{"id":1179,"date":"2008-05-29T17:54:42","date_gmt":"2008-05-29T20:54:42","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.soccerlogos.com.br\/2008\/05\/29\/copa-de-1930-a-disputa\/"},"modified":"2016-04-02T06:13:17","modified_gmt":"2016-04-02T09:13:17","slug":"copa-de-1930-a-disputa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/historiadofutebol.com\/blog\/?p=1179","title":{"rendered":"Copa de 1930, a disputa!!!!"},"content":{"rendered":"<p>Mal fora aprovada a proposta uruguaia, o governo do presidente Cimpistegui convocou a equipe respons\u00e1vel pela constru\u00e7\u00e3o daquele que, segundo os uruguaios, seria o maior est\u00e1dio do mundo. As ambi\u00e7\u00f5es eram grandiosas, estimadas em mais de um milh\u00e3o de pesos. Em oito meses atravessando a esta\u00e7\u00e3o chuvosa projetou-se um colosso capaz de conter oitenta mil torcedores. Se chamaria Centen\u00e1rio, em homenagem \u00e0 data que se comemorava no pa\u00eds. Enquanto trabalhadores uruguaios revezavam-se dia e noite para cumprir o cronograma das obras exigido pela estr\u00e9ia da competi\u00e7\u00e3o, programada para 13 de julho, os preparativos para o embarque dos europeus chegavam ao fim. O navio Conte Verde &#8211; le bateau du footbull &#8211; zarpou de G\u00eanova com a delega\u00e7\u00e3o romena.<\/p>\n<p>No caminho, foram incorporados os belgas e os franceses. Tamb\u00e9m subiu a bordo Jules Rimet, zelando por sua pequena estatueta, a &#8220;Deusa das Asas de Ouro&#8221;, rumo \u00e0 fase final de uma epop\u00e9ia que fora idealizada h\u00e1 tantos anos, entre viagens, confer\u00eancias e acordos. Dirigentes \u00e0 parte, para a grande maioria a bordo do Conte Verde, esta seria a primeira viagem de navio. Foram quinze dias de banhos de piscina, t\u00eanis de mesa, cinema, carteado e, por vezes, exerc\u00edcios f\u00edsicos. Os iugoslavos, por sua vez, viajaram em separado em uma embarca\u00e7\u00e3o ainda mais confort\u00e1vel. Ao final da Copa, afirmou-se que os excessos nas noitadas a bordo teriam minado a capacidade da sele\u00e7\u00e3o iugoslava. Quase tr\u00eas semanas depois de deixar a Europa, tendo recolhido a sele\u00e7\u00e3o brasileira no Rio de Janeiro, o Conte Verde atracou em Montevid\u00e9u. Um espet\u00e1culo indescrit\u00edvel aguardava os enfastiados jogadores. Centenas de bandeirolas com as cores da Fran\u00e7a, Iugosl\u00e1via, Rom\u00eania e B\u00e9lgica tremulavam nas m\u00e3os da massa humana que aguardava, ansiosa, o desembarque.<\/p>\n<p>Enquanto tudo parecia sair ainda melhor que o esperado, os organizadores do Mundial se viram diante do primeiro contratempo mais s\u00e9rio. Apesar de todo o empenho, o governo uruguaio anunciava que o Est\u00e1dio Centen\u00e1rio ainda n\u00e3o estava em condi\u00e7\u00f5es de inaugurar a competi\u00e7\u00e3o. Alegava-se que os treze meses anteriores de chuva haviam comprometido o ritmo das obras, o que causaria um atraso de alguns dias para a inaugura\u00e7\u00e3o. Como era imposs\u00edvel adiar todo o cronograma, a sa\u00edda foi dar in\u00edcio ao campeonato assim mesmo. Na data marcada. 13 de julho, dois jogos foram realizados, ambos com um p\u00fablico muito modesto. No Est\u00e1dio do Nacional F.C, a Fran\u00e7a entrou em campo para enfrentar o M\u00e9xico, com vit\u00f3ria dos franceses por 4X I . Do outro lado da cidade, em Pocitos, no est\u00e1dio do Penarol, os Estados Unidos venciam a B\u00e9lgica por 3X0.<\/p>\n<p>Apenas no dia 18 o Est\u00e1dio Centen\u00e1rio p\u00f4de, finalmente, ser aberto ao p\u00fablico. E n\u00e3o sem problemas. A massa, ansiosa, praticamente passou por cima dos policiais e at\u00e9 mesmo as bilheterias foram assaltadas. Como o dia da inaugura\u00e7\u00e3o coincidia com a estr\u00e9ia da sele\u00e7\u00e3o uruguaia e com a data hist\u00f3rica da independ\u00eancia do pa\u00eds, comentaristas internacionais foram implac\u00e1veis com o governo de Cimpistegui, acusando-o de manobrar o atraso das obras para valorizar as festividades em torno da comemora\u00e7\u00e3o nacional. Certos ou errados, a verdade \u00e9 que a sele\u00e7\u00e3o uruguaia entrou em campo sob os aplausos de 70.000 torcedores, divididos nas tribunas denominadas Colombes e Amsterd\u00e3, refer\u00eancia \u00e0s vit\u00f3rias ol\u00edmpicas. Vivia-se um marco. Nunca na Am\u00e9rica uma partida de futebol havia sido contemplada por um p\u00fablico t\u00e3o grandioso. Vencendo os peruanos, os uruguaios superavam seu primeiro desafio. Apesar do placar diminuto um simples 1 XO , a torcida acreditava muito no potencial da Celeste Ol\u00edmpica e expectativas cresciam a cada dia. Aos olhos desta, parecia que apenas a sele\u00e7\u00e3o argentina podia ser uma advers\u00e1ria \u00e0 altura, j\u00e1 que as lembran\u00e7as da final dos Jogos Ol\u00edmpicos de 1928 ainda estavam bem vivas e por pouco n\u00e3o levaram a Argentina a boicotar o Mundial. Um dos destaques da sele\u00e7\u00e3o uruguaia vinha sendo o m\u00e9dio Andrade, c\u00e9rebro do time no bicampeonato ol\u00edmpico, primeiro jogador negro a brilhar em uma Copa do Mundo.<\/p>\n<p>Em Pocitos, quando estrearam contra a Fran\u00e7a, os argentinos sentiram a press\u00e3o da torcida local, que conclamava os franceses \u00e0 vit\u00f3ria como se torcessem para a pr\u00f3pria Celeste. Em um dos jogos mais conturbados do Mundial, o embate entre Fran\u00e7a e Argentina ficaria marcado pelo descuido do \u00e1rbitro e dirigente brasileiro Gilberto Pereira Rego. Ele chegou a dar por encerrada a partida com 84 minutos de jogo, exatamente no momento em que os franceses, com um jogador expulso, lan\u00e7avam-se perigosamente sobre o gol argentino, tentando empatar um jogo em que perdiam por 2X1. Mesmo com o reinicio da partida, ap\u00f3s muitas confus\u00f5es no gramado, a sorte n\u00e3o virou para o lado dos franceses, mantendo-se o placar favor\u00e1vel aos argentinos at\u00e9 o apito final. Perdido o jogo. sobravam em compensa\u00e7\u00e3o as palavras e gestos de apoio por parte dos torcedores uruguaios. Aclamados pela garra em campo, alguns franceses chegaram a ser carregados nos ombros como vencedores. Na perspectiva da garra charrua, marca indel\u00e9vel do futebol uruguaio, talvez fossem vistos como vitoriosos de fato.<\/p>\n<p>Viriam os momentos decisivos da competi\u00e7\u00e3o e as expectativas da torcida uruguaia pareciam se confirmar. Na primeira semifinal, no dia 26 de julho, Argentina e Estados Unidos fizeram um jogo que n\u00e3o demonstrava ser capaz de muitas surpresas. Os torcedores argentinos acreditavam tanto na vit\u00f3ria que &#8220;invadiram&#8221; Montevid\u00e9u em embarca\u00e7\u00f5es fretadas especialmente para a partida. Apesar de contar com jogadores escoceses naturalizados, para os observadores mais realistas a sele\u00e7\u00e3o estadunidense n\u00e3o parecia ser uma advers\u00e1ria \u00e0 altura dos argentinos. Em campo, Stabille e Monti comandaram a goleada argentina por 6X 1, com a maioria dos gols marcados no segundo tempo. O \u00e1rbitro da partida, o famoso belga Jan Langenus, que registraria suas impress\u00f5es sobre a Primeira Copa do Mundo em um livro de reminisc\u00eancias, ficou deslumbrado com a atua\u00e7\u00e3o argentina, chegando a consider\u00e1-la simplesmente a apoteose da perfei\u00e7\u00e3o em campo.<\/p>\n<p>No dia seguinte, no Centen\u00e1rio, uma nova goleada incendiaria o Mundial. Era a hora de o Uruguai enfrentar a Iugosl\u00e1via diante de mais de cem mil espectadores. Enquanto o mercado negro funcionava a pleno vapor vendendo ingressos que deveriam estar nas bilheterias, Montevid\u00e9u parava para a partida que poderia levar a Celeste Ol\u00edmpica \u00e0 final. Em uma atua\u00e7\u00e3o pol\u00eamica, mais uma vez a arbitragem roubou a cena, favorecendo os uruguaios ao anular um gol iugoslavo, al\u00e9m de uma s\u00e9rie de outros lances tidos como duvidosos. Ao final, o Uruguai alcan\u00e7aria o mesmo placar obtido no dia anterior pela Argentina: 6X1. Como n\u00e3o havia sido prevista decis\u00e3o do terceiro lugar, norte-americanos e iugoslavos acabaram dividindo a coloca\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O anticl\u00edmax da Final n\u00e3o poderia ser mais emocionante. Argentina e Uruguai de fato tinham se mostrado as melhores equipes da competi\u00e7\u00e3o. De longa data, j\u00e1 se anunciava a feroz rivalidade, forjada nos muitos embates travados em terras sul-americanas e europ\u00e9ias. Os torcedores argentinos sa\u00edam do Prata ao coro de Argentina si, Uruguay no! Victoria o muerte!, chegando aos milhares em Montevid\u00e9u. Em meio \u00e0 euforia e \u00e0 desorganiza\u00e7\u00e3o, muitos barcos ficaram encalhados no meio do caminho. Isso sem falar nos tantos argentinos que ficaram fora do est\u00e1dio, j\u00e1 que a cota de ingressos destinada a eles n\u00e3o era suficiente para todas. Para as autoridades uruguaias, os problemas multiplicavam-se a todo instante, tornando o que deveria ser a final dos sonhos em uma grande preocupa\u00e7\u00e3o.<br \/>\nA imprensa alimentava um verdadeiro clima de guerra. Discutia-se at\u00e9 em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 bola a ser utilizada na Final. A delega\u00e7\u00e3o argentina exigiu seguran\u00e7a especial, garantida pela pol\u00edcia montada, enquanto Jan Langenus, \u00e1rbitro designado para o jogo, tomou provid\u00eancias especiais, temendo por sua pr\u00f3pria seguran\u00e7a e dos auxiliares. At\u00e9 mesmo as bilheterias foram refor\u00e7adas com grades, visando assegurar o &#8220;bem-estar da renda&#8221;. Na v\u00e9spera da partida, o famoso cantor Carlos Gardel, entusiasta do futebol, apareceu na concentra\u00e7\u00e3o dos uruguaios, onde chegou a apresentar-se para os jogadores. Como sua m\u00e3e era uruguaia, Gardel decidiu prestar uma homenagem \u00e0 Celeste. Algumas horas mais tarde, foi a vez de visitar a sele\u00e7\u00e3o argentina, sendo recepcionado com menos entusiasmo pelos argentinos, um tanto quanto enciumados por n\u00e3o terem sido os \u00fanicos a receberem as congratula\u00e7\u00f5es do cantor.<\/p>\n<p>Chegada a hora da decis\u00e3o, o Est\u00e1dio Centen\u00e1rio parecia explodir em vibra\u00e7\u00e3o. Apesar da torcida uruguaia, o time da casa n\u00e3o come\u00e7ou t\u00e3o bem quanto se esperava: abrindo o marcador aos doze minutos com Pablo Dorado, o Uruguai mal teve tempo de respirar, pois os argentinos empataram logo em seguida. Alguns minutos depois viria a virada argentina nos p\u00e9s de Stabille, consagrado artilheiro da Copa, silenciando por completo as tribunas do Centen\u00e1rio. Iniciado o segundo tempo, os uruguaios demoraram um pouco para reagir de fato. Aos dez minutos que, para a torcida, pareciam uma eternidade, foi consumado o gol de empate. Ganhando confian\u00e7a e impondo seu jogo, o Uruguai marcou mais dois gols com Iriarte e Castro, liquidando a fatura e sagrando-se o primeiro campe\u00e3o da Hist\u00f3ria da Copa do Mundo.<br \/>\nA torcida presente no Centen\u00e1rio delirou e muitos se julgavam tricampe\u00f5es, pois j\u00e1 vinham contabilizando as vit\u00f3rias ol\u00edmpicas. Ao som dos apitos e sirenes que ressoavam no porto, Jules Rimet entregou o trof\u00e9u ao capit\u00e3o uruguaio, enquanto o presidente Cimpisgueti decretou que o dia seguinte seria feriado nacional. Nas ruas, entretanto, muitos dist\u00farbios envolveram os torcedores rivais, com insultos e brigas marcando a despedida dos argentinos de Montevid\u00e9u. Atritos continuaram nas fronteiras por mais alguns dias e at\u00e9 mesmo a Embaixada do Uruguai em Buenos Aires chegou a ser apedrejada. O Mundial estava lan\u00e7ado. A esta altura, poucos ousariam duvidar do poder do jogo.<\/p>\n<p>Fonte:Gilberto Agostino<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mal fora aprovada a proposta uruguaia, o governo do presidente Cimpistegui convocou a equipe respons\u00e1vel pela constru\u00e7\u00e3o daquele que, segundo os uruguaios, seria o maior est\u00e1dio do mundo. As ambi\u00e7\u00f5es eram grandiosas, estimadas em mais de um milh\u00e3o de pesos. 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