ERRO DE APITO – Fluminense é campeão com ajuda do juiz em 1985

 

O ano de 1985 foi marcante e ao mesmo tempo doloroso para o Bangu Atlético Clube. Afinal, os Mulatinhos Rosados chegaram na grande final do Campeonato Brasileiro, e depois de um empate em 1 a 1 com o Coritiba, no Maracanã, o time viu o título escapar após o ponta esquerda Ado desperdiçar a cobrança.

Pouco mais de três meses depois, o Bangu chegava em outra final. Dessa vez no Campeonato Estadual do Rio e voltou e ficar com vice. Só que desta vez a ‘punhalada sagrou’ os corações dos banguenses. Afinal, no final do jogo, quando o Fluminense vencia por 2 a 1, o zagueiro tricolor Vica, de forma grosseira deu um verdadeiro golpe de judô em cima do atacante Cláudio Adão , dentro da área.

Contudo, o árbitro José Roberto Wright (próximo a jogada) nada marcou, entrando para a história do Maracanã como o pênalti mais claro da história do Estádio Mario Filho, Maracanã. Até hoje, 27 anos depois, os torcedores do Bangu não se esquecem daquela jogada, que poderia ter rendido o terceiro título do clube em cariocas. Além disso, eles ainda lembram que José Roberto Wright anos depois virou dirigente do Fluminense e atualmente é comentarista de arbitragem da Rede Globo. Relembrando esse fato fatídico… Leiam o que a Revista Veja e o Jornal dos Sports narraram sobre o fato.

 

Revista Veja

O carioca José Roberto Wright, 41 anos, viu-se, na última quarta-feira, sob os olhares atentos de 90.000 torcedores, diante de uma das mais dramáticas situações a que está sujeito um juiz de futebol – um pênalti no último minuto do jogo, capaz de mudar, no caso, não apenas o resultado da partida como a própria história de todo o campeonato. O tempo normal já se esgotara quando o atacante Cláudio Adão, do Bangu, foi derrubado dentro da área pelo zagueiro Vica, do Fluminense, num pênalti clamoroso que o Maracanã inteiro testemunhou. Se o juiz apitasse a falta, o Bangu teria uma esplêndida chance de empatar o jogo – até aquele instante, perdia por 2 a 1 – e ficar com o título de campeão. Wright, porém, preferiu voltar as costas para o problema e, assim, dar a vitória e o título ao Fluminense.

“Estava de costas para o lance, pois tinha apitado antes o fim do jogo”, argumentou Wright, referindo-se a uma cena – a do apito final – que, ao contrário do pênalti não assinalado, ninguém notou no estádio lotado. “Foi um roubo descarado, mas agora não tem mais jeito”, lamentava desolado, com as mãos na cabeça, o patrono do Bangu, Castor de Andrade. Castor estava duplamente certo: Wright falhara e sua falha não tinha mais conserto. Em futebol, o juiz tem poder absoluto para determinar o que está certo ou errado dentro das quatro linhas de jogo. Mesmo que se prove posteriormente que sua decisão foi equivocada, ou que o próprio juiz admita o erro, numa raríssima autocrítica, o mal jamais é reparado. O juiz pode até ser punido pelos tribunais esportivos ou pelos cartolas, mas o resultado do jogo é mantido. Em 1973, por exemplo, numa decisão do campeonato paulista, o grande Armando Marques errou a conta na disputa final de pênaltis entre Santos e Portuguesa. Constatada a falha, a solução para contorná-la foi declarar os dois times campeões.

Carreira agitada – Até aquele momento, Wright cumpria uma atuação praticamente sem falhas, confirmando sua condição de juiz competente, reconhecida pela própria FIFA, o órgão que governa o futebol mundial, de cujo quadro internacional de árbitros faz parte. O resultado do jogo era justo prêmio ao futebol superior apresentado pelo Fluminense. Depois de sofrer um gol aos 4 minutos, conseguiu marcar dois, mas a vitória e o título só foram garantidos com a inestimável colaboração de José Roberto Wright.

Embora Wright tenha integrado a equipe de atletismo do Fluminense nos anos 60, seria injusto acusá-lo de agir de má fé na decisão carioca. Nem foi essa a primeira confusão em que se meteu em 14 anos de carreira como juiz. Em 1981, ele encerrou prematuramente um jogo entre Flamengo e Atlético, pela Taça Libertadores da América, o campeonato sul-americano de clubes, ao expulsar cinco jogadores do time mineiro ainda no primeiro tempo. Graças a esse empurrão, o Flamengo acabaria campeão continental e mundial de clubes.

Um ano depois, Wright protagonizaria outro caso ainda mais extravagante. Em combinação com a TV Globo ele apitou o jogo final da Taça Guanabara, entre Flamengo e Vasco, com um gravador escondido sob a camisa. A idéia era mostrar na TV como jogadores e juízes se entendem, ou se desentendem, dentro do gramado. Indignados pelo que consideraram uma invasão de sua privacidade, os atletas das duas equipes fizeram uma denúncia contra o árbitro na Justiça Desportiva. Wright foi suspenso por 40 dias. Pelo menos naquela ocasião ele conseguiu desagradar a todos indistintamente.

 

 O Jornal dos Sports

O Maracanã foi palco de uma decisão em que raça, determinação, personalidade e categoria foram os ingredientes do Fluminense para conquistar o título de tri-campeão do Rio de Janeiro, no dia 18 de dezembro de 1985, com vitória por 2 a 1 sobre o Bangu, de virada. O adversário e grande parte da mídia reclamaram de um pênalti não marcado pelo árbitro José Roberto Whight, no último minuto, quando o zagueiro Vica derrubou Cláudio Adão.

O campeonato foi decidido num triangular do qual participaram também o Flamengo, que foi eliminado. Para a decisão, o Bangu levou o direito de empatar.

Se entrar com vantagem já era bom, com o gol conquistado aos quatro minutos as coisas melhoraram: Perivaldo bateu falta pela direita e Marinho fez 1 a 0. O Bangu ainda teve outras boas chances, mas não ampliou.

No segundo tempo, o Fluminense mostrou logo que estava a tudo para chegar ao título. Aos poucos, foi ganhando espaço e chegou ao empate aos 19 minutos, gol de Romerito. A torcida foi ao delírio e começou a participar mais ainda do jogo. Com tamanha pressão, a virada aconteceu aos 31 minutos, depois de uma falta próxima à área. Paulinho cobrou no ângulo. Golaço! Os jogadores do Bangu partiram desesperadamente em busca do empate.

No minuto final, surgiu a polêmica. O zagueiro Vica derrubou Cláudio Adão dentro da área e José Roberto Wright ignorou o pênalti. Os jogadores do Bangu se revoltaram, cercaram o árbitro e tiveram de deixar o campo com a explicação de que o apito que ouviram no momento da falta era o do fim do jogo, não o da marcação do pênalti.

BANGU 1 x 2 FLUMINENSE
Competição:
Campeonato Carioca (Final)
Local:
Maracanã (18 de dezembro de 1985)
Renda:
Cr$ 1.670.240.000,00
Público:
88.162 pagantes
Árbitro:
José Roberto Wright, auxiliado por Wilson Carlos dos Santos e Pedro Carlos Bregalda
Gilmar, Perivaldo, Jair, Oliveira e Baby; Israel, Arturzinho e Mário; Marinho, Fernando Macaé (Cláudio Adão) e Ado.
Técnico: Moisés
Paulo Victor, Beto, Vica, Ricardo Gomes e Renato; Jandir, Delei e Renê; Romerito, Washington e Tato (Paulinho).
Bangu 1 x 0: Marinho, aos 4min do 1º tempo
Bangu 1 x 1: Romerito, aos 18min do 2º tempo
Bangu 1 x 2: Paulinho, aos 31min do 2º tempo
Perivaldo, Mário, Marinho, Oliveira e Fernando Macaé (Bangu); Vica, Deley e Romerito (Fluminense)
Perivaldo, Mário e Cláudio Adão (Bangu)

Fonte: Revista Veja (25 de dezembro de 1985) e JS.

 

Este post foi publicado em 01. Sérgio Mello, História do Futebol, Rio de Janeiro em por .

Sobre Sérgio Mello

Sou jornalista, desde 2000, formado pela FACHA. Trabalhei na Rádio Record; Jornal O Fluminense (Niterói-RJ) e Jornal dos Sports (JS), no Rio de Janeiro-RJ. No JS cobri o esporte amador, passando pelo futebol de base, Campeonatos da Terceira e Segunda Divisões, chegando a ser o setorista do América, dos quatro grandes do Rio, Seleção Brasileira. Cobri os Jogos Pan-Americanos do Rio 2007, Eliminatórias, entre outros. Também fui colunista no JS, tinha um Blog no JS. Sou Benemérito do Bonsucesso Futebol Clube. Também sou vetorizador, pesquisador e historiador do futebol brasileiro! E-mail para contato: sergiomellojornalismo@msn.com Facebook: https://www.facebook.com/SergioMello.RJ

3 pensou em “ERRO DE APITO – Fluminense é campeão com ajuda do juiz em 1985

  1. Antonio

    Esse juiz marqueteiro da Globo já apontou muito, inclusive aquele jogo da Libertadores de 1981, quando aos 30 minutos de jogo expulsou varios jogadores do 🐓 Galo
    e encerrou a partida beneficiando os urubus.
    José de Assis Aragão também foi decisivo na final do campeonato brasileiro de 1980.
    Difícil jogar contra cariocas. Sempre tem um juiz amigo.
    Com muita sorte o 🐓 esse ano de 2021 conseguirá vencer a máfia carioca.

  2. Nilson

    Assisti aquele grande jogo entre aquela brilhante e vencedora equipe do Fluminense e o bom time do Bangu. Foi lastimável o que ocorreu no final do jogo, embora o Fluminense merecesse o título pela raça, determinação, objetividade e qualidade.
    Nilson

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