{"id":11969,"date":"2010-11-06T17:21:30","date_gmt":"2010-11-06T19:21:30","guid":{"rendered":"https:\/\/historiadofutebol.com\/blog\/?p=11969"},"modified":"2010-11-06T17:21:30","modified_gmt":"2010-11-06T19:21:30","slug":"o-ano-que-o-vitoria-passou-o-ypiranga-em-titulos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/historiadofutebol.com\/blog\/?p=11969","title":{"rendered":"O ano que o Vit\u00f3ria passou o Ypiranga em t\u00edtulos"},"content":{"rendered":"<p>Quando \u00e9ramos jovens, eu meu irm\u00e3o \u201cToinho\u201d sub\u00edamos muitas vezes a Ladeira da Fonte Nova de \u201ccabe\u00e7a inchada\u201d.  Mor\u00e1vamos ali perto e economiz\u00e1vamos o dinheiro do transporte. Ao chegar a casa diz\u00edamos de m\u00e1 vontade o resultado a nosso pai. Sempre tivemos vontade de lhe perguntar por que tinha nos feito torcer pro EC Vit\u00f3ria. Mas nunca tivemos coragem!<\/p>\n<p>Hoje d\u00e1 gosto ver o nosso est\u00e1dio, o Barrad\u00e3o, os dezenas de campeonatos baianos e do Nordeste que o rubro negro conquistou as participa\u00e7\u00f5es gloriosas em certames nacionais, e a sua grande e exigente torcida que cresce a cada dia. Naquele tempo, por\u00e9m, era dose! Quando me entendi como gente o Vit\u00f3ria era o \u201cle\u00e3o da Barra\u201d, mas n\u00e3o tinha este nome porque \u201cpapava\u201d t\u00edtulos. E sim por motivo de um barco do clube ido do Porto da Barra aos Tainheiros no in\u00edcio do s\u00e9culo passado, e depois fazer de sua sede o hist\u00f3rico bairro aonde chegaram e sa\u00edram os portugueses, em 1549 pra fundar a cidade, e em 1823 no nosso Dois de julho.<\/p>\n<p>Durante 80 anos, o meu rubro negro n\u00e3o era mais que um clube que s\u00f3 ganhava no bairro de Nazar\u00e9, em torno do qual se localizaram o antigo campo da P\u00f3lvora e a Fonte Nova. No primeiro ganhou um Bicampeonato, em 1908\/1909. Quando o certame passou a ser disputado no Rio Vermelho e, mais tarde, na Gra\u00e7a, o Vit\u00f3ria sumiu. Det\u00e9m o Record negativo de passar 44 anos sem ser campe\u00e3o. Nem o Corinthians conseguiu isto! \u00c8 claro que estou falando aqui da raiva que sentia naquelas ocasi\u00f5es. S\u00f3 muito depois \u00e9 que fui saber que o clube saiu por duas vezes do campeonato e que durante muito tempo n\u00e3o aceitou de verdade o profissionalismo.<\/p>\n<p>Mas voltando as minhas decep\u00e7\u00f5es.  Meu pai casou e me teve sem ver seu clube do cora\u00e7\u00e3o ser campe\u00e3o. S\u00f3 os esp\u00edritos explicam como ele foi parar no Vit\u00f3ria, onde praticou remo, basquete e jogou futebol! Tem muito rubro negro que diz que a Fonte Nova \u00e9 \u201ca casa do Bahia\u201d, mas n\u00e3o sabe que foi quando esta surgiu que o clube acabou seu jejum de t\u00edtulos. Na era de Martins Catharino organizaria um \u201ctima\u00e7o\u201d, onde pontificavam Quarentinha, Teot\u00f4nio, Pinguela, Nadinho e outros, que nos dariam o t\u00edtulo por tr\u00eas vezes alternadas, em 1953, 1955 e 1957. Mas isso n\u00e3o me consolava na \u00e9poca, pois tinha ocorrido quando eu era crian\u00e7a, mesmo que meu pai me levasse pra entrar com o time em campo!<\/p>\n<p>Embora eu e meu irm\u00e3o f\u00f4ssemos ao est\u00e1dio desde 1961 s\u00f3 \u00edamos acompanhados do \u201cvelho\u201d. S\u00f3 tr\u00eas anos depois \u00e9 que iriamos s\u00f3s, naturalmente com o patroc\u00ednio de \u201cpainho\u201d. Quando este estava viajando minha saudosa m\u00e3e Helena tirava dinheiro da despesa pra gente poder ir aos jogos.  E n\u00e3o \u00e9 que o Vit\u00f3ria escolheu exatamente o ano do golpe pra ser campe\u00e3o repetindo o feito no ano seguinte!<\/p>\n<p>Naquele tempo \u00e9ramos como \u201cseu sete\u201d, passando pelo menos sete anos para colocar a m\u00e3o na ta\u00e7a. Depois de 1957, e do \u201cbi\u201d em 1964\/1965, a pr\u00f3xima s\u00f3 ocorreria em 1972 e, da\u00ed, esperamos 1980. As coisas s\u00f3 mudariam na nova d\u00e9cada. Pra quem entrou na ditadura militar ganhando, foi exatamente o fim desta que permitiu o alavancamento do Vit\u00f3ria. Voltamos a ganhar o t\u00edtulo no mesmo ano em que os generais se despediram. Chegamos ent\u00e3o a nossa hist\u00f3ria de hoje, o nosso t\u00edtulo de 1989. At\u00e9 aquela \u00e9poca o EC Vit\u00f3ria s\u00f3 tinha dez t\u00edtulos de campe\u00e3o baiano estando empatado com o Ypiranga em segundo lugar.<\/p>\n<p>Eu naquele tempo era militante pol\u00edtico \u201cde carteirinha\u201d e levava uma vida muito atribulada. Al\u00e9m disto, a esquerda da \u00e9poca tinha muitos preconceitos contra o futebol, reputando-lhe como \u201c\u00f3pio do povo\u201d. Assim, eu tinha muitas brigas para evitar certas reuni\u00f5es e ir aos jogos. 1989 foi um dos anos mais importante para o Brasil. Eu o considero o \u201cnosso 68\u201d. Ali aconteceu de tudo. Entre outras coisas, os brasileiros iriam voltar a votar para presidente ap\u00f3s 29 anos, o muro de Berlim cairia, e Waldir Pires renunciaria ao governo da Bahia.<\/p>\n<p>O ano come\u00e7ou com os jogos finais da Copa Uni\u00e3o do ano anterior. O EC Bahia tinha chegado \u00e1s finais para a hist\u00f3rica decis\u00e3o onde ganhou aqui (2 X 1) e empatou em Porto Alegre a zero com o Internacional. Ap\u00f3s o certame, por\u00e9m, o tricolor foi perdendo pe\u00e7as importantes atra\u00eddos pela dinheirama do Sul. Bob\u00f4, por exemplo, iria para o S\u00e3o Paulo, naquela \u00e9poca vendida por algo em torno de um milh\u00e3o de d\u00f3lares.<br \/>\nNo carnaval j\u00e1 pudemos sentir o interesse pelas elei\u00e7\u00f5es, e eu j\u00e1 me engajava na de Lu\u00eds In\u00e1cio da Silva, o \u201cLula\u201d. Neste ano foi organizado o bloco carnavalesco do Partido dos Trabalhadores &#8211; PT, iniciativa que, mesmo que tenha perdurado apenas por alguns anos, permitiu estender a a\u00e7\u00e3o do partido a nossa maior festa ao tempo em que promovia a divulga\u00e7\u00e3o dos nossos signos e do agora candidato a presidente.<\/p>\n<p>Depois da nossa maior festa come\u00e7ou o campeonato, onde eu, apesar dos compromissos pol\u00edticos, acompanhava com aten\u00e7\u00e3o os jogos, seja pelos jornais, seja pela r\u00e1dio. O certame tinha nesta \u00e9poca um regulamento complicad\u00edssimo. Era pra ningu\u00e9m entender mesmo!  Al\u00e9m disto, se arrastaria por quase todo o ano em fun\u00e7\u00e3o do novo calend\u00e1rio, onde havia agora dois torneios nacionais, a Copa Brasil (iniciada este ano) e o Brasileiro. Al\u00e9m disto, o EC Bahia iria disputar a Ta\u00e7a Libertadores. Os clubes tiveram de participar de quatro turnos e ainda houve \u201cjogos finais\u201d, onde participaram o(s) campe\u00e3o (\u00f5es) dos turnos (que ficavam com apenas um ponto).  Inventaram que os dois clubes melhores colocados no computo geral deveriam ir para estas finais, mesmo sem pontos!  Cada time jogava dois turnos dentro de seus grupos e dois com os advers\u00e1rios do outro grupo. O Vit\u00f3ria caiu inicialmente no grupo \u201cB\u201d.<\/p>\n<p>Nesse ano est\u00e1vamos muito preocupados com o EC Bahia. Se havia sido campe\u00e3o nacional imagine o que faria no campeonato baiano! De qualquer forma o tricolor come\u00e7ou o campeonato baiano perdendo logo \u201cde cara\u201d pro Gal\u00edcia por uma zero. O resultado nos animaria se n\u00e3o houv\u00e9ssemos tamb\u00e9m perdido em Feira de Santana para o Fluminense (0 X 2).<\/p>\n<p>Depois, por\u00e9m, o rubro negro engrenou. Ganhamos do Botafogo (3 X 0), do Serrano fora de casa (1 X 0), e do pr\u00f3prio Bahia (2 X 1). O Fluminense ganhou o outro grupo. Mas tamb\u00e9m se classificaram os clubes que ficaram em segundo lugar. O quadrangular final foi muito dif\u00edcil. O Vit\u00f3ria s\u00f3 ganhou da catuense (1 X 0), empatando com o Bahia (1 X 1) e o Fluminense (0 X 0). Teve, assim, que decidir o turno numa disputa extra com este \u00faltimo onde ganhou pelo escore m\u00ednimo.  Nesse turno eu assisti no m\u00e1ximo uns dois jogos, e me lembro de ter ido \u00e1 decis\u00e3o, embora s\u00f3 tenha lembran\u00e7as pol\u00edticas na ocasi\u00e3o. Lembro-me que nosso rival ficou em \u00faltimo no quadrangular.<\/p>\n<p>O segundo turno come\u00e7ou em maio. Eu apresentei o tradicional ato do Dia dos Trabalhadores, que foi realizado no Campo Grande promovido pela CUT e CSC e que reuniu umas mil pessoas. O PT comemorou dez anos na ocasi\u00e3o. Dois dias depois, quando come\u00e7ava o novo turno, repete-se o ocorrido do ano anterior. Nilo Coelho, substituindo o governador Waldir Pires, assinaria o decreto 2392, verdadeiro \u201cpresente de grego\u201d para os servidores estaduais, rescindindo todos os contratos assinados ap\u00f3s cinco de outubro de 1983. Duas semanas depois meu primo Waldir renunciaria ao governo da Bahia decepcionando milh\u00f5es de eleitores. Na mesma \u00e9poca eu perderia meu colega de orquestra, o compositor, regente e instrumentista Lindemberg Cardoso.<\/p>\n<p>Mas voltemos pra confus\u00e3o do nosso futebol. No segundo turno o Vit\u00f3ria passou pro grupo \u201cA\u201d. Durma-se com um barulho destes! Mas seria de novo o primeiro no grupo. Para isto ganharia do Gal\u00edcia (2 X 1) e do Itabuna (2 X 0), n\u00e3o dando sorte apenas com os times de Alagoinhas, empatando com o Atl\u00e9tico (2 X 2) e perdendo pra Catuense (0 X 2). O outro grupo quem ganharia seria o Bahia. Serrano e Gal\u00edcia vieram, na condi\u00e7\u00e3o de vices, disputar o quadrangular final.<\/p>\n<p>Em maio estava no maior sufoco da milit\u00e2ncia, n\u00e3o havendo desculpa que \u201ccolasse\u201d para ir ao est\u00e1dio. Mas, pra esc\u00e2ndalo dos meus companheiros, eu levava um \u201cradinho\u201d (o pior \u00e9 que n\u00e3o era pequeno) pras reuni\u00f5es. N\u00e3o ficava ligado, mas toda hora eu \u201cia ao sanit\u00e1rio\u201d pra ver como estava o jogo. Eu esperava o mesmo comportamento do Vit\u00f3ria no primeiro turno, mas fomos um desastre! Ficamos em \u00faltimo lugar, perdendo pra Serrano (0 X 1) e Bahia (0 x 2), s\u00f3 conseguindo um empate, a duras penas, com o Gal\u00edcia (3 X 3). Pra piorar a situa\u00e7\u00e3o nosso arquirrival campe\u00e3o brasileiro ficaria com o turno.<\/p>\n<p>O jeito era esperar o terceiro turno. Est\u00e1vamos em \u00e9poca de S\u00e3o Jo\u00e3o. As demiss\u00f5es de servidores estaduais continuavam, e milhares de colegas eram inclu\u00eddos nas listas. Ao mesmo tempo Luiz Arthur de Carvalho era convidado para voltar a Secretaria de Seguran\u00e7a na cota do grupo robertista. Ele trazia tristes lembran\u00e7as pra mim, que fui preso duas vezes quando ele ocupou este cargo. Nilo Coelho havia se reaproximado de ACM e do governo Sarney, quando este \u00faltimo aproveitou pra alterar a sua posi\u00e7\u00e3o de m\u00e1 vontade para com a Bahia. Salvador batia o Record de carestia no Brasil. Eu ficaria muito sentido com a morte de tr\u00eas grandes m\u00fasicos, Luiz Gonzaga, Herbert Von Karajan e Raul Seixas, grandiosos interpretes dos universos sertanejos e bethoveniano e da rebeldia da minha juventude.         <\/p>\n<p>Enquanto isto acontecia o Vit\u00f3ria voltava pro grupo \u201cA\u201d e continuava dando vexame! Come\u00e7ou ganhando do Gal\u00edcia (2 X 1), mas depois teve duas incr\u00edveis derrotas, caindo de 3 X 1 para o Bahia e de 5 X 3(!) para a Catuense. Quando ouvi esta \u00faltima pelo r\u00e1dio mal acreditei no que acontecia. At\u00e9 o pessoal da milit\u00e2ncia fez goza\u00e7\u00f5es com a minha cara!  Parecia que est\u00e1vamos nos despedindo do campeonato, onde mais uma vez o Vit\u00f3ria come\u00e7ava bem e acabava mal. O time depois reagiu, surpreendentemente, ganhando fora de casa do Itabuna (4 X 0) e do Atl\u00e9tico (1 X 0), mas n\u00e3o se classificou para o quadrangular decisivo.  E, neste, houve mais uma vit\u00f3ria do Bahia. Agora o tricolor levava dois pontos e n\u00f3s apenas um para as finais.<\/p>\n<p>Mas havia turnos \u00e1 vontade num campeonato que se arrastou durante sete meses. No quarto turno (v\u00e3o contando) o Vit\u00f3ria ficaria s\u00f3 em segundo na sua chave, sendo superado por um Le\u00f4nico que subia de produ\u00e7\u00e3o. O rubro negro ganhou tr\u00eas, Serrano (2 X 0), Fluminense (3 X 1) e Botafogo (1 X 0), mas sentimos um suor frio lembrando-se da perda do \u201ctri\u201d em 1966 quando perdemos para o time gren\u00e1 por um a zero. O Bahia, em boa fase, ganhava o seu grupo.<\/p>\n<p>Neste per\u00edodo tive que viajar ao 6\u00ba Encontro Nacional do PT, ocorrido num col\u00e9gio de S\u00e3o Paulo, de maneira que n\u00e3o assisti nenhum jogo da fase classificat\u00f3ria. Mas a reuni\u00e3o era importante. Nela a campanha da Frente Brasil Popular dava a arrancada final, e aprovaria as diretrizes para o programa e o plano de a\u00e7\u00e3o do nosso \u201cfuturo governo\u201d.  No entanto, havia verificado que t\u00ednhamos formula\u00e7\u00f5es amb\u00edguas. Eu mesmo fiz cr\u00edticas a certas teses dos economistas do partido. A reuni\u00e3o acabou convocando um Encontro Nacional Extraordin\u00e1rio para discutir a t\u00e1tica do partido para o 2\u00ba turno, onde poucos esperavam estarmos presentes.<\/p>\n<p>Bem, mas vamos voltar para o decisivo quarto turno. O Bahia n\u00e3o podia ganhar de forma nenhuma. Sen\u00e3o levaria tr\u00eas pontos para as finais! O quadrangular ocorreu em agosto, quando esquentava a campanha presidencial. Fernando Collor estava disparado e Brizola e Lula disputavam palmo a palmo quem iria pro segundo turno. Quem saiu na frente foi o Gal\u00edcia, ao vencer o Le\u00f4nico por um a zero, enquanto Bahia e Vit\u00f3ria empatavam (1 X 1) com a minha presen\u00e7a no est\u00e1dio.<\/p>\n<p>Depois desta partida o rubro negro ignoraria os demais advers\u00e1rios, vencendo bem o Le\u00f4nico (3 X 1) e o Gal\u00edcia (2 X 0). Acompanhei as duas partidas pelo r\u00e1dio e vibrei com o resultado. Agora estava tudo empatado! Mas, para quem se preparava pra decidir com o Bahia, o regulamento era uma bruta tapea\u00e7\u00e3o.  Lembro-me que tive de explicar para v\u00e1rias pessoas como funcionava.  Imagine que depois de darem duro pra ganhar dois turnos cada um o Bahia e o Vit\u00f3ria disputariam as finais com apenas dois pontos, enquanto a Catuense e o Le\u00f4nico entravam \u201cde m\u00e3o beijada\u201d por terem ficado \u201cno computo geral\u201d em terceiro e quarto lugares!<br \/>\nEsta incoer\u00eancia logo seria cobrada, pois a Catuense se agigantou nas finais enquanto o Le\u00f4nico n\u00e3o deu nem \u201cpra melar\u201d. Na primeira rodada o Bahia passou f\u00e1cil pelo \u201cmoleque travesso\u201d (3 X 0) enquanto o Vit\u00f3ria sofreria para enfiar um a zero na \u201claranja mec\u00e2nica\u201d. Esta, entretanto, s\u00f3 perderia este jogo. Logo arrancaria um empate a zero com o tricolor enquanto pen\u00e1vamos de novo, agora pra ganhar do Le\u00f4nico, novamente pelo escore m\u00ednimo. O primeiro turno da fase final (conseguiram entender?) se completaria com um empata a zero no BA-VI, ao qual eu compareci a muque, enquanto a Catuense ganha do Le\u00f4nico com folga por 3 X 1. O Vit\u00f3ria dobrava na lideran\u00e7a com 5 pontos, enquanto o Bahia tinha quatro e a Catuense tr\u00eas. J\u00e1 o Le\u00f4nico havia perdido todas.<\/p>\n<p>Enquanto ocorriam as finais a pol\u00edtica estava muito agitada. Havia mais uma tentativa de Sarney de promover um pacto social ao tempo em que anuncia o enxugamento da m\u00e1quina administrativa. Chega a falar-se em antecipa\u00e7\u00e3o da posse do novo presidente para frear a infla\u00e7\u00e3o. O movimento da Pra\u00e7a da Paz Celestial na China \u00e9 pesadamente reprimido e se aprofunda o debacle dos regimes burocr\u00e1ticos do Leste Europeu em meio a grande alarde da m\u00eddia.<br \/>\nDesde o primeiro turno todo tipo de boato era divulgado para buscar aumentar a rejei\u00e7\u00e3o de Lula e Brizola junto \u00e1 popula\u00e7\u00e3o. Era evidente a atua\u00e7\u00e3o das elites do pa\u00eds para domesticar um prov\u00e1vel segundo turno. De \u00faltima hora ainda surgiu \u00e0 candidatura do animador Silvio Santos que acabou cassada porque iria desmoralizar inteiramente o processo pol\u00edtico. \u00c0s v\u00e9speras da elei\u00e7\u00e3o a m\u00eddia deu grande destaque a atos de saque e depreda\u00e7\u00e3o.<br \/>\nEm Salvador, os estudantes secundaristas realizam enorme protesto de dois dias. Vinha de taxi neste dia e quando o carro entrou na Avenida Joana Ang\u00e9lica fiquei emocionado! Milhares de jovens das escolas dos bairros de Nazar\u00e9 e Barbalho vinham em dire\u00e7\u00e3o \u00e1 Pra\u00e7a da Piedade. N\u00e3o dava pra passar, e nem eu queria passar! Saltei ent\u00e3o e segui, inebriado, a passeata que lotou a pra\u00e7a e seus arredores, e, ap\u00f3s certo tempo, se dirigiu para a Pra\u00e7a Municipal. Mas s\u00f3 quando cheguei em casa \u00e9 que soube da pesada repress\u00e3o da pol\u00edcia. A repercuss\u00e3o negativa deu lugar um novo ato no dia posterior com os estudantes desta vez tomando contra da pra\u00e7a.<\/p>\n<p>Bem, mas voltemos a \u201cfase final das finais\u201d, que come\u00e7ou apertando tudo! O Bahia ganhou novamente do Le\u00f4nico (1 X 0) enquanto Vit\u00f3ria e Catuense empatavam (1 X 1). Agora a dupla BA-VI tinha 6 pontos e o time de Alagoinhas apertava os seus calcanhares. Mas de gr\u00e3o em gr\u00e3o o Vit\u00f3ria \u201cencheria o papo\u201d. Seis dias ap\u00f3s a data comemorativa da independ\u00eancia do pa\u00eds o rubro negro ganharia de novo do Le\u00f4nico por um a zero enquanto o Bahia ca\u00eda de quatro a dois para a Catuense!  Nesse dia fui umas vinte vezes no sanit\u00e1rio pra ouvir o andamento do jogo! Agora s\u00f3 bastava um empate, e o pr\u00f3ximo jogo era contra o Bahia. N\u00e3o havia motivo que pudesse me tirar desse jogo, mesmo o fato de ocorrer a apenas duas semanas do primeiro turno das elei\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Lembro que levei uns panfletos e fiquei sozinho panfletando na Ladeira da Fonte Nova. Mas, como o est\u00e1dio estava enchendo rapidamente, n\u00e3o fiquei muito tempo nesta tarefa, indo logo pro meu lugar no lado esquerdo das cabines de r\u00e1dio. Arranjei lugar com dificuldade, pois estava cheio. Tive que sentar nos degraus. Lembro-me que foi um jogo muito preso. O Bahia n\u00e3o se arriscou muito no primeiro tempo. Parecia que ambos os times estavam com medo do outro. Mas o Vit\u00f3ria \u201cadministrava\u201d.  Promoveu alguns ataques pelas pontas. Marcou bem o bom meio de campo do tricolor. Ao final, foi s\u00f3 chutar bolas pra todos os lados pra garantir o resultado. Nesse dia demorei pra sair da Fonte Nova em meio \u00e1 comemora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Uma semana depois Collor e Lula realizam com\u00edcios em Salvador, o primeiro no Farol da Barra e o segundo na Pra\u00e7a Castro Alves. Eu ainda estava comemorando o t\u00edtulo e queria comemorar tamb\u00e9m a elei\u00e7\u00e3o de Lula. O ato reuniu, como o de Collor, em torno de 50.000 pessoas, e contou com a presen\u00e7a do vice Jos\u00e9 Bisol (senador do PSB), assim como os presidentes nacionais dos partidos da Frente Brasil Popular, diversos parlamentares, e artistas como Sivuca, Roberto Mendes, Bereba e Jorge Portugal.<\/p>\n<p>Tr\u00eas dias depois foi \u00e0 vez de Ulysses Guimar\u00e3es fazer com\u00edcio no Largo do Tanque. Estiveram presentes Waldir, Roberto Santos, a chapa majorit\u00e1ria, Nilo Coelho, prefeitos e secret\u00e1rios. No mesmo dia Roberto Freire, candidato do PCB, faz com\u00edcio no Largo da Mariquita. No outro dia o Instituto Data Folha apresenta a \u00faltima pesquisa eleitoral, que d\u00e1 27% de inten\u00e7\u00f5es de voto para Collor, 15% pra Lula, 14% pra Brizola, 11% para Covas, 9% pra Maluf, 5,5% pra Afif, 4% pra Ulysses e 2% para Roberto Freire.<br \/>\nPronto! Eu tinha tido duas alegrias este ano, ver o Vit\u00f3ria voltar a ser campe\u00e3o e ir ao segundo turno pra disputar a presid\u00eancia da rep\u00fablica! Mas depois foi s\u00f3 decep\u00e7\u00e3o. Perdemos a elei\u00e7\u00e3o pra Collor e o Vit\u00f3ria (mas tamb\u00e9m o Bahia) me enganaria. Ficaria em 17\u00ba lugar no Campeonato Brasileiro tendo que participar do Torneio \u201cda morte\u201d para ver quem desceria para a segunda divis\u00e3o, s\u00f3 conseguindo escapar gra\u00e7as aos gols salvadores de Hugo. Mas a\u00ed \u00e9 outra hist\u00f3ria. . <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando \u00e9ramos jovens, eu meu irm\u00e3o \u201cToinho\u201d sub\u00edamos muitas vezes a Ladeira da Fonte Nova de \u201ccabe\u00e7a inchada\u201d. Mor\u00e1vamos ali perto e economiz\u00e1vamos o dinheiro do transporte. Ao chegar a casa diz\u00edamos de m\u00e1 vontade o resultado a nosso pai. Sempre tivemos vontade de lhe perguntar por que tinha nos feito torcer pro EC Vit\u00f3ria. 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