{"id":112972,"date":"2017-10-31T22:39:56","date_gmt":"2017-11-01T00:39:56","guid":{"rendered":"https:\/\/historiadofutebol.com\/blog\/?p=112972"},"modified":"2017-10-31T22:39:56","modified_gmt":"2017-11-01T00:39:56","slug":"ruggeroni-foot-ball-club-sao-paulo-sp-historia-entre-1911-a-1920","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/historiadofutebol.com\/blog\/?p=112972","title":{"rendered":"Ruggeroni Foot-Ball Club &#8211; S\u00e3o Paulo (SP): Hist\u00f3ria entre 1911 a 1920"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter\" title=\"00\" src=\"https:\/\/historiadofutebol.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/0031-500x321.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"321\" \/><\/p>\n<p><em><strong>Por:<\/strong> <strong>Stenio Ramos<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Times de futebol de trajet\u00f3ria fugaz, que passam pela hist\u00f3ria como cometas, sempre existiram. H\u00e1 os\u00a0<a title=\"10 times que voc\u00ea viu jogando (e que n\u00e3o existem mais)\" href=\"https:\/\/www.ultimadivisao.com.br\/10-times-que-voce-viu-jogando-e-que-nao-existem-mais\/\" target=\"_blank\">mais recentes<\/a>\u00a0e os que desapareceram quando o futebol ainda n\u00e3o era t\u00e3o popular no pa\u00eds. Alguns deles, por\u00e9m, deixaram uma importante contribui\u00e7\u00e3o para o desenvolvimento deste esporte como express\u00e3o maior da identidade do nosso pa\u00eds. \u00c9 o caso do Ruggerone, time paulistano de origem italiana, inativo desde o come\u00e7o do s\u00e9culo passado e muito pouco lembrado at\u00e9 hoje. Uma trajet\u00f3ria r\u00e1pida, com come\u00e7o, meio e fim.<\/p>\n<h3>O Come\u00e7o<\/h3>\n<p>Na d\u00e9cada de 1910, o Brasil buscava uma identidade urbana p\u00f3s-aboli\u00e7\u00e3o em sua rec\u00e9m-fundada Rep\u00fablica, e muitos outros povos vinham ao pa\u00eds atr\u00e1s de uma identidade comum para si, entre eles a col\u00f4nia italiana, cujos oper\u00e1rios povoavam bairros como o Br\u00e1s e a Barra Funda, em S\u00e3o Paulo. Naquela \u00e9poca, eles j\u00e1 praticavam o futebol, mas o esporte n\u00e3o fazia tanto sucesso quanto outra modalidade, a corrida a\u00e9rea, uma vez que a avia\u00e7\u00e3o era tida como a grande novidade mundial recente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\n<figure id=\"attachment_5307\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.ultimadivisao.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/07\/ruggerone-estadao-300x238.jpg\" alt=\"Registro de O Estado de S. Paulo\" width=\"300\" height=\"238\" \/><figcaption>O aviador Eros Ruggerone, de boina e blusa preta.<br \/>\nFonte: \u201cO Estado de S.Paulo\u201d<\/figcaption><\/figure>\n<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ap\u00f3s o registro do primeiro v\u00f4o da Am\u00e9rica do Sul em 1909, realizado pelo\u00a0espanhol de ascend\u00eancia francesa\u00a0Dimitri S. de Lavaud sobre\u00a0o que \u00e9 hoje a cidade de Osasco, o primeiro aeroclube de S\u00e3o Paulo promoveu no bairro da M\u00f3oca, em 24 de dezembro de 1910,\u00a0uma competi\u00e7\u00e3o entre dois aviadores italianos que vieram tentar a sorte no Brasil: Eros Ruggerone e Julio Piccolo. Com a queda do avi\u00e3o de Piccolo durante o trajeto de 1km, Ruggerone venceu e tornou-se a maior celebridade da cidade. Os italianos o viam como um homem vitorioso e inspirador, pois fizera sucesso em algo que ainda era considerado muito corajoso para a \u00e9poca.<\/p>\n<p>Do dia para noite, Ruggerone havia se tornado um verdadeiro \u201cphenomeno aereao\u201d.<\/p>\n<p>Algum tempo depois, o aviador voltou a fazer exibi\u00e7\u00f5es a\u00e9reas pela cidade. Segundo o jornal \u201cO Estado de S. Paulo\u201d do dia 11 de janeiro de 1911,\u00a0a como\u00e7\u00e3o do p\u00fablico foi grande durante o trajeto, que incluiu os bairros Br\u00e1s, Pari e Largo do Arouche. \u201c<em>Havia gente por toda a parte, at\u00e9 encarapitada sobre os telhados, acenando enthusiasticamente com os len\u00e7os<\/em>\u201d, conta a reportagem, que acompanhou o voo de Ruggerone at\u00e9 a \u00c1gua Branca, onde aterrissou no campo do Parque Ant\u00e1rtica. De l\u00e1, retornou \u00e0 M\u00f3oca, completando seu roteiro de bairros paulistanos de origem italiana.<\/p>\n<p>A como\u00e7\u00e3o pela fa\u00e7anha do aviador foi tanta que alguns italianos decidiram criar um time de futebol em sua homenagem, o Ruggerone Foot-Ball Club, que jogava no Parque Ant\u00e1rtica com camisas listradas nas cores verde e amarela.\u00a0A nova equipe tinha a pretens\u00e3o de unir os italianos de S\u00e3o Paulo da mesma forma que havia feito o aviador, mas esbarrava na\u00a0dispers\u00e3o da col\u00f4nia e no fato de que muitos j\u00e1 tinham seus times locais, como o Minas Gerais FC no Br\u00e1s\/Campos El\u00edseos e o Uni\u00e3o Lapa FC no bairro de mesmo nome.<\/p>\n<div>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" title=\"00 RFBC2\" src=\"https:\/\/historiadofutebol.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/00-RFBC2.jpg\" alt=\"\" width=\"1334\" height=\"840\" \/><\/p>\n<p>Dessa forma, o clube passou seus primeiros anos jogando apenas na v\u00e1rzea, sem participar de nenhuma competi\u00e7\u00e3o oficial. O curioso \u00e9 que uma das rivalidades surgidas na \u00e9poca foi justamente com o Corinthians. Segundo o blog do Eli\u00e3o, do site Lunaticos FC, o Corinthians jogou seis partidas em 1912. A quinta foi contra o Ruggerone, que venceu por 2 a 1, impondo a primeira derrota ao advers\u00e1rio naquele ano. Mordido, o Corinthians pediu revanche e, pouco tempo depois, goleou o Ruggerone por sonoros 6 a 0.<\/p>\n<p>No entanto, quis o destino que aquela rivalidade demorasse a se repetir em competi\u00e7\u00f5es oficiais. Segundo Ademir Takara, bibliotec\u00e1rio do Centro de Refer\u00eancia do Futebol Brasileiro do Museu do Futebol,\u00a0o Corinthians se filiou \u00e0 LPF (Liga Paulista de Foot-Ball) em 1913 para jogar\u00a0o Campeonato Paulista, enquanto o Ruggerone continuou na v\u00e1rzea.<\/p>\n<p>Tr\u00eas anos depois,\u00a0a APEA (Associa\u00e7\u00e3o Paulista de Esportes Atl\u00e9ticos), entidade concorrente formada por clubes de elite que queriam manter as ra\u00edzes do amadorismo,\u00a0convidou o rec\u00e9m-fundado Palestra It\u00e1lia para disputar seu campeonato. Em resposta,\u00a0a LPF procurou algum time de v\u00e1rzea que representasse a col\u00f4nia italiana para disputar o campeonato de 1916. Acabou convidando dois, Ruggerone e \u00cdtalo Foot-Ball Club.\u00a0E assim iniciou-se a vida do Ruggerone em torneios oficiais.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" title=\"00 RFBC21\" src=\"https:\/\/historiadofutebol.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/00-RFBC21.jpg\" alt=\"\" width=\"1330\" height=\"752\" \/><\/p>\n<h3>O Meio<\/h3>\n<p>O primeiro ano em campeonatos oficiais n\u00e3o foi feliz para nenhum dos times da col\u00f4nia italiana. O Palestra It\u00e1lia terminou em pen\u00faltimo na liga da APEA, enquanto o Ruggerone n\u00e3o suportou o ritmo extenuante da competi\u00e7\u00e3o da LPF, uma vez que era preciso conciliar o trabalho com treinos e jogos. Ap\u00f3s vit\u00f3rias contra Germ\u00e2nia (da col\u00f4nia alem\u00e3) e Campos El\u00edseos entre maio e julho de 1916, a liga come\u00e7ou a marcar jogos quase quinzenais para o clube, que n\u00e3o conseguiu comparecer na maioria deles, perdendo quatro partidas por WO, inclusive contra o Corinthians.<\/p>\n<p>Por causa deste ritmo fren\u00e9tico, v\u00e1rios clubes desistiram do torneio. Corinthians e Ruggerone foram os \u00fanicos que disputaram at\u00e9 o fim, mesmo com percal\u00e7os. O Corinthians foi declarado campe\u00e3o ap\u00f3s sete vit\u00f3rias em campo, enquanto o Ruggerone ficou em \u00faltimo com duas vit\u00f3rias, um empate e quatro derrotas.\u00a0As desist\u00eancias em massa no campeonato de 1916 enfraqueceram a LPF, que acabou perdendo a briga com a APEA, com quem se fundiu em 1917. Segundo Ademir Takara, entre os clubes da LPF, s\u00f3 Corinthians e S.C. Internacional foram convidados a disputar a 1\u00aa divis\u00e3o. Para os demais, inclusive o Ruggerone, a APEA criou as in\u00e9ditas 2\u00aa e 3\u00aa divis\u00f5es.<\/p>\n<p>Assim, o Ruggerone acabou sendo inscrito na 3\u00aa divis\u00e3o de 1917, junto a outros clubes que tamb\u00e9m representavam col\u00f4nias de imigrantes, caso dos auto-explicativos It\u00e1lia, Luzitano (que deu origem \u00e0 Portuguesa) e Jap\u00e3o, este com sede no Bom Retiro. Al\u00e9m deles, tamb\u00e9m disputaram o torneio Brasil e Fluminense, formados por cariocas do Rio de Janeiro, al\u00e9m do Antarctica, time dos oper\u00e1rios da f\u00e1brica de cerveja.<\/p>\n<p>Para quem tinha a ambi\u00e7\u00e3o de ser o grande representante dos italianos em S\u00e3o Paulo, este era um cen\u00e1rio desanimador.<\/p>\n<p>Enquanto isso, o Palestra It\u00e1lia se fortalecia na 1\u00aa divis\u00e3o, agora organizada pela APEA, e atra\u00eda a col\u00f4nia italiana a ponto de fazer os melhores \u201coriundi\u201d de outras equipes trocarem de time para vestir a camisa palestrina. Tanto que, em 1917, aconteceu a primeira transfer\u00eancia oficial de um jogador do Ruggerone para o Palestra It\u00e1lia.\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ogol.com.br\/jogador.php?id=269577\" target=\"_blank\">Ant\u00f4nio Picagli<\/a>\u00a0trocou a camisa verde e amarela pela verde e branca e ajudou na conquista do vice-campeonato palestrino naquele ano.<\/p>\n<p>Distante do sonhado sucesso no Campeonato Paulista, o Ruggerone decidiu voltar o foco para o interior do estado, se oferecendo para disputar amistosos contra clubes n\u00e3o-inscritos no torneio oficial. A partida mais not\u00f3ria aconteceu em 25 de fevereiro de 1917, quando foi jogar contra o Rio Claro o Trof\u00e9u Estatueta de Biscuit, patrocinado por Jos\u00e9 Castellano, dono da f\u00e1brica de cigarros Princeza D\u2019Oeste. A vit\u00f3ria por 3 a 1 animou o Rio Claro a desafiar o poderoso Palestra It\u00e1lia, dois meses depois, no interior paulista. O est\u00e1dio da cidade lotou, mas o Palestra venceu por 2 a 0.\u00a0Tal exibi\u00e7\u00e3o \u00e9 vista como determinante na expans\u00e3o do nome do Palestra It\u00e1lia pelo interior, a ponto de fazer surgir clubes em sua homenagem em cidades como Rio Claro, S\u00e3o Carlos e Ribeir\u00e3o Preto.<\/p>\n<p>Enquanto isso, o Ruggerone seguia colecionando fracassos\u2026<\/p>\n<h3>O Fim<\/h3>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_5311\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.ultimadivisao.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/07\/269577_picagli.jpg\" alt=\"Ant\u00f4nio Picagli foi o primeiro a trocar o Ruggerone pelo Palestra It\u00e1lia\" width=\"92\" height=\"126\" \/><figcaption>Ant\u00f4nio Picagli foi o primeiro a trocar o Ruggerone pelo Palestra It\u00e1lia<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Um alento surgiu em 1919 e 1920, quando o clube foi inscrito na 2\u00aa divis\u00e3o. Contudo, os resultados n\u00e3o foram bons em nenhum dos torneios, o que acabou enterrando de vez a pretens\u00e3o de se estabelecer como o leg\u00edtimo representante da It\u00e1lia no futebol de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>O \u00faltimo registro de uma partida do Ruggerone foi no dia 14 de novembro de 1920, quando o clube marcou uma \u201cnegra\u201d (revanche) contra o Rio Claro, na tentativa de vingar a derrota sofrida dois anos antes. O jogo foi novamente na cidade de Rio Claro, e, de novo, o time do interior venceu, desta vez por 2 a 1. O clube ent\u00e3o acabou extinto no fim de 1920, sem deixar muitas saudades. No ranking de todos os clubes que jogaram a chamada \u201cera do amadorismo\u201d no Campeonato Paulista, o clube est\u00e1 em pen\u00faltimo lugar, na 49\u00aa posi\u00e7\u00e3o, s\u00f3 perdendo para o Britania AC e para 2 times que se inscreveram, mas n\u00e3o jogaram.<\/p>\n<p>Curiosamente, no mesmo ano de sua extin\u00e7\u00e3o, o Palestra It\u00e1lia mostrou que veio para ficar ao conquistar seu primeiro t\u00edtulo paulista, com Picagli, ex-jogador do Ruggerone, entre seus titulares. O destino fez com que dois clubes que come\u00e7aram t\u00e3o pr\u00f3ximos acabassem trilhando caminhos totalmente diferentes. Um rumo \u00e0 gl\u00f3ria, o outro ao ostracismo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><em>FONTES:\u00a0<\/em><\/strong><em>Revista Sportiva &#8211; O Estado de S. Paulo &#8211; \u00daltima Divis\u00e3o.Com.Br<\/em><\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por: Stenio Ramos Times de futebol de trajet\u00f3ria fugaz, que passam pela hist\u00f3ria como cometas, sempre existiram. H\u00e1 os\u00a0mais recentes\u00a0e os que desapareceram quando o futebol ainda n\u00e3o era t\u00e3o popular no pa\u00eds. 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