{"id":12043,"date":"2010-11-08T15:43:59","date_gmt":"2010-11-08T17:43:59","guid":{"rendered":"https:\/\/historiadofutebol.com\/blog\/?p=12043"},"modified":"2010-11-08T15:43:59","modified_gmt":"2010-11-08T17:43:59","slug":"a-tragica-inauguracao-do-anel-superior-da-fonte-nova","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/historiadofutebol.com\/blog\/?p=12043","title":{"rendered":"A tr\u00e1gica inaugura\u00e7\u00e3o do anel superior da Fonte Nova"},"content":{"rendered":"<p>   A TR\u00c1GICA INAUGURA\u00c7\u00c3O DO ANEL SUPERIOR DA FONTE NOVA<\/p>\n<p>No in\u00edcio dos anos 70, em plenos anos sombrios do endurecimento da ditadura militar prosperava a pornochanchada. Nesta, assist\u00edamos a ex-miss Vera Fischer, Jardel Filho, Nuno Leal Maia, Milton Morais e outros. Na \u00e9poca morrem a inesquec\u00edvel cantora Dalva de Oliveira e o poeta tropicalista Torquato Neto p\u00f5e fim a sua inquieta\u00e7\u00e3o criadora.<br \/>\nCome\u00e7ava a chegar a p\u00fablico as atrocidades cometidas pela quadrilha do policial Manoel Quadros, vers\u00e3o baiana do esquadr\u00e3o da morte e a toda hora apareciam mais corpos. <\/p>\n<p>O carnaval de Salvador era patrocinado pelas cervejarias CIBEB e Carlberg que se concentravam nos grandes trios el\u00e9tricos. J\u00e1 se podia brincar o carnaval na sede do Vit\u00f3ria que ficava ent\u00e3o em Amaralina. Nas ruas se via o bloco carnavalesco Os internacionais e ainda dava pra levar a fam\u00edlia pra Avenida Sete. Cheg\u00e1vamos pela manh\u00e3 e lev\u00e1vamos nossas cadeiras amarrando-as \u00e1s que l\u00e1 haviam. Quando cheg\u00e1vamos \u00e1 noitinha para o desfile ainda estavam l\u00e1, acreditem se quiserem, ningu\u00e9m roubava! <\/p>\n<p>Nessa \u00e9poca \u00e9 que ocorreu a inaugura\u00e7\u00e3o do anel superior da Fonte Nova. Meu pai, desde os anos 50 vinha tendo atua\u00e7\u00e3o constante no mercado da engenharia civil do estado. Pra saber das obras e agilizar o pagamento dos servi\u00e7os contava com conhecidos na m\u00e1quina governamental. Durante v\u00e1rios anos, entre 1955 e 1973, trabalhou no antigo Departamento de Energia, sob a chefia de L\u00eddio, inclusive quando Tarc\u00edsio Vieira de Melo \u201cmandava\u201d no setor onde meu pai varou dezenas de munic\u00edpios para levar energia el\u00e9trica. Durante o primeiro governo ACM era com Barbosa Romeu, da Casa Civil, com quem procurava agilizar o empenho de suas notas. <\/p>\n<p>Em 1969 meu pai, e seu irm\u00e3o Jos\u00e9 Carvalho, criariam uma nova firma, a EMBACIL, em fun\u00e7\u00e3o das obras de ilumina\u00e7\u00e3o da amplia\u00e7\u00e3o do Est\u00e1dio da Fonte Nova. Desta forma, ao fim do primeiro governo de ACM lidei com a minha primeira greve, s\u00f3 que do lado patronal, o da empresa dos irm\u00e3os Carvalho. Era fim de semana, quando os oper\u00e1rios costumavam receber, e o banco estava muito cheio. Assim, meu tio acabou atrasando o hor\u00e1rio do pagamento do pessoal. <\/p>\n<p>Foi um sufoco para meu pai. Eu e meu irm\u00e3o tivemos de ir ajudar. Os oper\u00e1rios foram para o escrit\u00f3rio, que funcionava no pr\u00f3prio est\u00e1dio, e fizeram um escarc\u00e9u, exigindo o pagamento. Ajudei a colocar um balc\u00e3o pra separar a administra\u00e7\u00e3o do pessoal em f\u00faria. Nunca tinha visto aquilo! Tentamos contemporizar e pedimos para aguardar. Naquele tempo n\u00e3o tinha celular ent\u00e3o n\u00e3o pod\u00edamos saber quanto tempo ia demorar meu tio no banco. Quando o dinheiro chegou foi um al\u00edvio. Nunca mais a EMBACIL foi buscar o dinheiro na hora. Meu tio passou a ser um dos primeiros a chegar ao Banco de Cr\u00e9dito Real que ficava ali no Rel\u00f3gio de S\u00e3o Pedro. <\/p>\n<p>Depois a empresa levou meses pra receber. Como a obra foi encomendada pelo governador Luiz Viana Filho a empresa teve que fazer um acordo com o governador ACM sendo obrigado a dar 25% de desconto. At\u00e9 hoje meu pai fala nisso! Acho que os outros empreiteiros, como Norberto Odebrecht e Nilton Simas, passaram pela mesma chantagem!<\/p>\n<p>As obras acrescentaram um anel superior ao primeiro lance de arquibancadas que existia desde os anos 50. Sua capacidade aumentava de 40.000 para mais de 90.000 pessoas. Os jogos inaugurais ocorreram no dia 4 de mar\u00e7o de 1971. Nesse dia estava \u201csocado\u201d de gente. Depois divulgaram um p\u00fablico de 94.000 pessoas, mas acredito que havia mais de 120.000, inclusive por terem mandado abrir as portas.  <\/p>\n<p>Havia ficado aborrecido na preliminar, quando nosso arquirrival ganhou do Flamengo por dois a um e, na partida principal, j\u00e1 est\u00e1vamos tomando um a zero do Gr\u00eamio. Est\u00e1vamos sentados na parte de cima da torcida do Vit\u00f3ria quando vimos o mundo vir abaixo no segundo tempo. <\/p>\n<p>N\u00e3o sab\u00edamos quem e como havia come\u00e7ado, apenas v\u00edamos um mar de gente correndo e caindo do segundo para o primeiro n\u00edvel das arquibancadas. Parecia leite derramando! Na torcida do Vit\u00f3ria todo mundo corria n\u00e3o se sabendo bem pra onde, pois o est\u00e1dio \u201cbalan\u00e7ava\u201d provocando uma verdadeira histeria coletiva parecendo mesmo que ia cair. <\/p>\n<p>Nesse dia eu passei vergonha, pois morri de medo! Abandonei o meu irm\u00e3o menor e sa\u00ed correndo me pendurando na grade que separava a arquibancada do setor das cadeiras. Enquanto isto j\u00e1 via gente se jogando no fosso e adentrando o campo que j\u00e1 abrigava milhares de pessoas. Mesmo lotada a torcida do Vit\u00f3ria esvaziou em poucos minutos. Depois de algum tempo pendurado, e com a redu\u00e7\u00e3o dos tremores, me dei conta do rid\u00edculo da minha atitude. Ora, se o est\u00e1dio fosse cair mesmo, pouco iria adiantar estar pendurado na grade! <\/p>\n<p>S\u00f3 a\u00ed me lembrei de meu querido irm\u00e3o, procurando ver onde estava. O descobri ent\u00e3o um pouco atr\u00e1s, pendurado como muitos na mesma grade. \u00c9 que v\u00e1rios imitaram o meu gesto desesperado! Olhamos ent\u00e3o o estrago \u00e0 nossa volta. Vimos dezenas de milhares de pessoas andando a esmo. Outros milhares estavam no campo, muitos estirados im\u00f3veis, outros sendo socorridos, e ainda outros sendo levados por ambul\u00e2ncias. <\/p>\n<p>Imaginamos ent\u00e3o o que nossos pais deviam estar pensando e ent\u00e3o subimos a Ladeira da Fonte Nova de volta pra casa. Debitei \u00e1 censura reinante os n\u00fameros divulgados pela imprensa, de dois mortos e dois mil feridos! At\u00e9 hoje se divulga esta vers\u00e3o esquecendo que est\u00e1vamos numa ditadura. Acho sim, que foi esta a maior trag\u00e9dia da hist\u00f3ria da Fonte Nova e do Brasil e nunca a esquecerei. <\/p>\n<p>Circularam na imprensa v\u00e1rias vers\u00f5es sobre o que teria ocorrido. Uma delas afirmava que uma l\u00e2mpada havia explodido outra que teria havido uma briga envolvendo v\u00e1rias pessoas. Independente do motivo em minha opini\u00e3o o que pesou mesmo no incidente foi o inconsciente coletivo.  \u00c9 que durante as semanas anteriores os meios de comunica\u00e7\u00e3o deram ampla cobertura a uma discuss\u00e3o sobre a seguran\u00e7a do est\u00e1dio com alguns especialistas levantando d\u00favidas. Um deles foi o radialista Fran\u00e7a Teixeira.<\/p>\n<p>A pol\u00edtica n\u00e3o poderia ficar de fora. Nas proximidades do est\u00e1dio vi uma picha\u00e7\u00e3o contra o governo militar, que soube muito tempo depois tratar-se de uma iniciativa da A\u00e7\u00e3o Popular-AP, pois a inaugura\u00e7\u00e3o teve a presen\u00e7a do general-presidente Garrastazu M\u00e9dici.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A TR\u00c1GICA INAUGURA\u00c7\u00c3O DO ANEL SUPERIOR DA FONTE NOVA No in\u00edcio dos anos 70, em plenos anos sombrios do endurecimento da ditadura militar prosperava a pornochanchada. 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