{"id":12905,"date":"2010-12-03T12:41:09","date_gmt":"2010-12-03T14:41:09","guid":{"rendered":"https:\/\/historiadofutebol.com\/blog\/?p=12905"},"modified":"2010-12-03T12:47:23","modified_gmt":"2010-12-03T14:47:23","slug":"o-torneio-do-almirante","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/historiadofutebol.com\/blog\/?p=12905","title":{"rendered":"O torneio do almirante"},"content":{"rendered":"<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O Torneio do almirante<\/p>\n<p>Na d\u00e9cada de 70, com um misto de \u201cmilagre econ\u00f4mico\u201d e repress\u00e3o, os generais do Brasil estenderam seu dom\u00ednio para todos os dom\u00ednios da vida social. Chegaram at\u00e9 no futebol! Em 1974, para eliminar a influ\u00eancia de Jo\u00e3o Havelange colocaram o presidente da ARENA-RJ na CBD. Nada menos do que o almirante Heleno Nunes. Foi uma verdadeira interven\u00e7\u00e3o no esporte, e sob a sua gest\u00e3o a entidade se encheu de pol\u00edticos e bateu o Recorde de maracutaias. O pr\u00f3prio Campeonato Brasileiro passou a ser moeda de troca pol\u00edtica. Ei vivi e militei nesta \u00e9poca, quando diz\u00edamos \u201conde a ARENA ia mal, um clube no nacional\u201d.<\/p>\n<p>Mostro aqui a progress\u00e3o da aritm\u00e9tica pol\u00edtico-militar no Campeonato Brasileiro ano a ano, e que se acentua nos anos eleitorais.\u00a0<br \/>\n1971 \u2013 20 clubes<br \/>\n1972 \u2013 26 clubes (elei\u00e7\u00f5es municipais)<br \/>\n1973 \u2013 40 clubes<br \/>\n1974 \u2013 40 clubes (elei\u00e7\u00f5es estaduais)<br \/>\n1975 \u2013 40 clubes<br \/>\n1976 &#8211; 545 clubes (elei\u00e7\u00f5es municipais)<br \/>\n1977 \u2013 62 clubes<br \/>\n1978 &#8211; 74 clubes (elei\u00e7\u00f5es estaduais)<br \/>\n1979 \u2013 94 clubes<\/p>\n<p>Durante o mandato do almirante Heleno Nunes (1974-1980) a CBD enfrentou duas copas do mundo perdendo as duas, por\u00e9m, declarou a sele\u00e7\u00e3o brasileira de 1978 \u201ccampe\u00e3 moral\u201d. Nestas ocasi\u00f5es efetivaria o capit\u00e3o Cl\u00e1udio Coutinho como preparador f\u00edsico (1974) e t\u00e9cnico (1978) da sele\u00e7\u00e3o. O almirante, como era chamado, metia seu bedelho em todo e qualquer assunto do esporte. Seria de sua lavra a amea\u00e7a de corte do atacante Reinaldo da sele\u00e7\u00e3o brasileira ap\u00f3s entrevista dada ao jornal Movimento de oposi\u00e7\u00e3o, s\u00f3 revertida gra\u00e7as a press\u00f5es, como a a\u00e7\u00e3o do presidente do Clube Atl\u00e9tico Mineiro ao qual o jogador pertencia.<\/p>\n<p>Torcedor confesso do Vasco da Grama seria um dos respons\u00e1veis pela doa\u00e7\u00e3o ao clube do centro de treinamento que leva o seu nome. Por coincid\u00eancia os cruzmaltinos quase ganham o torneio que levou seu nome em 1984. Os desmandos do almirante \u00e1 frente da CBD foram t\u00e3o grandes que se tornou o \u00faltimo presidente da entidade, n\u00e3o havendo outro jeito que criar a atual CBF.<br \/>\nBem, foi a um dirigente com todo este \u201ccurr\u00edculo esportivo\u201d \u00e9 que se escolheu dar o nome do torneio realizado entre abril e maio de 1984. Isso d\u00e1 pra ver o puxa-saquismo, quero dizer o reconhecimento, dos nossos dirigentes esportivos. Imaginem que est\u00e1vamos em plena campanha das Diretas J\u00e1, quando quer\u00edamos eleger diretamente o presidente do Brasil e foram buscar este personagem autorit\u00e1rio da era Geisel para dar o nome do torneio.\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0<br \/>\nMas vamos ver porque o torneio foi criado. No in\u00edcio dos anos 80 a rec\u00e9m-criada CBF fazia todo tipo de artimanha pol\u00edtica para contentar os grandes clubes do Rio e S\u00e3o Paulo que n\u00e3o aceitavam o cipoal que havia se transformado o Campeonato Brasileiro na era Heleno Nunes. Durante o governo Figueiredo se conseguiu reduzir mais da metade dos clubes do certame. No entanto, o costume do cachimbo tinha feito \u00e0 boca ficar torta, tendo que fazer uma s\u00e9rie de concess\u00f5es pol\u00edticas para acomodar os interesses.<\/p>\n<p>Em 1984, ano que inventaram esse torneio, o regulamento era uma confus\u00e3o s\u00f3. Vejam se consegue acompanhar! Havia uma primeira fase, com oito grupos, que classificava 24 clubes. Os quartos colocados dos grupos disputavam uma \u201crepescagem\u201d para voltar ao campeonato! Tinha tamb\u00e9m uma segunda fase, com mais oito grupos que classificava dois clubes.<\/p>\n<p>Est\u00e1 conseguindo acompanhar? Ent\u00e3o vamos l\u00e1! Depois desta frase sobraram 16 clubes sem fazer nada! E os outros 16 disputariam uma \u201cfase final\u201d (que de final n\u00e3o tinha nada). Ent\u00e3o, se disputava as \u201cquartas de final\u201d, as \u201csemifinais\u201d, e, somente a\u00ed, a final. Ufa!\u00a0<\/p>\n<p>O \u201cTorneio\u201d Heleno Nunes n\u00e3o foi nada mais que um \u201cca\u00e7a-n\u00edquel\u201d criado para livrar a cara dos clubes que foram eliminados na segunda fase. Desta vez n\u00e3o pude reclamar que o EC Vit\u00f3ria n\u00e3o foi inclu\u00eddo. Meu clube tinha sido rebaixado em 1982 e iria ficar de fora do campeonato por tr\u00eas anos, s\u00f3 voltando em 1986. No entanto, participaram do torneio muita gente boa. Tinha Atl\u00e9tico Mineiro, Botafogo, Cruzeiro, Guarani, Internacional, Palmeiras, S\u00e3o Paulo, Sport, Santa Cruz e o Bahia. O p\u00fablico, por\u00e9m percebeu que o torneio era um \u201ccala boca\u201d a esses clubes e praticamente ignorou o certame.<\/p>\n<p>Para se ter uma ideia a grande maioria dos jogos tiveram entre mil e seis mil pagantes. S\u00f3 houve, efetivamente, dois jogos com presen\u00e7a substancial, o cl\u00e1ssico Palmeiras 1 X 0 Corinthians, com 55.000 pessoas, e Inter 1 X 1 Palmeiras, com 19 mil. Na pr\u00f3pria Fonte Nova, dos torcedores que adoram o futebol, a presen\u00e7a foi insignificante. Para se ter uma ideia do desprestigio de tal torneio basta lembrar que a m\u00e9dia de p\u00fablico na Fonte Nova naquele campeonato havia sido de 22.000 pagantes.<\/p>\n<p>O primeiro jogo do Bahia, em 15 de abril, dia do anivers\u00e1rio do meu irm\u00e3o \u201cTo\u00ednho\u201d, foi assistido por dois mil e seiscentos pagantes. Pra voc\u00ea ter uma ideia agente l\u00e1 em casa nem ligou o r\u00e1dio ocupados em comer os petiscos que minha m\u00e3e havia preparado. Na oportunidade, por\u00e9m, o tricolor colheria uma expressiva vit\u00f3ria de dois a um, contra o bom time do Internacional que seria o campe\u00e3o.\u00a0<\/p>\n<p>Mas durou pouco a alegria da torcida tricolor, pois, dois dias depois, o time \u201cmeteria os p\u00e9s pelas m\u00e3os\u201d perdendo para o Sport na Fonte Nova para um p\u00fablico ainda menor. O pior foi tomar dois gols nos \u00faltimos minutos, o que viraria praxe neste torneio. Logo no dia do meu anivers\u00e1rio \u00e9 que o tricolor acharia de retomar o caminho da vit\u00f3ria, ganhando do Guarani pelo mesmo escore. Desculpem n\u00e3o poder falar nada do jogo, pois completava 36 anos naquele dia. Ah que saudade! Sei, por\u00e9m, que o p\u00fablico diminu\u00eda cada vez mais. Se o Bahia estivesse pior imaginava-se o dia em que n\u00e3o houvesse mais ningu\u00e9m nas arquibancadas. O povo mostrava que n\u00e3o queria nada com o almirante!\u00a0<\/p>\n<p>Cinco dias depois mais o grande p\u00fablico de quatro mil pagantes veria o empate sem gols entre Bahia e Botafogo. O esquadr\u00e3o de a\u00e7o depois viajaria para Belo Horizonte onde enfrentaria o Atl\u00e9tico Mineiro no Dia do Trabalhador. Eu estava organizando a manifesta\u00e7\u00e3o no Campo Grande quando soube do gol de Robson que asseguraria a vit\u00f3ria sensacional do tricolor pelo escore m\u00ednimo. O resultado impressionou os tricolores que compareceram em massa&#8230; de cinco mil torcedores para ver o clube empatar com o Palmeiras, novamente sem gols. O pr\u00f3ximo advers\u00e1rio seria o S\u00e3o Paulo e o resultado seria outro empate, com o gol paulista feito por Paulo Cesar ao apagar das luzes.\u00a0<\/p>\n<p>At\u00e9 ent\u00e3o o Bahia estava \u201cpau a pau\u201d com o Inter. E o jogo contra o Cruzeiro tinha praticamente o car\u00e1ter de decis\u00e3o. Esse eu assisti pelo r\u00e1dio! O primeiro tempo foi muito disputado e, embora o Bahia pressionasse, terminou sem gols. Logo no in\u00edcio do segundo tempo, por\u00e9m, Tost\u00e3o inauguraria o placar pra nossa satisfa\u00e7\u00e3o. No entanto Osny empataria quase imediatamente e, aos gritos de quatro mil torcedores, o tricolor chegaria a \u201cvirada\u201d com Carlinhos, apenas seis minutos depois. O time ent\u00e3o passou a administrar o jogo tentando garantir o resultado, mas tomaria um gol de Ademar no \u00faltimo minuto. Enquanto o Bahia empatava o Inter dava de quatro no Sport, e em Recife!<\/p>\n<p>O torneio agora estava nas m\u00e3os do Santa Cruz que enfrentaria os dois clubes melhores colocados em sequencia. Mas o\u00a0Inter nem daria trela pro Bahia derrotando o tricolor do Arruda e transformando o jogo seguinte na Fonte Nova em partida para \u201cmarcar tabela\u201d. Carlinhos marcaria para o Bahia e, no segundo tempo, o Santa empataria. Foi assim que o Bahia deu adeus ao torneio do almirante. As partidas que o tricolor deixaria empatar no final acabariam por lhe tirar um t\u00edtulo ganho pelos colorados.<\/p>\n<p>A classifica\u00e7\u00e3o final deu Inter em primeiro com onze pontos e Bahia em segundo com nove. O resto dos times empataria nos oito e nos sete pontos, sendo que o Sport seguraria a lanterna pela pior campanha. Nesse ano o clube foi tetracampe\u00e3o ga\u00facho, e ganhou tamb\u00e9m o Torneio de Glasgow e a Copa Kirin em T\u00f3quio. O time ga\u00facho fez uma campanha impec\u00e1vel. Foram ao todo quatro vit\u00f3rias, quatro empates e uma derrota, aqui na Fonte Nova. Fez quinze gols e tomou sete.\u00a0<\/p>\n<p>Lembro-me de alguns de seus jogadores, o goleiro Mano, o zagueiro Mauro Galv\u00e3o, o volante Dunga, o atacante Silvinho, e o inesquec\u00edvel M\u00e1rio S\u00e9rgio, campe\u00e3o como jogador e como t\u00e9cnico do EC Vit\u00f3ria. Foi um torneio nacional, que embora com um nome l\u00fagubre, poderia ter entrado na cota dos baianos.\u00a0\u00a0<\/p>\n<p>\u2022 Agrade\u00e7o as informa\u00e7\u00f5es de Monique Cardone e Euclides Couto, dos sites do Internacional, Bola na \u00e1rea, Wikip\u00e9dia, Futip\u00e9dia. globo, das revistas de Hist\u00f3ria da Biblioteca Nacional e de Hist\u00f3ria do esporte, e dos blogs cartanamanga. blogspot.com e RSSSF Brasil.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O Torneio do almirante Na d\u00e9cada de 70, com um misto de \u201cmilagre econ\u00f4mico\u201d e repress\u00e3o, os generais do Brasil estenderam seu dom\u00ednio para todos os dom\u00ednios da vida social. Chegaram at\u00e9 no futebol! 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