{"id":1164,"date":"2008-05-20T20:23:55","date_gmt":"2008-05-20T23:23:55","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.soccerlogos.com.br\/2008\/05\/20\/stpauli-e-a-politica\/"},"modified":"2016-04-02T06:18:23","modified_gmt":"2016-04-02T09:18:23","slug":"stpauli-e-a-politica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/historiadofutebol.com\/blog\/?p=1164","title":{"rendered":"St.Pauli e a pol\u00edtica!!!!"},"content":{"rendered":"<p>St. Pauli \u00e9 um bairro portu\u00e1rio que fica ao norte de Hamburgo, na Alemanha. Do mesmo modo que o Livorno na It\u00e1lia, St. Pauli \u00e9 um dos bairros mais antifascistas da cidade de Hamburgo. Neste artigo falaremos da hist\u00f3ria da torcida de sua equipe de futebol: o FC St. Pauli. Que expulsaram, na base do confronto f\u00edsico, todos os fascistas de seu Est\u00e1dio, o Millentorn. E como diria a banda alem\u00e3 &#8220;Stage Bottles&#8221;: &#8220;A viol\u00eancia n\u00e3o \u00e9 o \u00fanico caminho, mas \u00e9 o \u00fanico que muitos entendem. Fuck Fascism!&#8221;.<\/p>\n<p>No final dos anos 70 os neonazistas, de forma similar a outros pa\u00edses (especialmente na Inglaterra), come\u00e7am a se infiltrar nos est\u00e1dios de futebol de Hamburgo, que at\u00e9 ent\u00e3o n\u00e3o tinha nenhum car\u00e1ter pol\u00edtico, tomando em pouco tempo o controle dos est\u00e1dios gra\u00e7as a sua grande organiza\u00e7\u00e3o. A partir de ent\u00e3o eles come\u00e7am a se situar no &#8220;Bloco E&#8221; da Curva Norte, por esse motivo muitos torcedores deixam de ir aos est\u00e1dios. Essas organiza\u00e7\u00f5es fascistas, que ainda hoje continuam na ativa (como &#8220;FAP&#8221;, &#8220;NF&#8221; ou o mais velho partido nazista alem\u00e3o &#8220;NDP&#8221;), eram capazes de criarem torcidas organizadas de car\u00e1ter neonazista como os &#8220;Borussenfront&#8221; em Dormunt ou os &#8220;Hertafr\u00f6sche&#8221; em Berlim. Muitos dos importantes l\u00edderes destes grupos eram militantes de partidos neonazistas. Suas zines, bandeiras e outros materiais eram dessa mesma influ\u00eancia pol\u00edtica, assim como os hinos que cantavam nos est\u00e1dios. N\u00e3o tardou para a pol\u00edcia interceptar, nesse mesmo ano, uma circular interna escrita pelo l\u00edder nazista Michael K\u00fchnen, na qual dizia que &#8220;o futebol devia ser um campo de capta\u00e7\u00e3o de recrutas para o movimento nazista alem\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p>Por outro lado, ao norte da cidade, no bairro de St. Pauli, dar-se in\u00edcio a uma s\u00e9rie de acontecimentos significativos para a hist\u00f3ria do bairro: os &#8220;squatters&#8221; se multiplicam em muito pouco tempo e as baixas rendas que pagavam pelos tetos fazem com que a maioria dos habitantes da esquerda de Hamburgo se desloque para o bairro de St. Pauli, trazendo consigo, claro, um aumento no n\u00famero de espectadores do Millentorn (est\u00e1dio do St. Pauli) que at\u00e9 ent\u00e3o n\u00e3o superava os 2000 afiliados.<br \/>\nO FC St. Pauli sempre foi uma equipe modesta, limitando-se apenas a jogar na Bundesliga, e quase sempre jogou na segunda e terceira divis\u00e3o alem\u00e3. Seu est\u00e1dio, o Millentorn, conta com uma capacidade de 21000 espectadores. Por volta de 1985 come\u00e7a-se a notar esse crescimento na torcida do St. Pauli. Em apenas um ano a equipe come\u00e7ou a dobrar o n\u00famero de s\u00f3cios, passando para 4000 afiliados. J\u00e1 em 1989 come\u00e7am a se organizar de um modo mais efetivo os primeiros grupos de torcida do St. Pauli. Em 1991 editam um v\u00eddeo sobre eles mesmos em sua passagem pela Bundesliga, feito que voltariam a realizar em 1997. Tamb\u00e9m come\u00e7am a organizar seu meio de comunica\u00e7\u00e3o pr\u00f3prio, o famoso &#8220;Millentorn Roar!&#8221;, que atualmente tem uma tiragem de mais de 30000 n\u00fameros, tornando-se assim a revista de torcidas com maior tiragens do mundo.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o avancemos tanto, pois como j\u00e1 dissemos, pouco a pouco a massa do St. Pauli vai aumentando, chamando a aten\u00e7\u00e3o da extrema-direita. Em 1988 ap\u00f3s uma disputa entre Alemanha e Holanda em Hamburgo, alguns fascistas decidem, para celebrar a vit\u00f3ria da sele\u00e7\u00e3o alem\u00e3, acabar com a Haffenstrabe, conjunto de okupas situada em St. Pauli. A resposta do bairro \u00e9 incr\u00edvel: avan\u00e7aram em f\u00faria contra os fascistas, confrontando-se fisicamente com eles; os nazistas sofreram numerosas perdas. Depois deste fato, mais e mais antifascistas uniram-se \u00e0 torcida do St. Pauli. Por\u00e9m, neste momento, o verdadeiro motivo de sua organiza\u00e7\u00e3o foi para lutar contra os projetos mesquinhos da diretoria do clube, que queria transformar o St. Pauli em um &#8220;time grande&#8221; \u00e0 custa da popula\u00e7\u00e3o. Eles planejaram um mega-projeto esportivo que necessitava, como infra-estrutura, milh\u00f5es de marcos&#8230; um est\u00e1dio novo, um centro comercial, uma cidade esportiva&#8230; Enfim, isto supunha o encarecimento do pre\u00e7o dos tetos, o desalojamento das casas okupas, maior controle policial na zona, aburguesamento do bairro etc., e as torcidas do St. Pauli se organizaram para impedir este projeto. Foram ao est\u00e1dio e fizeram uma s\u00e9rie de manifesta\u00e7\u00f5es, agitando cartazes e bandeiras. O clube ent\u00e3o cedeu e as coisas ficaram como estavam. Era a segunda grande vit\u00f3ria, em t\u00e3o pouco tempo, ganhada pela torcida do St. Pauli, esse foi o verdadeiro come\u00e7o do que viria depois: deslocamentos de milhares de torcidas organizadas para ver o St. Pauli jogar por toda a Alemanha, o reconhecimento das torcidas estrangeiras (Celtic Glasgow, Athletic de Bilbao etc.) e a perplexidade dos meios de comunica\u00e7\u00e3o pela &#8220;estranha&#8221; torcida do St. Pauli (comunistas, anarquistas e antifascistas em geral), pelas bandeiras de Che tremulando no Est\u00e1dio de Millentorn e pelos hinos antifascistas cantados por toda a sua torcida. O movimento contra-cultural tamb\u00e9m se fez presente: punks e skinheads antifascistas prestaram toda a sua solidariedade ao time do St. Pauli, formando inclusive algumas torcidas organizadas.<\/p>\n<p>No in\u00edcio dos anos 90 torcedores antifascistas come\u00e7aram a se organizar em torno do St. Pauli, surgindo assim o primeiro deles: o &#8220;St. Pauli Fans&#8221;. Nesse mesmo ano, surgiu tamb\u00e9m o &#8220;St. Paulianer&#8221;, que era uma torcida organizada que agrupava todo o tipo de juventude antifascista, contendo em suas fileiras um grande n\u00famero de skinheads libert\u00e1rios, Redskins e SHARP. Sobre esta torcida ocorreu um fato curioso no final dos anos 90, quando os torcedores do &#8220;St. Paulianer&#8221; foram a Nuremberg, assistir \u00e0 partida de seu time, se confrontaram fisicamente com os fascistas. A imprensa e as pessoas leigas ficaram completamente surpreendidas ao ver uma &#8220;encarni\u00e7ada briga de rua entre skinheads de esquerda contra skinheads de direita&#8221;. Existia tamb\u00e9m uma outra torcida denominada &#8220;BAFF&#8221; (B\u00fcndnis Antifas chistischer FusballFans). Entretanto, como j\u00e1 dissemos, o St. Pauli tamb\u00e9m contava com um grupo de torcedores fascistas que faziam manifesta\u00e7\u00f5es pol\u00edticas dentro do Est\u00e1dio de Millentorn. Em todos os campos que iam, os neonazistas se mobilizavam para enfrentar os torcedores do St. Pauli. Mas a uni\u00e3o entre as torcidas antifascistas do St. Pauli resultou na vit\u00f3ria final contra o eixo nazista. As brigas foram continuas e selvagens, mas no final de tudo as torcidas organizadas do St. Pauli limparam seu est\u00e1dio da sujeira nazi-fascista, os expulsaram na base da viol\u00eancia (a \u00fanica linguagem que os fachos conhecem). Tamb\u00e9m s\u00e3o famosos seus confrontos com os fascistas de Hamburgo, Berlim e Borussia Dortmund. Seu reflexo em outras torcidas alem\u00e3s \u00e9 incr\u00edvel, seguiram seus exemplos outras torcidas como as do Schalke 04, Kaiserlauntern e Mainz.<\/p>\n<p>Enfim, a ideologia no seio do St. Pauli, tanto dos torcedores como da pr\u00f3pria equipe, \u00e9 o antifascismo. Foram os primeiros a organizar partidas contra o racismo, convidando imigrantes a participar. At\u00e9 pouco tempo, a torcida e a equipe protestaram contra a guerra dos EUA no Iraque, levantando faixas com os dizeres: &#8220;FUCK THE WAR!&#8221;. Atualmente, o St. Pauli conta com dezenas de grupos organizados que animam regularmente a equipe (todos eles antifascistas, claro!) distribu\u00eddos entre a Curva Norte e a &#8220;Gegengerade&#8221;, que \u00e9 a parte do est\u00e1dio situada em frente \u00e0 tribuna central. Todos eles animam de p\u00e9 os 90 minutos da partida. Seu lugar de encontro \u00e9 o ?Fanlanden?, uma esp\u00e9cie de lugar clandestino onde se re\u00fanem todas as torcidas do St. Pauli, e onde se distribuem material do grupo e da equipe, elaboram a fanzine, re\u00fanem bandeiras, discutem futebol e pol\u00edtica e, naturalmente, tomam algumas cervejas. Tamb\u00e9m tem um programa de r\u00e1dio pr\u00f3prio onde retransmitem diretamente todas as partidas que o St. Pauli joga fora de casa.<br \/>\nNos \u00faltimos anos, as torcidas ficaram muito contentes porque o St. Pauli e o 1.FCN regressaram \u00e0 primeira divis\u00e3o juntos, enquanto o Waldhof Mannheim, que \u00e9 conhecido por suas torcidas fascistas, caiu para a segunda divis\u00e3o.<\/p>\n<p>[img:st_pauli.jpg,full,centralizado]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>St. Pauli \u00e9 um bairro portu\u00e1rio que fica ao norte de Hamburgo, na Alemanha. Do mesmo modo que o Livorno na It\u00e1lia, St. Pauli \u00e9 um dos bairros mais antifascistas da cidade de Hamburgo. Neste artigo falaremos da hist\u00f3ria da torcida de sua equipe de futebol: o FC St. Pauli. 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