11\/22\/estudiantes-x-gremio-guerra-de-la-plata1983\/"},"modified":"2008-11-22T22:51:03","modified_gmt":"2008-11-23T00:51:03","slug":"estudiantes-x-gremio-guerra-de-la-plata1983","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/historiadofutebol.com\/blog\/?p=3877","title":{"rendered":"Estudiantes X Gr\u00eamio , Guerra de La Plata,1983"},"content":{"rendered":"<p>\u201cFoi a \u00fanica vez na vida que tive medo. N\u00e3o medo de jogar, que nunca me aconteceu: medo de morrer mesmo\u201d. Quem disse isso foi o ex-zagueiro uruguaio Hugo De Le\u00f3n (\u00e0 direita na foto), tr\u00eas t\u00edtulos de Libertadores e dois de Mundial nas costas, um vivido em guerras futebol\u00edsticas. O jogo que fez De Le\u00f3n temer ocorreu em La Plata, no 8 de julho de 1983, pelo triangular semifinal da Libertadores daquele ano. O Gr\u00eamio do oriental foi duelar com o Estudiantes num clima de guerra real \u2013 os argentinos, mordidos pela Guerra das Malvinas, queriam usar o futebol para se vingar do pouso de um avi\u00e3o ingl\u00eas na base a\u00e9rea de Canoas, regi\u00e3o da Grande Porto Alegre, dias antes da partida.<\/p>\n<p>Com a complac\u00eancia da portaria do hotel, telefonemas amea\u00e7adores chegavam \u00e0 concentra\u00e7\u00e3o ga\u00facha: van a murir todos ustedes. Antes de a bola rolar, no meio de campo, o lateral Camino j\u00e1 levava cart\u00e3o amarelo por agredir com um chute o gremista Caio. Durante a partida, torcedores atiraram paus e pedras no gramado, e usaram suas bandeiras como lan\u00e7as atrav\u00e9s do alambrado. Um fot\u00f3grafo invadiu o campo e deu um soco no goleiro Mazar\u00f3pi. O Estudiantes teve quatro expulsos. O Gr\u00eamio abriu o placar de 1 a 3. Mas as amea\u00e7as&#8230; Vencer era morrer, diziam os torcedores argentinos. O Gr\u00eamio acreditou e deixou o quadro da casa empatar. At\u00e9 fez um quarto gol depois, anulado erroneamente pela arbitragem, mas nem reclamou: \u201cquando o juiz anulou o gol do Osvaldo, n\u00f3s s\u00f3 faltamos vibrar\u201d, disse Mazar\u00f3pi; \u201caquilo era um pesadelo\u201d, concordou De Le\u00f3n. O Gr\u00eamio terminaria classificado e sairia daquela Libertadores como campe\u00e3o.<\/p>\n<p><em>Incr\u00edvel<br \/>\nPor Luis Fernando Ver\u00edssimo<br \/>\n(publicado em 14\/07\/1983, seis dias depois da Batalha de La Plata)<\/em><\/p>\n<p>Por uma fatalidade geogr\u00e1fica, temos com a Argentina, al\u00e9m do clima e de uma fronteira em comum, certas afinidades platinas. N\u00e3o faz muito tempo que a \u201cele erre uno, ele erre dos, R\u00e1dio El Mundo de Buenos Aires\u201d era mais ouvida aqui do que qualquer r\u00e1dio nacional e n\u00e3o havia cabar\u00e9 que n\u00e3o tivesse sua orquestra t\u00edpica para intercalar com seu \u201cjazz\u201d. Uma linha de sil\u00eancio em mem\u00f3ria dos cabar\u00e9s e de suas orquestras t\u00edpicas.<\/p>\n<p>Mas apesar de sermos um pouco argentinos, a verdade \u00e9 que nunca compreendemos, mais do que o resto do mundo, os argentinos. Pelo contr\u00e1rio, a proximidade s\u00f3 aumenta nossa perplexidade. Pois se Buenos Aires \u00e9 a cidade europ\u00e9ia mais pr\u00f3xima da nossa fronteira, como explicar que aquela capital de cultura e urbanidade tamb\u00e9m seja cen\u00e1rio de tanto primitivismo, n\u00e3o s\u00f3 no futebol? Como conciliar a id\u00e9ia de um povo politizado, brit\u00e2nico, de blazer, com aqueles surtos passionais? Quanto mais conhecemos a Argentina, mais dif\u00edcil fica a explica\u00e7\u00e3o. Desconfia-se que nem os argentinos se explicam.<\/p>\n<p>Pra mim, mais incr\u00edvel do que o Estudiantes virar o jogo e empatar com sete contra 11 foi aquela torcida que \u2013 seu time perdendo de tr\u00eas a um e com quatro jogadores a menos \u2013 em vez de ir para casa como pessoas sensatas, continuou no lugar, pulando e gritando como antes. Mais do que antes. A torcida n\u00e3o tinha d\u00favidas de que sete argentinos podiam virar o jogo e empatar contra 11. Qualquer outra torcida teria sucumbido, sen\u00e3o ao des\u00e2nimo ent\u00e3o ao senso do rid\u00edculo.<\/p>\n<p>Os argentinos vivem perigosamente \u00e0 beira do rid\u00edculo. Veja o tango. Todo o tango est\u00e1 sempre arriscado a se transformar na sua pr\u00f3pria par\u00f3dia. Est\u00e1 sempre \u00e0 beira do excesso. Raramente passa para o excesso, ou ent\u00e3o passa e a gente descobre que o excesso tamb\u00e9m tem o seu valor, que o dramalh\u00e3o tem a sua grandeza e que o \u201cbom gosto\u201d pode ser uma limita\u00e7\u00e3o. Um jogo como Estudiantes x Gr\u00eamio, transformado em literatura, seria condenado como ing\u00eanuo e inveross\u00edmil. Um pouco argentino demais. S\u00f3 que os argentinos ainda acreditam nas suas fantasias. \u00c9 a sua arrog\u00e2ncia. De vez em quando d\u00e1 Malvinas. De vez em quando d\u00e1 certo, e a\u00ed n\u00f3s \u00e9 que passamos por rid\u00edculos. O Gr\u00eamio foi sensato, jogou com extremo bom gosto e empatou. Os argentinos apostaram no imposs\u00edvel e o imposs\u00edvel aconteceu. A fantasia sobreviver\u00e1 por mais algumas gera\u00e7\u00f5es. E n\u00f3s continuaremos sem compreender.<\/p>\n<p>fonte: http:\/\/futebesteirol.blogspot.com\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cFoi a \u00fanica vez na vida que tive medo. 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