{"id":1063,"date":"2008-03-20T21:58:43","date_gmt":"2008-03-21T00:58:43","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.soccerlogos.com.br\/2008\/03\/20\/copa-de-78-uma-historia-obscura\/"},"modified":"2016-04-02T07:19:49","modified_gmt":"2016-04-02T10:19:49","slug":"copa-de-78-uma-historia-obscura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/historiadofutebol.com\/blog\/?p=1063","title":{"rendered":"Copa de 78, uma hist\u00f3ria obscura!!!!!"},"content":{"rendered":"<p>Ezequiel Fern\u00e1ndez Moores(AFP)<br \/>\nBuenos Aires, Argentina<\/p>\n<p>&#8220;Em minha pr\u00f3pria terra, senti, eu juro, o pior de tudo&#8230; Todo mundo falando a mesma coisa: &#8216;este traidor da p\u00e1tria, por que vem aqui&#8230;'&#8221;. Rodulfo Manzo nem sequer pode escapar \u00e0 vergonha em San Luis de Ca\u00f1ete, a 140 km de Lima, sua terra natal. Confessou h\u00e1 alguns anos. Mas essa vergonha amea\u00e7a persegui-lo por toda a vida. Manzo foi um dos zagueiros-centrais da sele\u00e7\u00e3o peruana que foi goleada em 6 a 0 pela Argentina na Copa de 1978, em uma das partidas mais escandalosas da hist\u00f3ria das Copas do Mundo e cujos fantasmas foram resgatados esses dias por Fernando Rodr\u00edguez Mondrag\u00f3n.<\/p>\n<p>O filho de Gilberto Rodr\u00edguez Orejuela e sobrinho de Miguel Rodr\u00edguez Orejuela, l\u00edderes do Cartel de Cali, revelou um dado in\u00e9dito ao assegurar que o narcotr\u00e1fico contribuiu com dinheiro para subornar o Peru. Saber\u00e1 por acaso se o Cartel de Cali tinha algum v\u00ednculo com hierarcas da ditadura que governava a Argentina e com alguns de seus membros interessados em que o mundial servisse de plataforma a suas ambi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas?<br \/>\nEsse suposto v\u00ednculo, que me foi sugerido anos atr\u00e1s por fontes ligadas \u00e0 pr\u00f3pria ditadura, teria servido \u00e0 goleada de 6 a 0 que permitiu \u00e0 Argentina estar \u00e0 frente do Brasil por melhor saldo de gols e classificar-se para a final do mundial que aconteceu em sua pr\u00f3pria casa. Jamais houve evid\u00eancias concretas. Mas os pr\u00f3prios jogadores reabriram as portas \u00e0s suspeitas em torno do desenvolvimento e do resultado final desta partida, fundamental para que a Argentina ganhasse justamente esse Mundial, para a alegria n\u00e3o s\u00f3 de seu povo, mas tamb\u00e9m da sangrenta ditadura comandada pelo general Jorge Rafael Videla.<\/p>\n<p>Ainda tenho fresca a imagem de Juan Carlos Oblitas, outro integrante daquela sele\u00e7\u00e3o peruana, quando o perguntei sobre essa partida na tribuna de imprensa no Est\u00e1dio Azteca, no dia da abertura da Copa do M\u00e9xico de 86. &#8220;Essa partida n\u00e3o foi normal, nessa partida houve coisas raras&#8221;, revelou Oblitas.<br \/>\nJ\u00e1 no ano de 1982, numa investiga\u00e7\u00e3o que realizei para a R\u00e1dio Continental, de Buenos Aires, o falecido jornalista argentino Carlos Juvenal contou que, depois do 6 a 0, encontrou-se com um grupo de jogadores peruanos no centro de Buenos Aires e que o pr\u00f3prio capit\u00e3o da equipe, H\u00e9ctor Chumpitaz, lhe confessou sobre &#8220;um dinheiro adicional&#8221;, mas completou que nunca o admitiria em p\u00fablico.<br \/>\nChumpitaz, \u00e9 claro, sempre recha\u00e7ou as suspeitas. O fez inclusive h\u00e1 alguns dias, logo quando houve a den\u00fancia do colombiano Fernando Rodr\u00edguez Mondrag\u00f3n e o havia desmentido em outro programa de investiga\u00e7\u00e3o cujo roteiro escrevi e que foi transmitido em 2003 pelo canal Telefe da Argentina, logo retransmitido em diversos pa\u00edses pelo History Channel (&#8220;A festa paralela&#8221;).<\/p>\n<p>Foi nesse mesmo programa que Manzo, ent\u00e3o um humilde pedreiro, contou que at\u00e9 seu pr\u00f3prio povo o chamava de &#8220;o vendido&#8221;. Por que ele e n\u00e3o outro dos jogadores peruanos que atuaram naquela partida? Ocorreu que um ano depois, comprado pelo clube argentino V\u00e9lez Sarsfield, Manzo, numa conversa informal sobre aquele 6 a 0, respondeu uma piada em Buenos Aires afirmando que a Argentina teve que pagar em dinheiro para lograr essa goleada. S\u00f3 horas depois teve que assinar uma retrata\u00e7\u00e3o diante das c\u00e2meras de TV assegurando que jamais havia dito isso.<br \/>\nTamb\u00e9m o goleiro argentino daquela sele\u00e7\u00e3o peruana, Ram\u00f3n Quiroga, racha\u00e7ou sempre as suspeitas sobre sua figura, mas n\u00e3o sobre a de outros. &#8220;Dos que agarraram a grana, v\u00e1rios morreram e outros morreram para o futebol&#8221;, disse Quiroga, numa entrevista ao di\u00e1rio La Naci\u00f3n, de Buenos Aires, do dia 8 de outubro de 1998, que logo, igual a Manzo, se encarregou de desmentir.<br \/>\n&#8220;Nesta partida jogou (Roberto) Rojas, um tipo que nunca havia jogado. Ele morreu em um acidente&#8230; Marcos Calder\u00f3n morreu na queda de um avi\u00e3o&#8221;, seguiu Quiroga na entrevista. E adicionou que no intervalo dessa partida ele e tamb\u00e9m Chumpitaz pediram a Calder\u00f3n que tirasse Manzo, porque &#8220;n\u00e3o parava ningu\u00e9m. No gol de (Alberto) Tarantini, o &#8220;Negro&#8221; Manzo agachou-se e o deixou sozinho. N\u00e3o sei nem por onde anda Manzo agora. Era um bom jogador, mas n\u00e3o o quer\u00edamos&#8221;.<br \/>\nQuiroga afirmou que contra a Argentina &#8220;jogaram jogadores que n\u00e3o haviam estado em nenhuma outra partida&#8221;, e mencionou Ra\u00fal Gorriti (&#8220;que entregou o quarto ou quinto gol&#8221;), a Roberto Rojas e o pr\u00f3prio Manzo, e admitiu que a equipe peruana estava dividida entre os jogadores do Alianza Lima de um lado e os do Sporting Cristal de outro.<\/p>\n<p>T\u00e3o dividido estava o time que Calder\u00f3n foi pressionado por uns jogadores para que n\u00e3o inclu\u00edsse Quiroga nessa partida, dada sua condi\u00e7\u00e3o de argentino, mas que o goleiro se manifestou seguro de poder atuar sem press\u00f5es e por isso foi finalmente inclu\u00eddo pelo treinador. V\u00e1rios gols foram feitos debaixo de seu nariz, por rivais sem qualidade. Mas tamb\u00e9m \u00e9 certo que, depois daquela goleada e durante muitos anos, no Brasil, cada vez que um goleiro cometia erros grosseiros, dizia-se que era &#8220;um Quiroga&#8221;. Quinze dias depois do Mundial, a Argentina do general Videla, que antes da partida tinha ingressado ao vesti\u00e1rio peruano junto com o ex-secret\u00e1rio de Estado dos Estados Unidos, Henry Kissinger, &#8220;outorgou um cr\u00e9dito n\u00e3o reembols\u00e1vel&#8221; ao Peru &#8220;para a aquisi\u00e7\u00e3o de quatro mil toneladas de trigo a granel&#8221;, segundo publicou o di\u00e1rio La Raz\u00f3n daquele dia, na sua p\u00e1gina 11 e sob o t\u00edtulo &#8220;Trigo&#8221;. Essa doa\u00e7\u00e3o, segundo afirmou o escritor ingl\u00eas David Yallop em seu livro de 1999 &#8220;How they stole the game&#8221; (&#8220;Como eles roubaram o jogo&#8221;), formou parte do suposto acordo da ditadura argentina com a peruana, cuja sele\u00e7\u00e3o, a pedido do t\u00e9cnico Calder\u00f3n, atuou nessa partina com a camiseta alternativa (vermelha), &#8220;para n\u00e3o passar vergonha com a tradicional alvi-rubra&#8221;.<br \/>\nYallop cita como autor do suborno o almirante Carlos Lacosta, homem forte da ditadura na organiza\u00e7\u00e3o do Mundial, logo premiado pela Fifa, que o designou vice-presidente. Lacoste, falecido em 2004, era m\u00e3o direita do almirante Emilio Massera, por acaso o mais sanguin\u00e1rio e mais ambicioso politicamente dos tr\u00eas integrantes da Junta Militar que comandava a Argentina. Contra Lacoste e Massera apontou tamb\u00e9m o ent\u00e3o Secret\u00e1rio da Fazenda da Argentina, Juan Alemann, cr\u00edtico dos gastos que demandava o Mundial e que teve uma bomba explodindo em sua casa, localizada a metros de uma sede policial no elegante bairro Norte de Buenos Aires, no mesmo momento em que a Argentina marcava seu quarto gol no Peru. Era o gol que bastava para classificar-se como finalista do Mundial. &#8220;Quem armou toda essa opera\u00e7\u00e3o sabia que iam ter quatro gols&#8221;, disse Alemann no document\u00e1rio de TV &#8220;A festa paralela&#8221;.<br \/>\nPoucos sabem que a ditadura argentina j\u00e1 havia se interessado pela sele\u00e7\u00e3o peruana alguns meses antes da Copa, quando a equipe conseguiu a classifica\u00e7\u00e3o para o Mundial diante do Chile, onde mandava o ditador Augusto Pinochet, de pouca afinidade com os militares argentinos. Fato confirmado pelo conflito de Beagle que quase acarretou uma guerra, no fim daquele mesmo 1978. N\u00e3o agradava \u00e0 Argentina de Videla e Massera que o Chile jogasse em seu Mundial. E a Junta se interessou, portanto, vivamente, pela classifica\u00e7\u00e3o do Peru.<br \/>\nO t\u00e9cnico C\u00e9sar Luis Menotti e o goleiro Ubaldo Matildo Fillol juraram at\u00e9 por seus filhos, no document\u00e1rio de TV, que o triunfo era leg\u00edtimo. Recordaram que a Argentina j\u00e1 tinha vencido com facilidade o Peru, em Lima, num amistoso pouco antes do Mundial e que, quando se enfrentaram no torneio, o Peru era uma sele\u00e7\u00e3o debilitada pelas les\u00f5es e pelo cansa\u00e7o e que s\u00f3 queria voltar a seus pa\u00eds.<br \/>\nMas o testemunho mais not\u00e1vel foi de outro jogador, Osvaldo Ardiles, pe\u00e7a-chave daquela Sele\u00e7\u00e3o Argentina e ex-t\u00e9cnico do Hurac\u00e1n: &#8220;Se voc\u00eas me perguntam se a Junta Militar fez algo, eu vou te dizer que n\u00e3o sei, mas essa gente estava preparada para fazer absolutamente tudo. Tomara que n\u00e3o tenham feito nada, que o triunfo tenha sido simplesmente esportivo. Se n\u00e3o tivesse sido assim, me sentiria muito mal, estaria pensando provavelmente em devolver minha medalha&#8221;.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ezequiel Fern\u00e1ndez Moores(AFP) Buenos Aires, Argentina &#8220;Em minha pr\u00f3pria terra, senti, eu juro, o pior de tudo&#8230; Todo mundo falando a mesma coisa: &#8216;este traidor da p\u00e1tria, por que vem aqui&#8230;&#8217;&#8221;. Rodulfo Manzo nem sequer pode escapar \u00e0 vergonha em San Luis de Ca\u00f1ete, a 140 km de Lima, sua terra natal. 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